Acabo de ouvir o discurso de investidura de António Costa para o terceiro mandato como presidente da câmara de Lisboa. Um discurso que achei notável por contrastar tanto com o espírito deste tempo concreto em que vivemos, marcado por um radicalismo febril, pela ausência de consensos mínimos sobre questões basilares para o futuro português e por uma linguagem que vai rompendo todas as normas aceitáveis de cordialidade cívica e tolerância democrática.
Sem se confinar a trincheiras ideológicas, com palavras mobilizadoras, o autarca fez um apelo à multiplicação de esforços para alcançar desígnios de interesse colectivo. Reeleito a 29 de Setembro com 50,9% dos votos expressos dos eleitores da capital, deixou claro que não confunde maioria com poder absoluto. Dirigiu frases de apreço e consideração aos adversários políticos, do passado e do presente. E não hesitou sequer em utilizar a expressão “aliança nacional” para dar ênfase à sua mensagem agregadora. Enquanto garantia: “É preciso estar sempre atento ao sentimento dos cidadãos, saber ouvir todos.”
Alocuções deste género deviam ser a regra na política portuguesa. Infelizmente, nos tempos que correm, são a excepção. Um ponto decisivo a favor de António Costa. Hoje em Lisboa, amanhã onde quiser. Muito à frente, muito acima e com muito mais nível do que um possível rival da mesma origem partidária, incapaz de abrir a boca sem distribuir anátemas com a fracturante soberba e o exacerbado narcisismo de quem se imagina sempre no centro de tudo e persiste em fazer de si próprio o tema dominante.
Não imaginamos Costa dizer algo deste género: “Não sinto nenhuma inclinação de voltar a depender do favor popular.”
Desde logo por ser uma frase de uma arrogância quase chocante, sobretudo vinda de alguém que durante um quarto de século dependeu do “favor popular” para exercer sucessivas funções políticas. E também por transmitir a sensação de que se afirma uma coisa enquanto se pensa noutra, bem diferente. Como aliás o tempo demonstrará.


Subscrevo completamente. O que faz falta é isto, conciliação, serenidade, humildade e espírito construtivo. Gosto de António Costa, do modo, do tom. Já o contrário, não, de todo. Do ex PM, a incendiar as hostes, e de tantos outros, autarcas inclusivamente, que adotam o mesmo estilo. Livra… 🙂
A hora é de construir pontes, AE. Não é o momento de derrubar as poucas que existem. O discurso de António Costa aponta na direcção certa.
Gostei… Só peço ao santo António, padroeiro de Lisboa que, por detrás deste notável discurso, não esteja nada “escondido na manga”, isto é, oposição ao seu (ainda) líder partidário… Por sinal o notado e notável ausente na cerimónia de posse… Como ontem no Museu da Eletricidade…
Temos curto-circuito!!!
Não me leve a mal, até porque nem é nada pessoal, é só um reparo – já não há lideres, essa terminologia comporta princípios nobres ,e, acima de tudo um líder é um guia capaz de se prestar a dar o exemplo como prova do caminho a seguir. Somos um povo de chefes; lambedores titulados que andam por aí cheios de conversa fiada.
Não lidera quem quer, mas quem pode. E às vezes quem pode não lidera. Para não dizer quase sempre.
Hum… ambíguo. x?fid=30&did=125880
Quem pode, pode e prefere mexer os cordelinhos. As marionetas que vão dando a cara.
Agora vem mesmo a calhar a questão: A troco de quê?
Livros de cabeceira: http://rr.sapo.pt/informacao_detalhe.asp
Aí está um livro que tenho todo o interesse em ler. Conheço pessoalmente a autora, que é sem dúvida uma jornalista muito competente.
Já esta encomendado. Prefiro este ao do pseudo-filósofo. Mais agora que você diz que a autora é boa profissional.
Vou encomendar também e espero falar em breve desse livro aqui.
Com todo o respeito, o padroeiro de Lisboa é S.Vicente (ou o primeiro padroeiro, se assim chocar menos). S.António é um “padroeiro” recente, porque talvez ficasse mais bonitinho nas festas de casamento da cidade 🙂 . Cumprimentos
São Vicente, sim, é o padroeiro. E dá nome a uma das sete colinas de Lisboa (uma das mais visitadas, por sinal).
Que será feito do António José? Não foi ao lançamento do livro do José nem à posse do António.
