Morrer


Teresa Ribeiro,

Quando discuto as questões da eutanásia e do suicídio assistido verifico que quem as crítica inapelavelmente por norma se recusa a debater sobre os casos concretos que chegam à opinião pública. Percebo. É sempre mais complicado defender que uma determinada pessoa deve continuar em sofrimento extremo até à inanição do que argumentar que a vida é inviolável, seja em que circunstância for. Sem dúvida é mais poético este tipo de discurso. Só que a vida não é uma abstracção e não há nada mais concreto do que a dor física.

Sou sensível às razões de quem implora para morrer por não suportar mais o sofrimento. Imagino-me na sua pele e estremeço. Pergunto-me também se quem critica estas pessoas não estará a pecar por soberba, uma vez que não sabe, não pode saber do que está a falar. Tal só seria possível se pudessem experimentar viver, como as pessoas que julgam sumariamente, no limite da dor, por tempo indeterminado e sem esperança de recuperação.

Tenho por hábito perguntar a quem critica a minha posição em relação à eutanásia e ao suicídio assistido se deveria ser condenada à prisão a personagem de Juliette Binoche no filme O Paciente Inglês. Quase no fim do filme ela injecta, lavada em lágrimas, uma dose letal de morfina no seu paciente. Pena eu só poder colocar esta pergunta tão incómoda a quem viu a película de Anthony Minghella. Sempre que a faço não me respondem.

28 comentários em “Morrer”

  1. “Só que a vida não é uma abstracção e não há nada mais concreto do que a dor física.”

    não é uma abstracção!!?? agora é que eu fiquei confuso!!?? na questão do Aborto, decidiu-se que a Vida Humana começava, juridicamente, às 10 semanas, pelo menos cá no Portugal Modernaço, porque em outros paises, tambem Modernaços, Vida Humana tem diferentes inicios ( é à vontade do freguês…) ! logo, segundo esta lógica a Vida é uma abstração…

  2. Também sou completamente a favor.
    A resposta é, não.
    Tal como não poderão ser condenados todos aqueles um dia o tenham de fazer.

  3. Teresa, saúdo-a vivamente por trazer aqui este tema, o qual estou convicta, só lhe irá trazer dissabores por via da sua caixa de comentários… A Teresa coloca a questão exactamente no ponto onde deve ser colocada. É muito fácil armarmo-nos em heróis, virando a cara e deixando a responsabilidade ao destino, muito mais difícil é sermos consequentemente heróis, cúmplices e solidários na dor, no sofrimento e no destino.

    1. Ariel, mais do que em heróis, armam-se em juízes. Condenam os que escolhem pôr fim ao seu sofrimento e os que por amor ou piedade os ajudam a fazê-lo. Ignorando ostensivamente as circunstâncias. Essa atitude choca-me.

  4. De facto é muito poético dizer que a vida é algo inviolável. De facto é.. Resta saber se em situações de dor extrema e de diagnóstico irreversível podemos continuar a apelidar tal estado de “vida”. Estive em situação semelhante em que não cheguei a ser confrontado com tal decisão. Mas quando o médico informou-me que se a pessoa em questão continuasse viva seria naqueles pressupostos.. Estou um pouco como a Teresa: “Imaginei-me naquela pele e estremeci.”

  5. Se não há dignidade, não há vida.
    Logo, se uma criança nasce, apenas por nascer, para enfrentar uma vida de maus-tratos psicológicos e físicos, mais vale não nascer.
    Se uma pessoa está morta, excepto em espírito, mais vale deixá-la partir, seja lá para onde for, do que deixá-la sentir o corpo apodrecer, dia após dia, simplesmente porque somos demasiado egoístas para enfrentar a vida sem essa pessoa.

  6. Mais difícil do que lidar com a morte, é lidar com a culpa. Que vem presa a quem se debruça sobre a morte e o sofrimento dos outros. A agonia de alguém próximo de nós é uma pele difícil de vestir. Porque ninguém pensa na dor física, aquela que antecede a morte. Ninguém pensa que que deixar ou ajudar alguém que se ama morrer, é um acto de compaixão. É no fundo aceitar um fim, antes da fatalidade.

    1. Concordo, Leonor. Mas obviamente nos casos em que o sofrimento é extremo e comprovadamente irreversível. Caso contrário estaria a defender a morte assistida em qualquer circunstância e, note-se, não é esse o meu caso.

  7. A inviolabilidade da vida é um conceito religioso. Tem-se o sentimento que a vida é algo que temos como uma propriedade, que podemos “perder”, que nos podem “tirar”, como se existíssemos para lá dela.

