Mundial no sofá (13)


joaomsandre,

 

Alemanha 7 – 1 Brasil

 

Escrever o resultado acima é um exercício estranho, algo surreal. É o tipo de resultado que imaginaríamos Dali a colocar num hipotético quadro com futebol em pano de fundo, num hipotético filme sobre futebol de Buñuel ou num hipotético poema de Llorca.

 

Analisar o jogo é difícil, uma vez que vimos uma tempestade perfeita. Os alemães foram perfeitos técnica e tacticamente, foram impiedosos e brutais. Os brasileiros foram um desastre nos mesmos aspectos e poderiam ter saído com mais, muitos mais, golos sofridos (e mais umas expulsões ainda cedo na primeira parte).

 

O primeiro aspecto, o táctico, e onde eu creio que o Brasil perdeu o jogo. A Alemanha, como escrevi várias vezes, jogou sem ala esquerda. Por outro lado tinha uma ala direita que assustava: não só Lahm andava por esses lados como também era o território de Müller e tinham o apoio frequente de Khedira. Misteriosamente, em vez de dar ordens à sua equipa que canalizasse o ataque pelo lado direito, Scolari parece ter decidido o oposto: deu ordens a Marcelo que avançasse sem medo.

 

No papel a ideia não era disparatada. Atacando e pressionando o lado direito alemão seria uma forma de o manter sossegado e as subidas de Marcelo podiam então compensadas por Luís Gustavo. Na realidade foi um desastre de proporções inacreditáveis. Lahm aguentou firme, recebeu apoio de Khedira e Müller e, com Luís Gustavo deslocado para a esquerda, Schweinsteiger e Kroos ficaram à vontade tendo pela frente apenas Fernandinho. O resto foi diversão, com os comentários no Facebook ao intervalo a serem suficientes para uma antologia.

 

Três notas extra apenas:

 

1. Thiago Silva demonstrou com a sua ausência que não é o defesa mais espectacular que é importante. É o outro, o mais calmo, concentrado e inteligente. A parceria Puyol/Piqué já o tinha demonstrado vezes sem conta. Para quem precise de mais material basta ver jogos italianos entre 1985 e 2000, especialmente com Baresi, Nesta, Costacurta, Maldini ou Cannavaro. Está lá tudo.

 

2. A ausência de Neymar não fez muita diferença. Já não tinha feito muito nos últimos jogos e não faria muito neste. O resultado, com ele e Thiago Silva, não seria tão desnivelado, certamente (o mesmo jogo amanhã não seria tão desnivelado), mas não mudaria muito. Já as constantes referências a ele apenas relembraram a equipa que estava sem o talismã. Aqui Scolari terá ido longe demais com o jogo psicológico.

 

3. Kroos ainda não renovou pelo Bayern de Munique. Quer 12 milhões por ano, o mesmo que recebem Lahm e Müller. O Bayern oferece 7. Pelo que temos visto neste mundial, se ele sair do clube, aquele que lhe pagar 12 provavelmente ficará convencido que ficou com a pechincha do século.

6 comentários em “Mundial no sofá (13)”

  1. Isto dos prognósticos no futebol…

    Brasil – Alemanha, por João André, em 08.07.14

    “Isto apesar de a Alemanha me deixar incrivelmente frustrado. A teimosia de Löw em jogar com Özil do lado esquerdo faz com que a Alemanha jogue coxa, sem ala esquerda. Mesmo que Lahm se mantenha a defesa direito fica por saber quem joga no ataque, Klose, Götze ou Schürrle. O vosso palpite é tão bom como o meu. Se optar por Klose mais vale que Scolari faça entrar Daniel Alves, uma vez que não vai precisar de um defesa direito que defenda bem.

    Em condições normais isto daria vitória à Alemanha (é mais equipa), mas Löw pode muito bem borrar a pintura e nunca se sabe o que pode surgir numa bola parada do Brasil. Além disso, se o árbitro continuar a protecção ao jogo faltoso brasileiro, dificilmente a Alemanha criará alguma coisa.”

    O melhor é mesmo esperar pelo fim do jogo, meu caro João André.

    1. Caro João, obviamente que qualquer previsão pode falhar. Por isso mesmo é uma previsão. Se me disser que conseguiu prever o descalabro só lhe posso dar os parabéns.

      Nada do que eu escrevi perde validade. A Alemanha destruiu o Brasil usando o flanco direito, com a combinação Lahm, Müller e Khedira. A Alemanha marcou um único golo através do flanco esquerdo: o sétimo. De facto, fazer entrar Daniel Alves ou Maicon não fez qualquer diferença: quando não se usa esse flanco não faz diferença quem lá esteja. Quanto ao resto, um descalabro é um descalabro. O início do jogo foi algo periclitante para os alemães, parcialmente porque de facto o árbitro andava a dar liberdade para as tácticas de pancada. Só que com o segundo golo os brasileiros desfizeram-se de forma que ninguém esperaria para um defesa que continha 5 vencedores da liga dos campeões.

    2. Não é assim que se critica uma previsão , para começar é preciso ver se a lógica está incorrecta, e depois se os factores o estão.
      A única coisa que me parece não foi indicada pelo autor é fragilidade mental da equipa Brasileira.

      1. Pois, para variar, concordo com o lucklucky, e não acho que o João André tenha estado mal na previsão.

        Previsão é pré-visão, não é pós-visão.
        Análise do jogo é que é a pós-visão.
        Infelizmente confunde-se uma coisa com outra.

        A previsão no futebol é normal falhar, porque o jogo tem factores aleatórios que não são controláveis. O que interessa na previsão é procurar alguma racionalidade num evento bastante caótico.
        Se o árbitro tem apontado o penalti sobre Marcelo, tudo poderia ter sido diferente. A bola que bate no poste… pequenos detalhes que fazem diferença.

        A lógica de que é só o resultado que interessa é que tem levado maus treinadores a manterem-se em estado de graça, ou bons treinadores a serem despedidos, ao primeiro mau resultado.

        Não estou de acordo que o Neymar não teria feito diferença.
        Talvez não tivesse evitado a derrota, mas a Alemanha certamente que não seria tão atrevida, e teria despendido mais recursos na sua marcação.

        1. Neymar teria feito a diferença no volume, mas não no resultado (vitória, derrota ou empate). Aí creio que concordamos. Talvez Thiago Silva tivesse sido mais importante neste outro aspecto.

          Por outro lado, também a Alemanha viajou sem vários jogadores que poderiam ter sido ou titulares ou quase (Gündogan, os irmãos Bender,Reus) e tem pelo menos dois que vinham sem grande ritmo por causa de lesões (Khedira e Schweinsteiger).

          Seja como for, como se costuma dizer, depois da batalha, todos somos generais.

      2. É verdade, não comentei antecipadamente esse aspecto porque nunca esperaria que viesse tão ao de cima. Mesmo no jogo ainda hoje me custa a acreditar que foi uma coisa tão simples vinda de uma defesa que alinhou com 5 vencedores da Liga dos Campeões. E sendo Scolari normalmente muito bom nesse aspecto (não gosto dele mas reconheço-o) nunca o esperaria.

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