Julgo que faltou à posse de Costa por impedimento pessoal. À outra diz que não recebeu convite. E lá diz o ditado: a festas e baptizados…
“E também por transmitir a sensação de que se afirma uma coisa enquanto se pensa noutra, bem diferente. Como aliás o tempo demonstrará.”
Resta agora saber se ao Costa não se aplicará o mesmo.
A política é uma caixinha de surpresas. Daí ter tanto interesse.
Explora-se mais aquilo que mais temos a nosso dispor.
É simples e eficaz, significa publicidade grátis que se traduz em best seller.
Resultado: Os cães ladram e a caravana passa.
Raras vezes vi um livro com tanta publicidade gratuita na televisão. Se não for ‘best seller’ não será certamente por falta de publicidade. E eu a pensar que as televisões não davam borlas em matéria de publicidade…
Bravo. Belisco-me a ver se leio bem. Já me julgava anormal, eu que tendo votado PS 2005 com grande entusiasmo, repetido em 2009 com convicção, em 2011 sem alternativa, leio a entrevista ao Expresso e não encontrei ainda coragem de dizer tudo o que senti. É mesmo pesporrência, um ego incomensurável, um desrespeito por FC, Teixeira dos Santos, a História do PS. Juntando o que vejo, àquilo leio no submundo dos blogs, clubes de fans e facebook, às facadas nas costas do SG, com a faca empunhada pelo(s) homem de mão, ao estender de passadeiras vermelhas por TODA a CS, tenho vergonha e algum medo. O homem é perigoso e usa a CS com maestria. O enorme monólogo na TSF, sobre o livro, sonso, em tom de voz meloso, doutrinário, só interrompido pelo jornalista no fim, para recados, recados para dentro do PS. Tenho mesmo vergonha, ver os adoradores de sempre muito contentinhos espalhando a mensagem. Com a idade fiquei muito cínica, e já percebi o guião do filme, que de um plano A encalhado, retomou um plano B hibernado, e pronto a ver a luz do dia. O programa segue dentro de momentos..
Grato pelas suas palavras quanto ao meu texto. Espero que o beliscão não tenha doído…
Pedro,
compreendo perfeitamente o que escreve e o que não escreve, mas que imagino que pensa. Estamos de acordo sobre o discurso de Costa. Mas eu vejo algo mais neste discurso: vejo que Costa percebeu que o poder está na rua, sem cair na rua, que o cidadão quer reformas efectivas e afectivas, e nada de lenga-lengas de quem diz que refunda, mas afunda; e de quem diz que reforma, e enforma pacotes com um quê de nada.
Costa percebeu isto, e está a usar a regionalização, tema muito querido a Sampaio, para contrariar as tendências neo-modernistas que consiste em fazer de conta que se faz nada fazendo.
Num comentário num post de Luís Menezes Leitão, afirmei que Sócrates tinha um deserto para percorrer, e a sua atitude revela que é grande esse caminho. Mas também revela que é no deserto que ocorrem frequentemente os exorcismos; e parece-me que Sócrates quer retribuir o que sente que tirou a este povo. Atacando exactamente, e bem, aqueles a quem se aliou.
O que surgiu após Sócrates é a reprodução de Sócrates, e creio que isso deva irritar Sócrates, porque quase sempre incomoda aquilo que em cada um é ou foi. Só por isto entendo, aceito e incentivo a atitude de Sócrates.
Por outro lado, tenho a certeza que muitos à direita aplaudirão Costa, porque é Seguro quem incomoda. E este, paulatinamente, vai ganhando independência e terreno. Costa dependerá sempre do apoio de Seguro para se lançar nas Presidenciais. Até agora não encontro, para a Presidência, outra alternativa mais credível a Costa.
A melhor maneira de contrariar quem desgoverna é tudo fazer-se para que nos governemos, sem eles.
“Não açaimarás o boi que debulha”.
Calma, meu caro. Aplaudir Costa não é denegrir Seguro. Julgo eu. Se já tivéssemos chegado aí muito mal andaria o maior partido da oposição…
Caro Pedro,
acabou de me tirar um peso de cima. Agora sim, estou calmo. Não por causa do PS, mas porque na realidade vejo virtudes em Seguro que preocupam a muitos (Costa, Soares e alguns mais, a ala socratiana e também os laranjinhas. O CDS, como é sabido, nunca faz ondas onde vê que pode ter um pé ou uma mão. O BE e o PC continuam chateados, mas lá irão). Isto também não significa que não veja virtudes no discurso de Costa, no discurso; e também suficientes virtudes na pessoa para que, se hoje acontecesse, votasse nele para Presidente.
