Que literatura pode mudar a nossa vida? É matéria que dá pano para mangas: vivendo nós na civilização do Livro, nem poderia ser de outra forma. A simples frase “Não matarás”, impressa na Bíblia, mudou milhões de vidas.
Mas atenção: os livros que foram fundamentais para a nossa transformação interior raras vezes coincidem com aqueles que o critério académico – incluindo o da Academia de Estocolmo – consagra como decisivos. Conheço, por exemplo, muita gente que decidiu cursar Direito por influência do bom desempenho de Perry Mason como advogado de ficção – e ninguém incluirá decerto Erle Stanley Gardner entre os maiores escritores do século XX. Gostar e admirar raras vezes coincidem. Sei bem do que falo: gosto de toda a obra de Ernest Hemingway, incluindo vários títulos que estou longe de admirar. Gosto de tudo quanto me transmite George Orwell, ainda que possa estar longe de admirar a sua escrita. Gosto de todo o Graham Greene, talvez o autor que mais me ensinou como se deve escrever, embora não partilhe o essencial das suas ideias. Basta a menção dos apelidos Kafka, Borges ou Malraux para me fazer reviver o prazer da leitura – e no entanto nenhum destes escritores ganhou o Nobel, o que não altera um milímetro a minha devoção de leitor por eles. Já o consagradíssimo Thomas Mann, pelo contrário, me faz bocejar de tédio perante o pedantismo da sua escrita, a que nunca aderi, por melhor que entenda a importância que o cânone oficial lhe atribui como romancista de “ideias”. Vale a pena lê-lo por “dever” intelectual? Certamente que sim. Retiraremos daí algum prazer? Essa é uma questão muito diferente.
São insondáveis os caminhos que nos transportam nas mais diversas direcções literárias. No seu leito de morte, Lenine pedia que lhe lessem contos de Jack London: o grande autor americano teria mudado mais a vida do fundador da União Soviética do que alguém fora capaz de imaginar. Tudo seria bem diferente se a literatura nada tivesse a ver com a vida. Mas felizmente que tem. E nenhum de nós gostaria que não tivesse.
Mudar ou não mudar: eis a questão
Pedro Correia,


Concordância total com o post (texto). Isto para dizer que, apesar de premiado, não gosto de Saramago. Li 1 (uma) pagina de ” Memorial do Convento “. Não quero ler mais, nem quero aprender a ler Saramago. São gostos.
Harold Bloom não concordaria consigo.
Bloom considera Mann um escritor genial – como não poderia, aliás, deixar de ser – e lamenta que uma dia a degradação da nossa vida cultural o torne menos perceptíveis a sua ironia e o humor.
Gostei desse “como não podia deixar de ser”. Se há coisa que me convence são os argumentos de aiutoridade.
Pedante? Mann? Quem diria! Bem dizia Harold Bloom que qualquer dia seremos incapazes, por puro analfabetismo, de compreender o ironia tão inteligente de Mann.
É verdade. Ele bem avisou…
A pergunta que se impõe:
– E existe gente que vive sem ler um livro, um jornal, uma linha que seja de qualquer coisa.
o problema é quando me engano a escrever e depois não tenho volta a dar, mas o Pedro compreende o cansaço depois de 10 horas de trabalho.
Bem sei, Daniel, bem sei. E, lamentavelmente, continua a haver muita gente, entre nós, que não lê um livro. E que só espreita um jornal se o conseguir fazer à borla. Há tradições a que devemos pôr fim. Esta é uma delas.
Já o consagradíssimo Thomas Mann, pelo contrário, me faz bocejar de tédio
Li a Montanha Mágica na cama, doente. Não era tuberculose e achei-o uma monumental chatice! Confesso que quando descobri mais tarde que o Nabokov considerava o Mann uma fraude senti um imenso alívio.
Dizes bem: uma monumental chatice, coroada com um Nobel. Haja alguém que concorde comigo.
Não estás só: Mann é um chato cheio de importância. E tens razão em tudo o mais, compadre.
‘A Montanha Mágica’ é um dos ‘romances’ mais chatos do século XX.
Inteiramente de acordo, Pedro. Quanto ao Mann, só li dois livros dele e também sei que não concordamos. Gostei muito da ‘Morte em Veneza’.
Relativamente ao autores que mencionas, consigo muito bem viver sem eles, mas jamais sem livros e sem outros autores. Li-os quase todos por obrigação e só voltei ao Mann, por causa de Veneza.
Há autores de que gosto muito e que conheci apenas pelas escolhas da Academia Sueca, portanto acho que é mesmo uma questão de critério. Coetzee foi a minha descoberta mais recente, li três livros dele duma assentada e fiquei grata ao Nobel.
Houve excelentes autores galardoados com o Nobel, Leonor. O Naipaul, por exemplo. E o Eliot. E o Camus. E o Bellow. Mas o cânone de Estocolmo deixa de fora nomes como Yourcenar, Kafka, Conrad, Borges, Joyce, Nabokov, Vargas Llosa, Virginia Woolf. Isto para não falar em Proust, Tolstoi, Mark Twain e Henry James. E Jack London, já agora: nisto estou de acordo com Lenine.
A Marguerite Yourcenar tratava Mann como um deus… A pobre idiota não percebia que ele era chato e mau escritor. Ele e Dostoevsky, que o Nabokov também achava mau.
