Quando discuto as questões da eutanásia e do suicídio assistido verifico que quem as crítica inapelavelmente por norma se recusa a debater sobre os casos concretos que chegam à opinião pública. Percebo. É sempre mais complicado defender que uma determinada pessoa deve continuar em sofrimento extremo até à inanição do que argumentar que a vida é inviolável, seja em que circunstância for. Sem dúvida é mais poético este tipo de discurso. Só que a vida não é uma abstracção e não há nada mais concreto do que a dor física.
Sou sensível às razões de quem implora para morrer por não suportar mais o sofrimento. Imagino-me na sua pele e estremeço. Pergunto-me também se quem critica estas pessoas não estará a pecar por soberba, uma vez que não sabe, não pode saber do que está a falar. Tal só seria possível se pudessem experimentar viver, como as pessoas que julgam sumariamente, no limite da dor, por tempo indeterminado e sem esperança de recuperação.
Tenho por hábito perguntar a quem critica a minha posição em relação à eutanásia e ao suicídio assistido se deveria ser condenada à prisão a personagem de Juliette Binoche no filme O Paciente Inglês. Quase no fim do filme ela injecta, lavada em lágrimas, uma dose letal de morfina no seu paciente. Pena eu só poder colocar esta pergunta tão incómoda a quem viu a película de Anthony Minghella. Sempre que a faço não me respondem.

“Só que a vida não é uma abstracção e não há nada mais concreto do que a dor física.”
não é uma abstracção!!?? agora é que eu fiquei confuso!!?? na questão do Aborto, decidiu-se que a Vida Humana começava, juridicamente, às 10 semanas, pelo menos cá no Portugal Modernaço, porque em outros paises, tambem Modernaços, Vida Humana tem diferentes inicios ( é à vontade do freguês…) ! logo, segundo esta lógica a Vida é uma abstração…
Também sou completamente a favor.
A resposta é, não.
Tal como não poderão ser condenados todos aqueles um dia o tenham de fazer.
Teresa, saúdo-a vivamente por trazer aqui este tema, o qual estou convicta, só lhe irá trazer dissabores por via da sua caixa de comentários… A Teresa coloca a questão exactamente no ponto onde deve ser colocada. É muito fácil armarmo-nos em heróis, virando a cara e deixando a responsabilidade ao destino, muito mais difícil é sermos consequentemente heróis, cúmplices e solidários na dor, no sofrimento e no destino.
Ariel, mais do que em heróis, armam-se em juízes. Condenam os que escolhem pôr fim ao seu sofrimento e os que por amor ou piedade os ajudam a fazê-lo. Ignorando ostensivamente as circunstâncias. Essa atitude choca-me.
De facto é muito poético dizer que a vida é algo inviolável. De facto é.. Resta saber se em situações de dor extrema e de diagnóstico irreversível podemos continuar a apelidar tal estado de “vida”. Estive em situação semelhante em que não cheguei a ser confrontado com tal decisão. Mas quando o médico informou-me que se a pessoa em questão continuasse viva seria naqueles pressupostos.. Estou um pouco como a Teresa: “Imaginei-me naquela pele e estremeci.”
Pois é, EK. Quem critica por vezes esquece-se que um dia pode vir a sofrer ou ver sofrer alguém próximo para lá do tolerável.
Se não há dignidade, não há vida.
Logo, se uma criança nasce, apenas por nascer, para enfrentar uma vida de maus-tratos psicológicos e físicos, mais vale não nascer.
Se uma pessoa está morta, excepto em espírito, mais vale deixá-la partir, seja lá para onde for, do que deixá-la sentir o corpo apodrecer, dia após dia, simplesmente porque somos demasiado egoístas para enfrentar a vida sem essa pessoa.
“Se não há dignidade, não há vida”, subscrevo esta sua frase, Helena.
Mais difícil do que lidar com a morte, é lidar com a culpa. Que vem presa a quem se debruça sobre a morte e o sofrimento dos outros. A agonia de alguém próximo de nós é uma pele difícil de vestir. Porque ninguém pensa na dor física, aquela que antecede a morte. Ninguém pensa que que deixar ou ajudar alguém que se ama morrer, é um acto de compaixão. É no fundo aceitar um fim, antes da fatalidade.
Nem mais, CNS.
Não tenho a menor dúvida, por mais que nos custe, que cada um deve ter direito a escolher.
Concordo, Leonor. Mas obviamente nos casos em que o sofrimento é extremo e comprovadamente irreversível. Caso contrário estaria a defender a morte assistida em qualquer circunstância e, note-se, não é esse o meu caso.
A inviolabilidade da vida é um conceito religioso. Tem-se o sentimento que a vida é algo que temos como uma propriedade, que podemos “perder”, que nos podem “tirar”, como se existíssemos para lá dela.