Bom fim-de-semana!
Claro: há sempre alternativas em política. Só o populismo mais desbragado, que aposta sempre no “quanto pior melhor” é que proclama o contrário.
Bom fim de semana para si também.
Bom dia,
este post está em destaque na área de Opinião do SAPO.
Cumprimentos,
Ana Barrela – Portal SAPO
Obrigado por mais este destaque, Ana.
Viva o Costa… do Castelo! E das mais 6 colinas…
Viva o Moreira… do Bolhão à Ribeira…
O Tejo e o Douro juntos, irão revolucionar as águas portuguesas…
Só tenho receio que pensem mais nas tricas politicas, de que na suas lindas cidades! Com umas rotundas e folclore pelo meio… para entreter a malta!
Para já, caro A Mendes, estão lá porque o povo votou neles. Ou botou, como se diz em vastas áreas do território nacional.
Porque e’ que Costa nao teve o mesmo discurso na tomada de posse anterior? Sera porque o governo era PS?
Porque e’ que Costa nao veio com ideias de aliancas nacionais de municipios no mandato anterior? Sera porque Rui Rio era o presidente da camara do Porto?
Enfim, Costa, mais um que esteve cumplicemente calado enquanto Socrates desgracava o pais e agora aparece com grandes discursos moralizadores.
O homem depende sempre da sua circunstância, Alex. E o homem político ainda mais. A circunstância determina o discurso. Já na Grécia antiga era assim.
Sob pretexto de elogiar o discurso de posse de António Costa, o verdadeiro objectivo é criticar o reaparecimento mediático de José Sócrates.
Pessoas carismáticas têm isto: suscitam ódios descabelados e amores incondicionais.
Mas já que o verdadeiro tema é a entrevista de José Sócrates, não vejo problema nem motivo de crítica ao grau e à forma como ele critica e quem critica. Convem talvez lembrar as campanhas vergonhosas ao seu carácter pessoal (não à sua política), firmemente apoiadas por certa comunicação social, e não vi na altura as damas ofendidas de hoje com os termos e o conteúdo utilizados na altura.
Trata-se de um ajuste de contas pessoal? Sem dúvida. Depois de 6 anos de postura institucional de primeiro-ministro, aguentando insinuações sobre a sua orientação sexual, aguentando as inventonas (hilariantes se não configurassem uma grosseira quebra de lealdade entre instituições) de Belém acerca de escutas, campanhas difamatórias diárias orquestradas por mão mal escondida através do Correio da Manha, considero esta entrevista ao Expresso como um aliviar pessoal de fígados. Os visados pela violência verbal não têm actualmente qualquer cargo institucional representativo e o entrevistado também não. Podem até os seus adversários ficar descansados: com o nível de violência verbal utilizada, parece-me não ser do interesse dele regressar a qualquer cargo oficial, decorrente de eleições ou não. Acho que ele está confortável na posição que está. O mesmo não se poderá dizer dos seus adversários.
Porque não criticam as declarações (essas bem mais violentas) de Catroga, sugerindo que Sócrates devia ser julgado em tribunal (plenário talvez)?
Percebi, pela sua diatribe, que não gostou do discurso de António Costa. Lamento.
Percebeu mal.
Apenas abordei aquilo que considerei ser o cerne do seu post. E não acho que sejam passíveis de comparação intelectualmente séria, um discurso de posse de um político acabado de ser eleito com maioria na capital do país, com um futuro político diariamente anunciado, e uma entrevista a um ex-primeiro-ministro, que responde, com 2 anos de atraso e sem as algemas do poder, aos ataques de que foi alvo. A forma como o fez deve até descansar os seus adversários quanto a um regresso à vida política activa num futuro próximo.
Quanto ao discurso de António Costa, aplaudo-o. E não preciso de o comparar com nenhum outro discurso, ele vale por si. Presentemente, António Costa constitui uma alternativa credível, assim ele ultrapasse o problema da máquina partidária do PS. Idem para Rui Rio.
Percebeu mal.