    1. Está enganado: a vida é um conceito civil-social avançado, por se considerar ser o bem mais precioso de todos.
      Por isso é que está na base da abolição da pena de morte, por um lado, e o atentado conseguido acarreta a pena mais pesada que a legislação criminal determina, por outro.
      Daí também a polémica de cariz civil-social que a eutanásia suscita.

  8. Teresa
    A questão é muitíssimo delicada, se colocada a nível geral. Acho sinceramente que o país não está preparado para essa introdução, assim como não estava para a “facilitação do aborto” no SNS. Veja como acabámos por andar para trás: o aborto é hoje utilizado como medida contraceptiva.

    Por enquanto, acho preferível considerar cada caso como excepcional, dando espaço para reflectir sobre todos os factores envolvidos.
    Acho perigosa a sua introdução, neste momento, na nossa vida colectiva, como lei e prática a introduzir. Já temos fracturas que cheguem, a meu ver, algumas bem expostas, e com as quais ainda não estamos a lidar bem.
    Ana (a chata do costume…)

  9. «Pergunto-me também se quem critica estas pessoas não estará a pecar por soberba, uma vez que não sabe, não pode saber do que está a falar. Tal só seria possível se pudessem experimentar viver, como as pessoas que julgam sumariamente, no limite da dor, por tempo indeterminado e sem esperança de recuperação.»
    Eis a questão e a resposta condensadas neste parágrafo. O bom julgamento depende da capacidade e profundidade com que conseguirmos colocar-nos na pele dos outros. Uma vez lá, na pele dos outros, percebemos que nos devia ser reconhecido o direito de escolha.
    Parabéns Teresa, pela lucidez do texto.

  10. O tema é delicadíssimo e muito pessoal. A morte é, para mim, talvez o mais íntimo dos actos. Mas não quero deixar de dizer que te dou inteira razão. E o caso de um doente terminal lúcido e em sofrimento extremo nem sequer é o mais difícil de aceitar. Mas defendo que cada um deve ter direito à escolha sobre a sua própria vida, assim como também entendo e respeito que um médico recuse colaborar nesse acto que é contra a natureza da sua profissão.

    Acrescento só que a prática é antiga e sempre existiu por cá, mesmo sem legislação. Torga descreveu com toda a clareza a figura do “abafador” nos Contos da Montanha, salvo erro. Evitava à família a participação directa no drama (com tudo o que isso implica) tal como as modernas associações, como essa da Suiça.

    Já agora: para além dessa cena d’O Paciente Inglês, recomendo a quem não viu o fantástico Mar Adentro, que trata este tema com a maior dignidade, elegância e sobriedade.

    1. Também gostei muito do Mar Adentro. É sempre bom recordá-lo, porque como tu dizes trata a eutanásia com a “maior dignidade, elegância e sobriedade”. Para mais baseia-se num caso real, o que lhe dá ainda mais força.

  11. Olá Teresa.
    Diz, no seu comentário, que é sensível às dores de quem procura ajuda para morrer e que se arrepia ao imaginar-se na sua pele. Se, tal como eu, tem boa ou razoável qualidade de vida, deixe-me discordar pois nem eu, nem a Teresa, nem ninguém, nas mesmas circunstâncias que nós, consegue, efectivamente, imaginar tal. E sabe porque é que digo isto ? Eu sou um dos amigos que acompanhou a Primeira Pessoa Portuguesa a Zurique, para ter uma morte assistida com a ajuda da Dignitas, e, apesar de todo o processo me ter custado imenso e de ter deixado marcas, que só o tempo irá atenuar, não consegui imaginar tudo por quanto ela passou, no seu íntimo. Apenas consegui presenciar/vivenciar o seu sofrimento físico e apatia do dia-a-dia, enquanto esperávamos, com impaciência, que o processo de admissão dela corresse rapidamente, para que ela não tivesse de terminar os seus dias a sobreviver sem um minimo de dignidade e de qualidade de vida. Para além disso, também lhe digo que não nos é possível imaginar como é que alguém, em tais circunstâncias, consegue encontrar tanta força moral, para enfrentar uma situação que a nós parece brutal e desumana e além disso dar-nos alento nos seus últimos momentos. Pois foi isso o que se passou e aquilo que nos foi transmitido na Dignitas, por quem já ajudou muitas outras pessoas a ter uma morte assistida, é que essas pessoas encaram o seu acto como algo que as vai libertar. E sabe que mais? Essas foram precisamente as palavras da pessoa amiga, no dia em que a acompanhamos à clínica: “chegou o dia da minha libertação e, se efectivamente existe Deus e se vamos para o céu, hoje vai haver uma grande festa, pois vou lá encontrar a minha mãe, o meu irmão…”.
    Questiona-se se é um acto racional permitir que alguém tome uma decisão sobre o fim da sua própria vida e se devemos ter compaixão em tais circunstâncias. Mais do que compaixão para mim é um acto de amor, pois ver alguém a agonizar durante meses, sabendo que não há retrocesso e que a situação só leva a um fim cada vez mais doloroso, esse sim é um acto desumano. E quem somos nós para dizer, a quem nos pede ajuda, que ela não tem direito a fazer da sua vida aquilo que pretende, se ela se encontra perfeitamente lúcida e consciente de que não terá uma vida digna nos seus últimos momentos ? Alguém me disse que ela foi egoísta ao pensar só em si ao perseguir a sua vontade, arrastando com ela mais duas pessoas, mas posso dizer que nunca me senti usado ou manipulado e que aquilo que ela queria era não dar trabalho, preocupações e sofrimento à família e amigos. Passados os primeiros dias depois da sua morte, que a todos custou, até pelo choque da sua decisão, tenho plena consciência que terá sido a forma mais fácil, para todos, de ultrapassar a dor de uma morte, sem terem de passar pelo período, mais ou menos longo, do seu doloroso sofrimento. Por isso a considero uma mulher muito corajosa, como nunca imaginei ser possível.
    Deixe-me felicitar a si e a todos quantos, compreendendo a questão do sofrimento extremo e da vida sem dignidade, não calam as suas vozes, esperando que elas venham a ecoar nas mentes de quem tem “poderes” para zelar pela saúde dos seus concidadãos, sem hipocrisias.

