
Afinal um processo que eu sempre julguei ser cristalino, revelou-se muito pouco cristalino, sendo até profundamente opaco. Nunca me passou pela cabeça que a Comissão Europeia fosse envolver a sua vice-presidente numa corrida à ONU, com o apoio declarado da Alemanha, sem que a vitória estivesse assegurada à partida. Mas afinal parece que a Kristalina Georgieva não soube aproveitar da licença sem vencimento de um mês que tão generosamente lhe foi concedida. Regressa assim rapidamente ao cargo de origem, depois de uma frustrada experiência de poucos dias em Nova Iorque. Confirma-se afinal a regra dos comissários europeus: só assume essas funções quem não consegue ter sucesso político em lugar nenhum. Tudo normal, portanto.

Permita agora decifrar o enigma sobre minhas duas intervenções em seus posts e procurar demonstrar-lhe onde reside o erro.
1 – O direito de veto fazia sentido e marcava a diferença quando o mundo era bipolar. Onde tudo se decidia não só por causa das influências das 2 superpotências como também pela dependência vincada que os diferentes blocos, leste e oeste, estavam sujeitos.
2 – O mundo de hoje começa a ficar marcado por pequenos poderios rebeldes que podem desestabilizar o mundo, e desestabilizam mesmo, devido não só aos recursos como também às rotas geoestratégicas que lhes são inerentes.
3 – Guterres conseguiu nesse terreno despertar enorme simpatia e demonstrar não neutralidade mas parcialidade na defesa daqueles que mais necessitavam. O mundo, não obstante as dissidências vividas, possui ainda valores que devem ser aproveitados, ao contrário do que tem feito esta Europa na sua cavalgada sob a perspectiva de um conhecimento saloio e de uma civilização na mesma linha. Tais valores assentam essencialmente no leste europeu, no norte de África e Médio Oriente, em países africanos subsarianos, na ásia e em todos que vivem também os valores da cristandade, como é o caso de Portugal não obstante as pantominices pseudo-científicas e filosóficas que se vão conhecendo num ou outro sector social.
4 – Por último, começamos a compreender que a influência já não se exerce pela força e pela força do dinheiro. Mas pela capacidade em congregar vontades e agregar as diferenças.
Perdoe-me dizer-lhe, Luís, que é aqui que o seu raciocínio também erra. O Luís ainda está dependente da anterior visão de que a força tudo podia. Depois da II guerra verificou-se que nunca nenhuma batalha travada entre as superpotências foi ganha por esta via. Ex: Vietnam, Afeganistão, Coreia…
Que visão tão idílica da realidade internacional. Ideal de facto para Guterres assumir esse cargo. Só espero que ele depois não venha dizer que também descobriu que a política internacional é um pântano.
É de tal forma idílico que no meio de tanta tempestade 750 ONG´s vieram exercer o seu direito à exigência de transparência na ONU.
Se a política internacional tem sido um pântano, esta movimentação que existiu veio revelar-nos que era possível e necessário mandar uma pedrada no charco.
Repetindo-me : para aquele papel, quanto mais choninha e Yes man melhor…
Os EUA e Rússia a páginas tantas perceberam que tinham perdido o control do processo e que, tal como nos Brexites, os referendos são perigosos.
A prósito: a “nossa” dita República foi, alguma vez, referendada ?. Espera-se coerência nos comentadores e políticos. Ou será que referendos só os que têm resultados que agradam ?.
Caro Luís, o seu post denota um certo mau perder. Achei que tinha boas razões em bastantes das suas analises anteriores, pensando unicamente que a diplomacia internacional é certamente mais complicada do que parece (principalmente devido à assimetria de informações) e que ainda nos podiam esperar surpresas (para ambos lados).
Tiro o chapéu sem ter a certeza de ter em mão todas as razões que levaram a nomeação de Guterres. Mas não vale a pena ter mau perder.
Não tenho qualquer mau perder. Sem ter qualquer entusiasmo pelo personagem, obviamente que prefiro Guterres à búlgara Kristalina. Julguei, no entanto, que quem a lançou à última hora — e não foi só o Mário David — sabia o que estava a fazer. Nesse aspecto enganei-me, o que só demonstra o tipo de pessoas que afinal gerem a Europa.
Permita-me dar a minha opinião: simplesmente enganou-se na análise efectuada anteriormente. Acontece. Até porque o mundo nos dias de hoje já quase nada é dado como certo, tudo está em constante ebulição.
Vai ser lindo quando daqui a um ano e pouco Guterres declarar que o mundo é um monte de esterco e depois pisga-se daqui para fora para Marte nas naves do Sr. Musk —infectando a primeira colónia com o vírus mentiroso do socialismo—, deixando os seus adoradores nacionais cá em baixo na Terra com as calças em baixo.
Tenho muita dificuldade em perceber a indignação dos que vêm na tardia candidatura desta senhora bulgara um golpe ou um “processo opaco” como escreveu o autor do post.
Goste-se ou não dela, porque cargas de água é que a senhora estava impedida de se candidatar ao cargo de secretária-geral da ONU? só porque um português estava quase com o lugar no bolso e muita gente pensou que esta candidatura era o resultado de mais uma negociação de bastidores, como é uso e costume na ONU? nunca mais nos livramos deste provincianismo bacoco.
Guterres ganhou e ganhou bem. Só me resta desejar-lhe toda a sorte do mundo no desempenho de um cargo que depende muito dos interesses dos membros permanentes do Conselho de Segurança.
Não existe nenhum impedimento na candidatura da senhora. O que se pode comentar são os discursos da senhora Merkel a este propósito, entre outros, e a contradição também da Rússia expressa pela boca de seu mandatário na ONU.
Quanto ao Luís, desde logo me prenunciei a respeito de sua reflexão matemática e com sentido, e alertei para o expectável num mundo em que Portugal continua a pretender ficar fora por dificuldades em observar as transformações tímidas que se estão a operar.
A importância da nomeação de Guterres também se pode aferir através da posição de Israel, quando veio dizer que espera que com ele cessem as perseguições da ONU ao estado Hebreu. Discurso feito num momento em que se encontram mandatários do TPI em Israel e na Palestina. Significa isto também para reforçar minha afirmação que a cartada se jogava por influência do mapa nessa e noutras regiões. Pelo que o nosso PR soube apresentar o correcto discurso na mira de trazer também os árabes a este confronto.