O cerne do meu texto, como decorre de qualquer leitura não sujeita a escrutínios ‘makiavélicos’, é o elogio ao discurso e à atitude de António Costa.
Ponto final.
Os discursos são sempre comparáveis. Venham de quem vierem. Porque a política é sempre feita de comparações.
O contraste que estabeleço vem a talhe de foice, pela circunstância certamente fortuita de Sócrates ter decidido lançar o livro na quarta-feira, 23 de Outubro, véspera da tomada de posse de Costa. Como se o ano não tivesse 365 dias.
Como dizia o outro, ‘no creo en brujas pero que las hay, las hay’. E Janeiro de 2016, data das próximas presidenciais, em termos políticos é já quase depois de amanhã.
“Uma entrevista a um ex-primeiro-ministro, que responde, com dois anos de atraso e sem as algemas do poder, aos ataques de que foi alvo”, diz você, tomando as dores de Sócrates, como se estas declarações do ao ‘Expresso’ fossem uma espécie de 25 de Abril.
Devemos viver em planetas diferentes. No meu planeta, o antigo primeiro-ministro é comentador da televisão pública onde deu uma extensa e muito publicitada entrevista há seis meses e onde diz em horário nobre o que muito bem quer e lhe apetece de há seis meses a esta parte.
Posso ter percebido mal mas a sua proza aponta para essa interpretação: em 5 parágrafos, dedica os 2 primeiros ao suposto cerne da questão, sendo os 3 últimos dedicados a Sócrates. Não só em quantidade como na estruturação do texto, é por demais visível qual é o objecto do comentário. E tomando a expressão por si usada, ‘no creo en brujas pero que las hay, las hay’.
Tudo o resto é futurologia política. Parece-me até que insinua que a “apresentação” do livro de Sócrates foi feita com o propósito de ofuscar António Costa numa hipotética corrida a Belém, se entendo bem a sua frase “Muito à frente, muito acima e com muito mais nível do que um possível rival da mesma origem partidária”. O problema de confundir desejos pessoais com cenários políticos hipotéticos dá nesta avaliação desfocada da realidade.
O resto é irrelevante.
O futuro dirá quem está “desfocado”. Entretanto desejo-lhe bons serões de domingo, ao som da voz do tal “político sem algemas”.
Costa adversário de Sócrates? Não é preciso esperar pelo futuro para ver que nem desfocado está. Está mesmo ao lado. Toda gente tem direito a manifestar desejos. Como dizia o poeta, o sonho comanda a vida. Quanto mais comenta, mais vejo que o leitmotiv do seu post não é dizer bem do discurso de Costa (no futuro vê-lo-ei a criticá-lo, disso tenho a certeza) mas sim dizer mal da forma e do conteúdo da entrevista de Sócrates. A fixação que sugere que tenho em Sócrates parece-me bem mais visível em si. Cuide-se. Pode virar doença incurável.
Finalmente. Estava a ver que esse verniz nunca mais estalava. Agora sim, começa a revelar-se ao nível do animal feroz. Quem se atreve a criticá-lo ou a contrariá-lo é bandalho, estupor, filho da puta. No mínimo. Ou é “fraco e “vai-se abaixo” (Teixeira dos Santos).
Ou padece de alguma doença incurável.
Tese imbatível. Quem é que no seu perfeito juízo e sem o menor defeito de carácter ousaria beliscar tão eminente, iluminado e clarividente estadista?
Estalar o verniz! Que exagero! Insultei-o por acaso?
Qual era mesmo o tema do seu post? Ah, o discurso de António Costa. Está tudo dito.
Eheheh. Eis um notável exemplo de sofística.
Você desembarca nesta caixa de comentários, de pseudónimo em riste, nada interessado no discurso de António Costa e todo interessado em focar-se em exclusivo no ex-PM. Insiste, insiste, insiste. E no fim atribui-me a sua própria intenção.
De caminho, sem querer, fornece uma imagem nada lisonjeira da figura a quem entoa hossanas. Ao dizer que se trata de uma “pessoa carismática” que “suscita ódios descabelados e amores incondicionais”.
São palavras que reflectem uma visão da política enquanto redil de caudilhos “carismáticos” nada condizente com a matriz europeia. Quantos políticos em funções na Europa podemos associar a tais rótulos dignos de um Juan Perón ou um Hugo Chávez? Talvez apenas a Berlusconi, ainda líder da direita italiana.
