Morra Marta, que estamos fartos


José Meireles Graça,

Ele é mortos inexplicáveis para nossa perplexidade e outros explicáveis para nossa indignação, crianças que morrem no parto por falta de assistência, grávidas que andam de porta em porta de hospital, uma sensação geral de desnorte e um corrupio de opiniões e medidas.

Que medidas? Na AR foi dito (suponho que pela ministra Temido, não fui conferir), num debate em que Costa não esteve presente por causa da habitual ausência no estrangeiro sempre que a argolada governamental é demasiado evidente: “Vamos criar uma Comissão para assegurar o acompanhamento ao nível estrutural dos Planos de Contingência e efectivar a coordenação da resposta a implementar no âmbito dos serviços e meios”.

Nem mais: Vamos pé-ré-pé-pé efectivamente na medida em que.

Entretanto, Costa deu o mote: o SNS tem problemas estruturais. E a detestável Marta e os aguadeiros do PS na comunicação social esforçam-se por os elencar, aos bloqueios estruturais: obstetras que não há em número suficiente, pessoal médico que não quer “dar horas” por serem miseravelmente pagas, organização deficiente dos serviços, médicos que se reformam, enfermeiros que vão trabalhar para o Reino Unido, Ordem dos Médicos que escalona não sei quê assim mas devia escalonar assado, acesso à especialidade mais condicionado do que o que deveria, médicos que dão à sola para o sector privado, insuficiência de meios materiais nuns sítios e desperdício noutros… a lista é infinita e, é claro, a esquerda demente tem na manga a solução: chuva de milhões, restrições para o sector privado, no limite mobilização forçada de médicos e instalações privadas.

Milhões, parece, tem havido, é o que diz Medina (incidentalmente cravando uma saborosa adaga nos costados da camarada) e faz parte do argumentário oficial do PS. E, sem ir verificar, acredito: Mesmo aplicando a taxa de redesconto do banco da aldrabice, necessária no que toca a afirmações oriundas daquelas partes, o ponto não tem sido muito contestado.

Tem havido mas não o suficiente. Nunca aliás o dinheiro foi suficiente para a Saúde, nem nunca será. A solução imediata para o problema, não apenas o dos escândalos com parturientes nestes dias mas o, ainda mais grave, dos atrasos nas consultas e intervenções cirúrgicas (v.g. esta comovente história do meu camarada de blogue), seria o transferir sistemático dos atrasados, dentro de limites razoáveis, para o sector privado. Prática que, se passasse a ser mais volumosa do que é, rapidamente originaria uma expansão daquele sector – precisamente o que o PS em geral, e a Martinha e os seus camaradas comunistas em particular, não querem.

Mesmo que quisessem, porém, o céu não é o limite. Este está naquele módico de equilíbrio orçamental que os nossos patrões europeus impõem. Patrões benevolentes, aliás: que se o país se financiasse sem a almofada do BCE o celebrado SNS rapidamente passaria do pacífico estatuto que detém de grande conquista de Abril para o de grande equívoco do mesmo prestigiado mês, por não haver dinheiro nem para papel higiénico.

Que o SNS é uma velha gaiteira cujos melhores dias já lá vão não oferece dúvidas: o escândalo são partos sem assistência médica? Mas quê, acaso estão a nascer muitos bebés, acabou a crise demográfica? Não acabou: se nascessem tantos como na década de 50 muitos veriam (como eu) a luz do dia em casa, ou mais provavelmente dentro de um táxi, a fazer o périplo dos serviços encerrados, na hipótese de eles ou também as mães não esticarem logo ali o pernil sacrificado às ideias tolas que, com o voto, a comunidade consagrou.

Poderia o SNS aguentar-se indefinidamente como está, ainda que com as mesmas queixas crescentes que tem, por exemplo, o do Reino Unido? Poderia sim, se o país não tivesse um crescimento lânguido ou se não houvesse a nuvem da dívida. Duas realidades que nada indica venham a desaparecer até onde a vista alcança.

A ministra vai de vela, Sérgio Sousa Pinto já lhe passou uma guia que o establishment socialista, por espírito de preservação, acabará por adoptar. E com remendos daqui e dali o clamor público, de todo o modo uma fracção do que existiria se fosse um governo de direita a presidir ao descalabro, amainará.

Até à próxima crise ou à consagração na prática do padrão que se começa a afirmar: quem tem dinheiro (ou um sistema inteligente como a ADSE, cujos méritos nunca foram, mas deveriam ser, ponderados como alternativa ao sistema cediço que tem a generalidade da população) vai ao privado; e o SNS é para acidentes, se for a Urgência que estiver mais perto, ou para os pobres e para quem tiver cunhas.