Não seria interessante perceber – e explicar – o porquê dessas apreciações, antes de lançar a ideia de que Mann é assim uma coisa chata em país de analfabetos?
Creio que repeti um comentário. Desculpe.
desculpe, ñ ressisto a crescentar Jorge Amado e Sophia Mello Brayner
Muito bem. Podíamos citar muitos escritores. Há aqueles que amamos e aqueles que admiramos, como referi: não são necessariamente os mesmos. Algumas das obras capazes de mudar a nossa vida podem não ser as melhores de acordo com os cânones literários – e geralmente não são mesmo. Mas os livros só são verdadeiramente importantes se tiverem algo a ver com a vida – com a nossa vida e a vida dos outros.
Sim, existem aqueles livros que nos despertam porque, afinal, tanto parecem saber de nós. O “nome de guerra”, de Almada Negreiros foi o meu “catcher in the rye”, a leitura que mais amei na adolescência.
Lacuna imperdoável: nunca li o romance do Almada.
Também já ninguém tem paciência para os grandes russos, o Dostoievsky e o Tolstoy e as as suas angústias existenciais e morais. Lemos, quando muito, os contos do Tchekov e do Gogol, porque são curtos e pitorescos (obras primas, claro) e é um pau. Vivemos todo o ano para a literatura de praia. Até a largura das lombadas já nos assusta e afasta. E dá-se uma importância exagerada, por um lado ao Bloom, por outro ao Nabokov. Compramos o Cânone para sabermos o que ler (e orgulharmo-nos por causa do Pessoa…), e lemos o segundo para confirmarmos as nossas irritações, e ficamos aliviados quando o Nabokov nos confirma que é mau um escritor que já achamos mau, dispensando-nos o trabalho de o ler. É uma questão de economia de esforços.
O Thomas Mann é datado, é esse o problema, não tem a universalidade que tem um Shakeaspeare, no sentido em que são eternos os “retratos” e conflitos deste.. O Mann retrata a sua época, as preocupações e ideias da sua época, um mundo em decomposição. É por isso que ele foi perseguido e o Shakespeare não o foi, nem justificaria que o fosse (aparte os moralismo da época isabelina). O Mann já era decadente (foi acusado disso no país dele) na altura e continua a sê-lo. Quem quer saber o que pensava um europeu daquela altura, e como era uma grande parte da Europa, é importante que o leia. Isso também é literatura e é também por isso que julgo importante ler também o Victor Hugo ou o Dickens, por exemplo. Há uma “obrigação moral” de ler? Se calhar há, mas hoje em dia podemos ser ridicularizados por dizer isto.
Tenho andado a ler o Aquilino e dá uma trabalheira danada. A sua linguagem já não é deste mundo e a leitura é mais lenta do que noutros escritores mais modernos. Já na altura em que escreveu a maior parte da sua obra, estava fora do tempo literário. Não estou a ver a próxima geração a pegar nele, a não ser alguns académicos excêntricos. Mas “obriguei-me” a ler a sua obra toda e dá-me muito mais prazer do que ler Borges, por exemplo, prazer genuino.
Não vou ler o Bolano por enquanto (se calhar nunca o vou fazer), simplesmente há muito livro mais antigo que ainda me falta ler. Se estiver a perder um grande escritor, paciência, não me preocupo muito. Acho que também nunca vou ler o Roth.
Mas o que leio mais são mesmo policiais. Há muitos escritores de policiais que para além de serem bons, têm a vantagem de se lerem rapidamente. A Agatha Cristie, a PD James, o Peter Chenney, uma data deles muito variados.
Coincidência: comecei hoje a ler um policial do Peter Cheyney.
E o Simenon, o Simenon, acima de todos! Já não gosto tanto do Conan Doyle, mas gosto da série da televisão do Sherolck, mais por causa do actor, o Jeremy Brett 😉 que consegue transformar histórias chatas e sem grande imaginação em pequenas maravilhas.
O Simenon: ora aqui está outro autor de que gostei desde sempre. Pela escrita que consegue ser ágil e densa ao mesmo tempo, pela atmosfera que cria, pelas personagens que desenha, pelos diálogos que elabora.
Li o Doutor Fausto do Thomas Mann três ou quatro vezes. Durante anos foi um dos meus livros de cabeceira. Nunca o fiz por “dever intelectual”, conceito estranho à minha natureza, e arrisco assegurar-te que será um dos livros da tua vida no dia em que deixares de embirrar com o homem. Pelo menos folheia-o, ou lê a sinopse na internet. Se passares à leitura, até podemos fazer uma aposta: vai ser bom papar um jantarinho à borla no dia em que deres a mão à palmatória.
Por falar nisso, nós não tinhamos já apostado qualquer coisa?
Desculpe intrometer-me, mas vou abusivamente adoptar o conselho alheio. Mas obviamente que não me aproprio da parte da aposta e do jantar. Porque já li Thomas Mann e gostei. E não só.
É verdade, Luís: tínhamos apostado qualquer coisa. E ainda me lembro em que restaurante. Só não me lembro o que apostámos.
O Doutor Fausto é o melhor livro que já li. Vale o que vale, mas gostava de registar esta curiosa coincidência, caro Luís. Abraço forte!
Eu gosto destes http://floresta-do-sul.blogspot.com/2009/0 4/os-livros-da-minha-vida.html, entre outros. Noto que há poucos clássicos.
Muito bem. Podes voltar ao tema por aqui, um dia destes.