Dele se disse, e se dirá, que divide águas qual animal feroz: ou se ama ou se odeia.
Os berluscónicos devotam-lhe um “amor incondicional”, para usar a sua terminologia. Estão bem uns para os outros.
Ponto prévio: Mas o que é que o pseudónimo com que assino vem para aqui chamado? Está interessado em saber o meu nome? Chega-lhe Carlos ou tenho de lhe apresentar o meu IRS? Já na sua primeira resposta atribui características ao meu comentário com base no meu pseudónimo. Essa imaginação anda pobre. Se o incomoda receber comentários com pseudónimos como seus autores, tem solução.
Quanto ao conteúdo: quando diz que desembarco interessado em focar-me exclusivamente no ex-primeiro-ministro, tenho a vaga sensação que não sou o único. Dê lá uma volta pelos comentários e diga-me quantos é que se referem ao ex-primeiro-ministro. Porque será? Será porque o seu post inicial nem ao de leve a ele se refere, ou porque esse assunto ocupa um lugar central na opinião expressa? Penso que o resto do seu comentário responde com uma clareza inquestionável. Pelo que vejo, qualquer opinião minimante favorável a José Sócrates é considerada por si uma hossana. Tomo isso como um exagero decorrente de algum ódio descabelado. Não vem mal ao mundo. Afinal quem é o sofista aqui?
Este seu último comentário confirma a minha ideia inicial: António Costa incomoda muita gente que ainda tem o ex-PM como referência. Daí o lançamento do livro na véspera da tomada de posse de Costa em Lisboa (em política nunca existem coincidências). Daí a irritação perante os elogios públicos a Costa (em política, como na física, dois corpos distintos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo).
Noto neste seu último comentário uma inflexão na linha de raciocínio mas ainda assim, a análise, que se quer com alguma distanciação, confunde-se com um desejo pessoal. A minha opinião já a expressei logo no primeiro comentário. Talvez não tivesse reparado nela, dado que não versava sobre o tema central da sua crónica. Poupo-lhe o trabalho de “scrollar” até à mesma, transcrevendo aqui a passagem: “Quanto ao discurso de António Costa, aplaudo-o. E não preciso de o comparar com nenhum outro discurso, ele vale por si. Presentemente, António Costa constitui uma alternativa credível, assim ele ultrapasse o problema da máquina partidária do PS. Idem para Rui Rio.”
Como vê, aceitando (para facilitar) inscrever-me no lote daqueles que têm o ex-PM como referência, espero sinceramente que António Costa defronte Rui Rio nas próximas eleições legislativas. O problema da máquina partidária do PS, a que me refiro, é personificada pela actual direcção, não haja confusão na interpretação.
O problema dos aparelhos partidários, tantas vezes zurzidos pelos comentadores mais em voga, é um bom problema. Porque a verdade é que não existe democracia sem partidos e estes por sua vez não existem sem aparelhos partidários. Navego contra a corrente dominante nesta matéria, bem sei, mas paciência. Penso assim. Com o à-vontade de nunca ter pertencido a partido algum.
Uma coisa é aperfeiçoar os mecanismos existentes; outra, muito diferente, é suprimi-los em nome de “democracias directas” que bem vimos aonde desembocam noutros quadrantes ou devido a impulsos populistas como a concessão do direito de voto em matérias partidárias tão relevantes como a eleição do dirigente principal e dos órgãos nacionais a quem não milite em partidos. E lamento ver que um socialista com impecáveis credenciais antipopulistas (e que também por isso muito respeito), como Francisco Assis, já defenda também esta tese.
Sempre pensei, e não vejo razão para mudar, que não pode haver direitos sem o exercício dos respectivos deveres. Se eu não pago quotas a nenhum partido nem aceito sujeitar-me às normas disciplinares de nenhum partido a que título posso reivindicar o direito de voto em eleições internas desse mesmo partido?
Ao contrário do que sugere, julgo que as situações no PS e no PSD não são simétricas. Ou seja, Costa é muito mais aceitável pelo aparelho socialista do que Rio pelo aparelho social-democrata. Não apenas devido a idiossincrasias pessoais, mas também a factores políticos de relevo.
Esta parece-me uma matéria muito interessante para reflexão mas que reservarei para futuros textos.
Democracia sem partidos é coisa que não existe. E o passatempo nacional de zurzir nos políticos é actividade que não pratico.
