Indiferente à chocante miséria que hoje grassa no seu país, que já foi o celeiro da África Austral, Robert Mugabe prepara uma festa de arromba no Zimbábue para festejar o seu aniversário. No dia 21 apagará 85 velas e ouvirá os "Parabéns a você" no meio da maior opulência: revela o Times de Londres que o repasto incluirá tudo do bom e do melhor. Nada menos de duas mil garrafas de champanhe (Möet & Chandon e Bollinger de 1961 no topo das preferências), oito mil lagostas, cem quilos de camarão, quatro mil doses de caviar, 16 mil ovos, 500 quilos de queijo e oito mil caixas de bombons Ferrero Rocher, entre outros acepipes. Isto num país onde as pessoas arrancam ervas daninhas do mato para matar a fome. Um país que bateu no fundo: 94 por cento de desempregados, sete milhões de habitantes dependentes da caridade internacional, mais de 70 mil casos de cólera já confirmados pela Organização Mundial de Saúde devido à falta de elementares condições de higiene, a maior inflação do planeta, o colapso generalizado da sociedade civil.
A festa do dia 21, luxo entre o lixo, será um dos actos mais obscenos num país que tem sido percorrido por todo o género de indignidades. Perante o silêncio conivente de muitos, em África e na Europa, que ainda aludem a Mugabe como um "combatente da liberdade" sem corarem de vergonha por abastardarem uma das mais nobres palavras associadas à espécie humana.
Felizmente nem todos se calam. "Um Governo que assalta o seu próprio povo perde toda a legitimidade", como sublinha Graça Machel, mulher de Nelson Mandela, referindo-se ao ditador do Zimbábue. Pois é mesmo de um assalto que se trata nesta celebração orgíaca do aniversário de Mugabe. Nada diferente do que fizeram um Bokassa, um Mobutu ou um Idi Amin num continente onde toda a esperança de progresso parece uma miragem cada vez mais longínqua.

“O Zimbábue de hoje é um país com uma epidemia de cólera, crises de fome em vastas áreas de seu território e que acabou de abandonar sua moeda, o cômico dólar zimbabuano e suas cédulas na casa dos trilhões.” Fábio Zanini em “Pé na África”
É preciso “lata” para permitirmos uma coisa destas.
Estranho tanto silêncio blogosféricos à volta disto, Once. Embora já nem devesse estranhar…
eu também Pedro.
Vejo saltarem as tampas e os tachos por dá cá aquela palha, e não entendo como se deixar passar em branco uma situação destas.
Vale a sua posição como sempre 🙂
Obrigado.
Verdade. Este, como outros silêncios na blogosfera, relativamente a assuntos bem mais próximos de todos nós – e não estou com isto a desvalorizar este – é mesmo de estranhar. Não deixemos que entranhe.
Não deixemos, meu caro. E para isso também estas caixas de comentários são importantes, com incentivos e sugestões de toda a ordem.
Excelente post. Parabéns.
O silêncio explica-se porque a poltica tem razões que a própria razão desconhece…
E porque a hipocrisia medra com facilidade!
Pobre África e pobres africanos (e pobres de nós que vemos assim maltratar um continente fabuloso).
Obrigado, Pitucha. O nosso silêncio sobre os actuais regimes despóticos de África, enquanto falamos continuamente de ditadores de eras passadas, só contribui para agravar ainda mais a situação no continente.
Por muito que pareça outra obscenidade, é caso para desejar que os excessos que prepara sejam veneno para a idade do homem. O mundo não precisa dele.
Queres tu dizer que ele ainda é capaz de se engasgar com uma tosta cheia de caviar?
E ainda ontem foram anunciados mais 17 mil para o Afeganistão…
E ja viram a nova casa que este Mugabe arranjou em Hong-Kong? Dizem que vai convidar para a inauguração os lideres europeus que o receberam em Lisboa, há uns meses atrás. Excepto o Brown.
A compra da casa milionária do Mugabe em Hong Kong, com o povo do Zimbábue na miséria, indicia bem a cumplicidade activa da China com o criminoso regime de Harare.
Essa fez-me lembrar este ( http://cronicasdorochedo.blogspot.com/2 008/07/discursos-de-salazar-1.html)
opíparo jantar dos G-8 quando estavam a discutir a fome no mundo, Pedro!
Lamento é que o Bush, tão preocupado com o Saddam , não tivesse continuado a sua saga em prol da democracia, varrendo também esse asqueroso ditador da face da Terra. Pelo menos, tínhamos evitado a sua presnça em Lisboa, durante a Cimeira UE/Africa.
Abraço
Na altura da cimeira UE-África, reuni no Corta-Fitas uma colecção de cromos com ditadores africanos que acabou por ser bem mais extensa do que eu próprio pensava no início. Mas o pior é sem dúvida Mugabe.
Abraço, Carlos
Lembro-me bem dessa série, Pedro. Fiquei abismado, porque afinal eram muitos mais do que eu pensava. Já agora, talvez valessse a pena (re) lembrar os que ainda por lá andam…
Abraço