E ao segundo jogo, nem uma semana decorrida, os campeões do mundo vão para casa. O Pedro apresentou uma razão para isso: a falta de sede de vitória. É uma observação crucial mas que me parece redutora. Claro que o Pedro concordará comigo quando eu digo que existiu uma combinação de efeitos, mas mesmo a simplificação com a falta de ambição não chega.
Vejamos: o estilo de futebol espanhol, o tiki-taka, é baseado na retenção de bolas e no passe curto entre os jogadores a meio campo. Esta é a explicação rápida. Mas é também um estilo de jogo que depende do passe rápido; da noção constante da própria posição da dos colegas; e depende aí do movimento constante sem bola, de forma a criar linhas de passe simples. O Pedro tem toda a razão quando refere a falta de desejo. Sem essa vontade de ganhar, de jogar com intensidade, os passes tornam-se preguiçosos e a movimentação mais lenta. Isso viu-se contra a Holanda. Outro factor que pesa imenso é a idade. Xavi e Xabi Alonso não estão novos e isso torna os minutos que levam nas pernas ainda mais pesados que no passado. Além disso parece óbvio que a condição física especialmente dos jogadores do Barcelona decaiu depois da saída de Guardiola, primeiro, e Villanova, depois.
O problema poderia ter sido parcialmente resolvido com sangue novo e outras tácticas. Infelizmente algum do sangue novo ficou lesionado (Thiago, Jesé Rodriguez) ou não foi seleccionado (Isco, Carvajal, Ander Herrera). Já do lado das tácticas, a única modificação feita por del Bosque foi a introdução de Diego Costa. Este parecia ser a resposta aos problemas da equipa espanhola, mas não chegou a ter tempo de se adaptar a um estilo completamente diferente daquele que jogou ao longo da época (possessão em vez de contra-ataque).
A renovação de que fala o Pedro foi sendo feita de fase final para fase final. De 2008 para 2010, a Espanha adicionou Busquets, Pedro, Piqué, Navas, Llorente, etc. Para o Euro 2012 a Espanha surgiu com um estilo diferente (efectivamente um 4-3-3-0) e adicionou Silva, Alba ou Mata à equipa. Para este mundial adicionou Azpilicueta (que não foi um upgrade em relação ao fiável Arbeloa) e Diego Costa. Certo que no banco estava, por exemplo, Koke, mas este sabia que a sua participação seria reduzida.
Por outro lado, depois da guerra qualquer um é general. Não era difícil de perceber a lógica de del Bosque ao confiar na velha guarda que tanto lhe deu a ganhar. Foi um erro, sem dúvida, mas é prematuro falar na morte do tiki-taka, tal como tenho lido e ouvido por muito lado. Uma das razões para esses comentários, para além da eliminação da Espanha, é o declínio do Barcelona e a forma como o Bayern foi destroçado pelo Real Madrid este ano. O problema desses comentários é que não percebem o oposto: o Bayern de Munique foi este ano destroçado não por tiki-taka a mais mas por tiki-taka a menos. No próximo ano poderemos estar certos que Guardiola vai fazer subir os níveis de posse de bola. Por outro lado, a adopção do estilo de retenção de bola por parte de tantas equipas (o próprio Chile, a Itália, o Liverpool e o Manchester City em Inglaterra) demonstram que este é o estilo preferido do momento. O facto de haver antídoto não é de espantar: as tácticas mudam ao longo dos tempos e os sistemas evoluem constantemente para poderem neutralizar os adversários e poderem acrescentar armas ao arsenal.
A Espanha vai certamente continuar a ser uma favorita em Europeus e Mundiais. Prontos para entrar estão Koke, de Gea, Javi Martinez, Illarramendi, Isco, Herrera, Thiago, Deulofeu, Jesé, etc. E ainda se manterão Busquets, Piqué, Ramos, Alba, Fábregas, Iniesta, Costa, Silva, Mata e, talvez, Casillas, que em dois anos não desaprendeu de ser guarda-redes. Xavi poderá não ter sido necessariamente o melhor jogador da história da selecção espanhola (em termos de puro talento outros poderão reclamar também o manto), mas foi sem dúvida o mais importante. Por estes dias em que o seu tempo chega ao fim, seria uma homenagem muito pobre ao seu contributo tentar apagá-lo. Especialmente quando tantos há que estarão prontos a demonstrar que a luz de Xaci ainda os guiará pormuito tempo.
Da minha parte, e mesmo reconhecendo que considerei muitas vezes o futebol espanhol como chato, deixo a minha homenagem. Obrigado Espanha. Obrigado Xavi. Pelo futebol e pela nova forma de o pensar.



acho que o david silva é um grande jogador e só por isso queria fazer um reparo: verifique por favor que o david silva esteve sempre na equipa principal quando a espanha foi campeã da europa em 2008, com o luis aragonés. curiosamente, nessa equipa, o trinco era um brasileiro naturalizado espanhol (evidentemente).
e, depois, porque é que ninguém, mas mesmo ninguém, fala do lesionado valdés?
será que a baliza do barça nestes anos todos não necessitou de ter um guarda-redes?
se o valdés estivesse no brasil, ia ser mais complicado para o del bosque manter o casillas a titular. certamente que o iria manter, mas teria que o explicar ao valdés.
Esse brasileiro naturalizado espanhol era o Marcos Senna – que fez um grande Europeu em 2008 e foi um dos elementos preponderantes da Roja nesse campeonato.
Tem razão, a memória atraiçoou-me. No entanto quando chegou mais tarde à equipa de forma mais sólida injectou nova dinâmica. Mas é verdade, já lá anda há mais tempo do que eu pensei.
Caro João: torci pela Espanha em 2008, 2010 (após ter eliminado Portugal) e 2012. Estes jogadores, de algum modo, também foram meus heróis. O futebol mundial deve-lhes muito.
Faltou no entanto golpe de asa aos responsáveis da selecção espanhola para terem operado uma mudança mais funda e radical com vista a este Campeonato do Mundo. E faltou ousadia a Del Bosque para alterar profundamente a equipa após os 5-1: apostou (quase) no mesmo e sofreu outra derrota, mais que previsível, por dois golos sem resposta.
Vai ter que mudar agora, forçado pelas circunstâncias. É sempre a pior forma de agir. No futebol como na política ou em qualquer outra actividade.
Quanto à falta de ambição: por coincidência, Xabi Alonso acabou também por meter o dedo na mesma ferida: bol/mundial/espana/1403128608.html
http://www.marca.com/2014/06/18/fut
Não reclamo originalidade alguma. As coisas são o que são.
Prossegue esta série. Continua a ter alguns dos melhores textos sobre futebol que já li na nossa blogosfera.
Não é uma questão de originalidade Pedro, é apenas uma questão de onde leio os comentários e os teus são dos primeiros que vou lendo. No The Guardian Sid Lowe fala do mesmo numa das suas excelentes crónicas sobre o futebol espanhol: g/2014/jun/22/spain-world-cup-what-went-w rong
http://www.theguardian.com/football/blo
A série vai prosseguindo, de acordo com disponibilidade de escrita mas também de ir vendo os jogos (difícil neste momento).
Eu tirei uns dias de férias para ver tudo quanto me apetece. Faço sempre isto, de quatro em quatro anos.