Está enganado: a vida é um conceito civil-social avançado, por se considerar ser o bem mais precioso de todos.
Por isso é que está na base da abolição da pena de morte, por um lado, e o atentado conseguido acarreta a pena mais pesada que a legislação criminal determina, por outro.
Daí também a polémica de cariz civil-social que a eutanásia suscita.
Teresa
A questão é muitíssimo delicada, se colocada a nível geral. Acho sinceramente que o país não está preparado para essa introdução, assim como não estava para a “facilitação do aborto” no SNS. Veja como acabámos por andar para trás: o aborto é hoje utilizado como medida contraceptiva.
Por enquanto, acho preferível considerar cada caso como excepcional, dando espaço para reflectir sobre todos os factores envolvidos.
Acho perigosa a sua introdução, neste momento, na nossa vida colectiva, como lei e prática a introduzir. Já temos fracturas que cheguem, a meu ver, algumas bem expostas, e com as quais ainda não estamos a lidar bem.
Ana (a chata do costume…)
Chata’ Qual chata?
«Pergunto-me também se quem critica estas pessoas não estará a pecar por soberba, uma vez que não sabe, não pode saber do que está a falar. Tal só seria possível se pudessem experimentar viver, como as pessoas que julgam sumariamente, no limite da dor, por tempo indeterminado e sem esperança de recuperação.»
Eis a questão e a resposta condensadas neste parágrafo. O bom julgamento depende da capacidade e profundidade com que conseguirmos colocar-nos na pele dos outros. Uma vez lá, na pele dos outros, percebemos que nos devia ser reconhecido o direito de escolha.
Parabéns Teresa, pela lucidez do texto.
Obrigada, Teresinha.
O tema é delicadíssimo e muito pessoal. A morte é, para mim, talvez o mais íntimo dos actos. Mas não quero deixar de dizer que te dou inteira razão. E o caso de um doente terminal lúcido e em sofrimento extremo nem sequer é o mais difícil de aceitar. Mas defendo que cada um deve ter direito à escolha sobre a sua própria vida, assim como também entendo e respeito que um médico recuse colaborar nesse acto que é contra a natureza da sua profissão.
Acrescento só que a prática é antiga e sempre existiu por cá, mesmo sem legislação. Torga descreveu com toda a clareza a figura do “abafador” nos Contos da Montanha, salvo erro. Evitava à família a participação directa no drama (com tudo o que isso implica) tal como as modernas associações, como essa da Suiça.
Já agora: para além dessa cena d’O Paciente Inglês, recomendo a quem não viu o fantástico Mar Adentro, que trata este tema com a maior dignidade, elegância e sobriedade.
Também gostei muito do Mar Adentro. É sempre bom recordá-lo, porque como tu dizes trata a eutanásia com a “maior dignidade, elegância e sobriedade”. Para mais baseia-se num caso real, o que lhe dá ainda mais força.
Olá Teresa.
Diz, no seu comentário, que é sensível às dores de quem procura ajuda para morrer e que se arrepia ao imaginar-se na sua pele. Se, tal como eu, tem boa ou razoável qualidade de vida, deixe-me discordar pois nem eu, nem a Teresa, nem ninguém, nas mesmas circunstâncias que nós, consegue, efectivamente, imaginar tal. E sabe porque é que digo isto ? Eu sou um dos amigos que acompanhou a Primeira Pessoa Portuguesa a Zurique, para ter uma morte assistida com a ajuda da Dignitas, e, apesar de todo o processo me ter custado imenso e de ter deixado marcas, que só o tempo irá atenuar, não consegui imaginar tudo por quanto ela passou, no seu íntimo. Apenas consegui presenciar/vivenciar o seu sofrimento físico e apatia do dia-a-dia, enquanto esperávamos, com impaciência, que o processo de admissão dela corresse rapidamente, para que ela não tivesse de terminar os seus dias a sobreviver sem um minimo de dignidade e de qualidade de vida. Para além disso, também lhe digo que não nos é possível imaginar como é que alguém, em tais circunstâncias, consegue encontrar tanta força moral, para enfrentar uma situação que a nós parece brutal e desumana e além disso dar-nos alento nos seus últimos momentos. Pois foi isso o que se passou e aquilo que nos foi transmitido na Dignitas, por quem já ajudou muitas outras pessoas a ter uma morte assistida, é que essas pessoas encaram o seu acto como algo que as vai libertar. E sabe que mais? Essas foram precisamente as palavras da pessoa amiga, no dia em que a acompanhamos à clínica: “chegou o dia da minha libertação e, se efectivamente existe Deus e se vamos para o céu, hoje vai haver uma grande festa, pois vou lá encontrar a minha mãe, o meu irmão…”.