Mas o que acontece agora é uma pré-selecção de dirigentes partidários, feita de forma pouco transparente para os eleitores em geral por um pequeno conjunto de pessoas a que chamamos militantes (nem sei se existirá a regra 1 militante = 1 voto ou se é feita mais no estilo eleições nos clubes (quanto mais antigo é o associado, mais votos tem para atribuir). A abertura dos partidos à sociedade civil no processo de selecção dos seus dirigentes é imperiosa. Qual a arquitectura a adoptar, é a questão. Recusar esse caminho é ignorar o crescimento de votos nulos e em branco (já para não falar da abstenção, essa com explicações diversas) e o descontentamento generalizado face à classe política.
Quanto à diferença de aceitação de AC e RR, dou-lhe, em parte, razão. Apenas por questões de geografia. Mas que qualquer um daria um primeiro-ministro a léguas do actual em funções e do respectivo candidato, disso não tenho dúvidas. Justamente pela abertura à sociedade civil e pela capacidade agregadora que os dois têm. Não confundir com qualquer espécie de bloco central, essa aberração vinda directamente da união nacional do estado novo.
Parcialmente de acordo consigo.
Em três temas:
– necessidade imperiosa de aproximar eleitos de eleitores
– necessidade imperiosa de abertura dos partidos à sociedade
– recusa categórica de cenários “democráticos” capazes de excluir os partidos (algo que eu já tinha sublinhado antes)
Mantenho dúvidas sobre a concessão do voto a independentes para elegerem cargos dirigentes nos partidos. Típico cenário de direitos sem deveres. Repare que o Partido Socialista francês, que pôs isto em prática, não parece ter colhido grandes benefícios desta inovação.
Tenho sérias reservas de princípio também quanto ao Bloco Central. Mas confesso que a minha posição, neste particular, tem vindo a alterar-se nos últimos tempos. Para grandes males grandes remédios. Repare que a formação de um Bloco Central na Alemanha, decorrente dos resultados eleitorais de 22/9, configura um cenário aparentemente mais positivo do que o anterior.
Numa situação de crise extrema este parece-me um mal menor. Mal maior será sempre o crescimento das correntes extremistas, alimentadas pelas mesmas torrentes de irracionalidade que conduziram ao poder alguns dos mais repugnantes ditadores do século XX somadas ao fenómeno moderníssimo das redes sociais, capazes de erguer um pelourinho electrónico à distância de um (des)like.
Aqui a traz a conversa foi muito interessante.
Não há como “trazer conversa” para uma caixa de comentários.
Ó Makiavel, só um palonço acabadinho de desembarcar em Sta. Apolónia e ainda a cheirar a lareiras é que fica traumatizadinho durante 6 anos por lhe chamarem larilas. Não creio que Sócrates ainda cheire a lareiras.
Não estou a ver ninguém traumatizadinho mas, pelo seu post, deve perceber de palonços e pessoas a cheirar a lareira acabadinhos de desembarcar em Sta. Apolónia. Acho que agora é mais usual na Gare do Oriente.
mas António costa fez um discurso para presidente da câmara de Lisboa ou para primeiro ministro António josé seguro já era !!!!!!!!!!!
lisboetas votaram num presidente que já não pensa em Lisboa ,mas sim em voos mais altos!!!!!!!!!!!!1
Não infiro nada disso deste discurso. Quem abandonou o cargo antes de cumprido o prazo para o qual havia sido eleito foi Capucho, em Cascais. E Moita Flores, em Santarém. E Seara, em Sintra. E muitos outros, de norte a sul.
Costa, que eu saiba, cumpriu dois mandatos integrais. Escrupulosamente, do primeiro ao último dia.
Fora as questões do trânsito, que nos obriga em Lisboa a desvairadas gincanas sem sentido, gosto bastante de António Costa. É um homem conhecedor, ponderado, contemporizador, educado. Teria votado nele se votasse em Lisboa, sem qualquer dúvida, e viu-se pelos resultados eleitorais que a esmagadora maioria concorda comigo.
Sócrates é exactamente o oposto, não me merece qualquer consideração nem confiança. É um manipulador nato e hábil, como se viu quando estava no poder e se vê mais ainda agora que o quer (e vai) reconquistar. Esmagar Seguro será uma brincadeira de crianças para o animal feroz.