A ideia da gratuitidade sempre foi um logro porque induz procura nem sempre necessária, exames nem sempre indispensáveis e gestão enviesada por não fazer análises de custo/benefício, num ambiente em que o sucesso  depende não da satisfação do cliente mas da aprovação da tutela; a transformação do médico em funcionário muta-o num burocrata da saúde, e ao paciente/cliente num utente; a absurda importância e o vozear incomodativo dos sindicatos de médicos traz para o espaço público a confusão entre a defesa de interesses corporativos e os dos doentes; e a ideia de que um serviço público essencial é poluído pelo lucro e pela concorrência não é mais do que a concepção anómala de que uma ilha socialista pode funcionar bem quando nenhuma sociedade integralmente socialista jamais o conseguiu.

É certo que há uma lenda, cara a pessoas de esquerda, segundo a qual a qualidade da gestão é independente da propriedade pública ou privada, o que se prova pelos numerosos casos de empresas privadas que, por erros de gestão, fecham. Mas não é concebível mercado sem concorrência, concorrência sem falências e eficiência na afectação de recursos sem lucro, propriedade e a pele em jogo – tudo o que não existe no SNS.

De modo que levantem alto o santinho com a imagem de Arnault, e, quando faltarem como já vão faltando os milhões crescentemente necessários para não regredirem os números que provam as brilhantes conquistas da engenharia daquele falecido pai da pátria agradecida, rezem muitas orações – a fé é que nos salva quando falta o antibiótico, o bisturi e os profissionais que os receitam e manejam enquanto sobra o atravancamento de pessoas atarantadas e esgotadas nos sítios onde se trata destas coisas.

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7 comentários em “Morra Marta, que estamos fartos”

  1. Ena, ena tivemos a Constança dos fogos, agora temos a Marta dos partos.
    A dos fogos ainda hoje dá jeito e esta vai dar jeito até 2026, que Tancos perdeu a validade.

  2. Debater a saúde e medir a situação desta por princípios meramente emocionais, ideológicos e até mesmo financeiros é simplesmente negar que a saúde também pode ser gerida. Atirar para cima desta (saúde) mais, e sempre cada vez mais, médicos e outros profissionais é também esquecer que muitos desses profissionais são suportados em suas formações pelo erário público e que depois, muitos destes, acabam ao serviço de entidades privadas e também beneficiando outros países de acolhimento sem que o retorno desse investimento público seja no mínimo recuperado.
    De outra forma, também não é lícito – não deveria ser – que a questão da saúde se limite somente ao serviço e pouco se aborde o que também, certamente, piora o serviço.

    Antes de alongar o pensamento, remeto para estatísticas mortais que poderiam ter sido evitadas, não existissem tantos cientistas e políticos a fazer de cientistas a actuar fora da caixa, que deveria ser o senso.
    A Covid não é uma doença, é a consequência de múltiplos factores que não se cingem a patologias mas fundamentalmente a biologias. Só por isto se pode compreender que em pessoas com as mesmas idades (ou outras) e até com as mesmas patologias ou piores, umas morrem e outras não. Fica também provado nestes casos que a vacina não contraria o desfecho, e que a prudência e o bom senso resultaram melhor.
    Vejamos:
    Em finais de Abril de 2022 o cenário era o seguinte:
    https://ionline.sapo.pt/artigo/769885/covid-19-ha-cinco-vezes-mais-mortes-do-que-ha-um-ano?seccao=Portugal_i
    Em 09 de Junho de 2022 o cenário era conforme segue:
    https://multinews.sapo.pt/noticias/covid-19-portugal-regista-mais-obitos-em-2022-do-que-em-todo-o-ano-de-2020-quando-nao-havia-vacina/
    Isto é: a vacina mostrou ou procura mostrar que é usada como um subterfúgio para evitar atitudes tão prudentes e elementares como, entre outras, manter as pessoas, que podem, a trabalhar a partir de casa.
    Não obsta esta introdução a que, no meu entendimento, outros vectores possam ser aferidos. Por exemplo:
    “Afirmemos desde já que o nosso SNS não tem na proximidade uma das suas caraterísticas. Desde sempre muito institucionalizado, as suas estruturas e os seus serviços sempre viveram dentro das suas paredes, manifestando uma extrema rigidez em sair dos seus muros e aproximar-se das comunidades. Os centros de saúde e os médicos de família sempre deram consultas quase que em exclusivo nos seus gabinetes, não se notando qualquer evolução com os modelos das USF; os hospitais, por natureza de procura referenciada, não dialogam com os médicos de família e têm na urgência a porta de entrada para grande parte do internamento dos doentes, principalmente nas especialidades médicas. Diga-se que este cenário não é comum no resto da EU, em que o volume de urgências é muito inferior e o internamento hospitalar é, na esmagadora maioria dos casos, programado em articulação entre os médicos de família e os especialistas hospitalares. Mas também a medicina geral e familiar se exerce de forma diferente, com países a atingir quase 50% das consultas realizadas no domicílio dos doentes.”
    A Fonte é esta:
    https://visao.sapo.pt/opiniao/ponto-de-vista/2022-04-25-proximidade-a-palavra-chave-para-o-futuro-do-sns/
    Por último, os povos da UE e o do USA continuam a perceber que quando foram tomadas as decisões injustas e injustificadas contra a Rússia não deveria existir um adulto nessa sala de decisões.
    Não existia um adulto na sala onde tais decisões foram tomadas, porquanto aqui se explica:
    https://theconversation.com/ukraine-war-follows-decades-of-warnings-that-nato-expansion-into-eastern-europe-could-provoke-russia-177999
    E o povo americano começou também a abrir o olho, ver aqui:
    https://www.youtube.com/watch?v=qrf4P7NCwLA
    Deixo este dois pequenos apontamentos em homenagem a Assange – por ter sido ele que fez vazar o conteúdo de Burns que é expresso nestas duas ligações -, que neste momento enfrenta a decisão do governo neonazi e neofascista que deu luz verde para sua extradição.
    Se me permite, quero homenagear ainda a pequena Kira, que antes de sua morte afirmou que escutaríamos sua canção (eu quero contribuir para esta precognição da menina):
    https://rumble.com/v18rf7y-6-year-old-girl-recorded-song-about-peace-before-her-death-in-ukrainian-she.html