Questiona-se se é um acto racional permitir que alguém tome uma decisão sobre o fim da sua própria vida e se devemos ter compaixão em tais circunstâncias. Mais do que compaixão para mim é um acto de amor, pois ver alguém a agonizar durante meses, sabendo que não há retrocesso e que a situação só leva a um fim cada vez mais doloroso, esse sim é um acto desumano. E quem somos nós para dizer, a quem nos pede ajuda, que ela não tem direito a fazer da sua vida aquilo que pretende, se ela se encontra perfeitamente lúcida e consciente de que não terá uma vida digna nos seus últimos momentos ? Alguém me disse que ela foi egoísta ao pensar só em si ao perseguir a sua vontade, arrastando com ela mais duas pessoas, mas posso dizer que nunca me senti usado ou manipulado e que aquilo que ela queria era não dar trabalho, preocupações e sofrimento à família e amigos. Passados os primeiros dias depois da sua morte, que a todos custou, até pelo choque da sua decisão, tenho plena consciência que terá sido a forma mais fácil, para todos, de ultrapassar a dor de uma morte, sem terem de passar pelo período, mais ou menos longo, do seu doloroso sofrimento. Por isso a considero uma mulher muito corajosa, como nunca imaginei ser possível.
Deixe-me felicitar a si e a todos quantos, compreendendo a questão do sofrimento extremo e da vida sem dignidade, não calam as suas vozes, esperando que elas venham a ecoar nas mentes de quem tem “poderes” para zelar pela saúde dos seus concidadãos, sem hipocrisias.
Caro Oliveiras, agradeço muito o seu testemunho.
Caro Oliveiras
O meu nome é Lucília Galha, sou jornalista da revista SÁBADO. Li o seu comentário neste site e gostaria de entrar em contacto consigo. É possível dar-me o seu endereço de e-mail para lhe explicar o que pretendo e falarmos um pouco? Pode contactar-me através do seguinte endereço: luciliagalha@sabado.cofina.pt
Muito obrigada pela atenção.
Melhores cumprimentos
Lucília Galha
Caro/a (?) Oliveiras,
A propósito da morte da sua amiga, escrevi um texto de opinião no Público: “A primeira pessoa portuguesa a morrer na Dignitas”. Trabalho estas questões da morte assistida desde 2002. O ano passado, a Sextante publicou um livro meu sobre o assunto: “Ajudas-me a morrer? A morte assistida na cultura ocidental do século XXI”. Um capítulo é aí dedicado à Suíça e, dentro dele, algumas páginas à Dignitas. A senhora que acompanhou não gostaria que “testemunhasse” no nosso país a favor da despenalização da eutanásia e morte assistida, mesmo sem a identificar? Para que outras pessoas não sejam obrigadas a ir à Dignitas, mas possam morrer em Portugal de acordo com as suas convicções? Eu já “testemunhei” muitas vezes, mas gostaria de ter mais companhia. Para que a classe médica pare de dizer que em Portugal “não se passa nada” e que os cuidados paliativos são o remédio ideal para todo o sofrimento.
Seja como for, obrigada por não ter deixado a nossa compatriota sozinha.
laura f. santos
laura.laura@mail.telepac.pt
Depois de uma queda a minha mãe (82 anos activos, saudáveis ) partiu o fémur .Após nove dias internada no H. Garcia D’Orta na espera de uma operação em continuo jejum (talvez aparecesse uma horita no bloco operatório ) foi operada já debilitada . Agora após 18 dias de internamento leva nove de ligada a suporte de vida com pneumonia , infecções … Nada do fémur apenas incúria desumana de um serviço (traumatologia) cujo director n.craveiro lopes )diz que ninguém morre de fracturas e quinze dias de espera por uma intervenção em jejum é o protocolo. Ele é que sabe e é quem manda diz com arrogância a quem o interpela. Recomendo ao Sol, I, manuelas , crespados e associações ditas pela vida e outros que tais a visitarem este serviço e verem como se mata idosos com dor e sem respeito… Isto não é eutanásia é CRIME!
Milodon, infelizmente sei-lhe dar o valor. Três parentes próximos, entre os quais pai e mãe, foram vítimas da mais grosseira negligência médica e nenhum deles esteve internado no serviço que referiu. Mas esse é outro dossier…
…por se considerar ser o bem mais precioso de todos.
Lá está o senhor a considerar a vida como algo que se tenha, um “bem”. Como se existíssemos antes e depois dela e durante algum tempo a possuíssemos. Nós existimos antes de comprar a casa e podemos continuar vivos depois de a vender, mas com a vida não é o mesmo. Nós não “temos” vida, apenas estamos vivos e isso pode ser “precioso”… ou não.
Fui eu que fiz este comentário. Como é que saíu anónimo? Tenho um santo despreso pelos anónimos.