    1. Caro Oliveiras

      O meu nome é Lucília Galha, sou jornalista da revista SÁBADO. Li o seu comentário neste site e gostaria de entrar em contacto consigo. É possível dar-me o seu endereço de e-mail para lhe explicar o que pretendo e falarmos um pouco? Pode contactar-me através do seguinte endereço: luciliagalha@sabado.cofina.pt

      Muito obrigada pela atenção.

      Melhores cumprimentos
      Lucília Galha

    2. Caro/a (?) Oliveiras,

      A propósito da morte da sua amiga, escrevi um texto de opinião no Público: “A primeira pessoa portuguesa a morrer na Dignitas”. Trabalho estas questões da morte assistida desde 2002. O ano passado, a Sextante publicou um livro meu sobre o assunto: “Ajudas-me a morrer? A morte assistida na cultura ocidental do século XXI”. Um capítulo é aí dedicado à Suíça e, dentro dele, algumas páginas à Dignitas. A senhora que acompanhou não gostaria que “testemunhasse” no nosso país a favor da despenalização da eutanásia e morte assistida, mesmo sem a identificar? Para que outras pessoas não sejam obrigadas a ir à Dignitas, mas possam morrer em Portugal de acordo com as suas convicções? Eu já “testemunhei” muitas vezes, mas gostaria de ter mais companhia. Para que a classe médica pare de dizer que em Portugal “não se passa nada” e que os cuidados paliativos são o remédio ideal para todo o sofrimento.
      Seja como for, obrigada por não ter deixado a nossa compatriota sozinha.
      laura f. santos
      laura.laura@mail.telepac.pt

  12. Depois de uma queda a minha mãe (82 anos activos, saudáveis ) partiu o fémur .Após nove dias internada no H. Garcia D’Orta na espera de uma operação em continuo jejum (talvez aparecesse uma horita no bloco operatório ) foi operada já debilitada . Agora após 18 dias de internamento leva nove de ligada a suporte de vida com pneumonia , infecções … Nada do fémur apenas incúria desumana de um serviço (traumatologia) cujo director n.craveiro lopes )diz que ninguém morre de fracturas e quinze dias de espera por uma intervenção em jejum é o protocolo. Ele é que sabe e é quem manda diz com arrogância a quem o interpela. Recomendo ao Sol, I, manuelas , crespados e associações ditas pela vida e outros que tais a visitarem este serviço e verem como se mata idosos com dor e sem respeito… Isto não é eutanásia é CRIME!

    1. Milodon, infelizmente sei-lhe dar o valor. Três parentes próximos, entre os quais pai e mãe, foram vítimas da mais grosseira negligência médica e nenhum deles esteve internado no serviço que referiu. Mas esse é outro dossier…

  13. …por se considerar ser o bem mais precioso de todos.
    Lá está o senhor a considerar a vida como algo que se tenha, um “bem”. Como se existíssemos antes e depois dela e durante algum tempo a possuíssemos. Nós existimos antes de comprar a casa e podemos continuar vivos depois de a vender, mas com a vida não é o mesmo. Nós não “temos” vida, apenas estamos vivos e isso pode ser “precioso”… ou não.

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