Sócrates é um hábil manipulador? Se fosse um hábil manipulador não se dava por isso. Eu acho que é simplesmente um ______ arrogante.
Percebo o seu ponto, Vasco, mas cheira-me que até o doseamento dessa visibilidade manipulatória é cuidadosamente estudado. A estratégia de Sócrates passa muito por intimidar as hostes.
De acordo contigo, Ana.
Em articulação de ideias já sabemos que o homem ultrapassa correlegionários (não é difícil)—mas Lisboa, está melhor?
Essa é a pergunta que deve ser feita sempre no momento em que votamos, Vasco. Os lisboetas acabaram de responder a ela, reelegendo Costa.
O povo é soberano. Boa sorte.
É soberano e costuma ser sábio a votar. Viu-se isso logo em 1975, quando a ala “revolucionária” do MFA andou a fazer apelos nacionais ao “voto em branco” e levou um monumental manguito do eleitorado.
Não me recordo disso, pois mal tinha deixado de gatinhar nessa altura, mas em todo o caso acho que sim, que o “povo” (nunca aderi muito a esta ideia de um colectivo abstracto pensante, mas a estatística justifica o que a filosofia não consegue) não vota sem boas razões, mas estou convencido de que o expressivo resultado de António Costa não se deve totalmente ao seu desempenho como PdC nem à sua figura simpática e, certamente, à sua maneira elevada de estar e fazer as coisas. Lisboa está hoje tão maltratada como estava nos finais dos anos 80 e inícios de 90 e se isso não demonstra algum desajuste entre o homem e as suas funções então devo concluir, pela lógica que o Pedro usou em cima, que uma cidade suja e esburacada é a cidade que o Povo quer ter.
O excelente resultado eleitoral de AC em Lisboa deve-se também às fraquíssimas alternativas de que dispunham os lisboetas. O simples facto de essas alternativas serem tão fracas deu mais força a Costa.
Em boa verdade, não havia alternativas.
Em boa verdade, dou-lhe razão.
São Homens como António Costa e Rui Rio que me dão esperança para não desistir (não são Meninos, são Homens).
Gostava que fizessem como no RU, os Governos passam, respeitam-se, não andam a anular e alterar leis uns dos outros, olham a médio/longo prazo e pelo bem dos cidadãos e do Pais.
Os políticos, sobretudo em cenários de crise como o actual, têm a obrigação de encontrar pontos de convergência. São mandatados para isso pela esmagadora maioria do eleitorado.
Exactamente. É muito perigoso este culto da “personalidade carismática” que divide e incendeia paixões. Nos tempos em que vivemos valorizo muito mais os contemporizadores, que conseguem melhores resultados e mais duradouros. Confio mais em pessoas que se centram mais nos outros do que em si próprios.
Também eu, Ana. Mesmo em países muito mais pujantes que o nosso, como a Alemanha (maior economia europeia), os partidos procuram e encontram consensos. Em Berlim haverá, a partir de agora, uma grande coligação com os dois maiores partidos (antecipando o cenário português, com muita probabilidade). Estas coligações só podem ser feitas por quem sabe construir pontes, não por quem só serve para separar as águas e foi incapaz de estabelecer consensos quando teve oportunidade para isso.
O Presidente da Câmara de Lisboa, António Costa, – nome repetidas vezes apontado por alguns sectores do Partido Socialista como o “candidato ideal” do PS a Presidente da República – afirmou ontem no programa “Quadratura do Circulo”, na SIC Notícias, que Pedro Santana Lopes deverá ser o candidato presidencial do PSD em 2015.
(DN)
Ou seja, o Costa, que nunca se comprometeu a ficar onde foi eleito durante o mandato completo, já descobriu que vai ser o Flopes o candidato da direita a Belém.
Não gosto de ver políticos no activo serem ao mesmo tempo comentadores políticos nas televisões. Sempre disse isso, sempre escrevi isso. o-dos-comentadores-onde-quem-manda-sao-o s-politicos-1594179
O político, se quiser ser comentador, deve renunciar à carreira política. E vice-versa. Porque existe uma manifesta incompatibilidade entre as duas funções. Ou devia existir.
Infelizmente, as nossas televisões abdicam cada vez mais de ter opinião própria (salvo honrosas excepções) transferindo-a para os políticos, contribuindo assim para perpetuar esta estranha especificidade nacional. Não conheço nenhum outro país europeu onde os políticos sejam igualmente comentadores televisivos em horário nobre.
António Costa é apenas um entre muitos outros. Um estudo do jornal ‘Público’ revelava recentemente que Portugal está afogado em comentário político: há 69 horas semanais nas televisões dedicadas a este assunto. “O equivalente a quase três dias completos em frente à televisão.”
Algo verdadeiramente extraordinário.
Dos 97 comentadores com presença regular nos ecrãs, 60 são ou já foram políticos com funções destacadas nos mais diversos partidos:
http://www.publico.pt/politica/noticia/o-imperi
Para voltar às suas palavras: Costa não disse de Santana algo muito diferente do que Santana possa dizer de Sócrates. Em directo, na televisão. Porque ambos são comentadores na TV, embora em canais diferentes.
Agora vai estrear-se como comentador Teixeira dos Santos, mais um ex-ministro a montar cátedra num ecrã de televisão.
Questiono-me até que ponto os jornalistas continuarão a ser impedidos de emitir opiniões sobre política pelas direcções editoriais que preferem conceder essa prerrogativa quase em exclusivo aos protagonistas políticos, que serão sempre juízes em causa própria.
Péssimos juízes, na maior parte dos casos.
Agradecendo a resposta, o que me parece um tanto estranho é que o Costa, que fugiu com o rabo à seringa e deu uma resposta saloiamente esperta (“Pode dizer-me se daqui a um ano, ainda trabalha na mesma televisão?”) quando lhe perguntaram se iria ficar os 4 anos da praxe como presidente da CML, já sabe que o Lopes (pessoa em quem nunca votei nem penso algum dia votar) deverá ser o candidato da direita a Belém…
Não é difícil fazer vaticínios neste domínio. À direita, nas ‘primárias’, perfilam-se Marcelo Rebelo de Sousa e Santana Lopes; à esquerda, também nas ‘primárias’, perfilam-se Sócrates e Costa. A menos que Guterres queira regressar e aí ser-lhe-ão abertas alas.
O primeiro que der um passo em frente ganha vantagem. Quem se mantiver nas tábuas, salvo seja, só tem a perder.
A lógica é esta. Não vale a pena inventar. Porque um candidato presidencial com hipóteses sérias de ganhar não se improvisa em dois anos.
Voltamos aos tempos doces de Guterres.. São os António Costas que criam os José Sócrates.
” tolerância democrática.”
Por definição uma Democracia não tem tolerância. É o voto da maioria.
Mais ou menos Republica é que demonstra a tolerância de uma sociedade pois limita os poderes da maioria ou da minoria.
“E não hesitou sequer em utilizar a expressão “aliança nacional””
Nova União Nacional?
Ou seja devemos todos caminhar no mesmo sentido. O que faz de nós todos iguais.
“É preciso estar sempre atento ao sentimento dos cidadãos, saber ouvir todos.”
Conversa fiada.
Qual a consequência disso dentro da chamada “Aliança Nacional” , nada obviamente.
Um discurso destes seria “fascista” uns anos atrás…já estou a imaginar as reacções a um discurso com estes termos vindo de Cavaco ou Freitas do Amaral dos anos 80…
Lucklucky, deduzo que você aprecia mais a linguagem ‘musculada’ de um certo filósofo, que distribui insultos grosseiros por todos quanto lhe fazem frente ou não pensam como ele.
São bandalhos, estupores, filhos da puta.
Coisa linda: imagine-se como seria “dinâmica” e “empreendedora” uma democracia assim, comparada a um ‘saloon’ dos ‘westerns’, com porrada verbal a torto e a direito. E da porrada verbal à porrada ’tout court’, como se diz em Paris.
Eis que surge Costa, com pose e discurso contrários, apelando à convergência nestes tempos conturbados, e é logo criticado por alimentar “conversa fiada”. E – imagine-se – até “fascista” lhe chamam.
Filósofos por filósofos, cada um cultiva o seu. Eu prefiro o autor desta frase: “Nunca houve um cavalo que não pudesse ser montado nem cavaleiro que não pudesse ser derrubado.”
Frase do grande Gary Cooper, campeão da livre iniciativa no velho Oeste e muito liberal a manejar o ‘colt’. Um ‘cowboy’ à moda antiga, também frequntador de ‘saloons’. E de cavalos percebia ele.