    1. Para demonstrar que a política resolve a questão usando “polícia” para policiar a “polícia”, compreendendo-se que o problema é também organizacional. Eis a afirmação:
      “A Saúde, admitiu ainda, tem problemas estruturais, é um setor difícil, que envolve muitos recursos e interesses e que precisa de organização.”
      https://eco.sapo.pt/2022/06/19/presidente-do-tribunal-de-contas-admite-auditoria-as-urgencias-hospitalares/
      A propósito do governo neofascista e neonazista com quem Portugal vai celebrando uns acordos, deixo aqui outra notícia, sem qualquer boicote por parte dos progressistas que semeiam a miséria, a morte e a fome um pouco por todo o mundo. O governo assinalado descobriu que os refugiados podem ser enviados para o Rwanda.
      https://rumble.com/v18bxfh-unethical-plan-uk-poised-to-send-refugees-to-rwanda.html
      Em aditamento, Stoltenberg, que é um ás do pensamento e estratégia juntamente com os demais aliados, vem dizer-nos isto:
      “Não devemos enfraquecer o nosso apoio à Ucrânia, mesmo que os custos sejam elevados, não só em termos de apoio militar, mas também devido ao aumento dos preços da energia e dos alimentos, acrescentou (…):
      “Estes custos não são nada em comparação com o que os ucranianos…”
      https://24.sapo.pt/atualidade/artigos/lider-da-nato-avisa-que-guerra-na-ucrania-pode-durar-anos
      Para este cérebro, que não merecemos, pois não podemos igualar, a fome que a ocidente e a oriente já se instala através dos magníficos planos que delinearam e a depressão que começa a instalar-se nas economias ocidentais, nada tem de comparável com o que os ucranianos estão a passar por decisão de Biden-Zelensky-Jonhson & Cia, independentemente das contradições que vão anunciando:
      https://rumble.com/v18eos2-kiev-may-have-to-cede-territories-to-strike-peace-deal-natos-stoltenberg.html

      Ainda sobre a fome e miséria que vão instalando, importa anunciar e divulgar também estas estatísticas:
      https://www.massnews.com/1-in-6-germans-skipping-meals-to-save-money-poll-analysis/
      https://cosmoschronicle.com/germans-skipping-meals-to-save-money-to-survive-the-hunger-games/
      https://sol.sapo.pt/artigo/773627/os-mais-ricos-e-que-estao-beneficiar-com-a-inflacao

      De tal forma a fome se instalou que até mesmo os quadrúpedes decidiram dedicar-se à actividade do gamanço, e recomendo o mesmo para os bípedes nesta situação:
      https://videos.sapo.pt/vEgYu07MztV9QzN3QYMN

      Em termos de alguma esperança e a certeza que o mal acaba em queda livre depois de tanto prejudicar, devo acrescentar que é inequivocamente reconhecido que Biden deu um grande trambolhão, depois de arrastar o mundo para o precipício, e não é capaz de se manter a pedalar:
      https://rumble.com/v18xd49-fast-and-furious-biden-falls-off-bike.html

      Ao JMG quero oferecer esta conversa com Victor Gao que presumo venha a ser útil em suas análises e reflexões:
      https://rumble.com/v18eoiw-worlds-apart-pains-strains-and-no-gains-victor-gao.html

      Concluindo, como eu tinha predicto em um comentário num post da beatriz j a, a parte industrial de Severodonetsk está cercada como ocorreu em Azovstal, e das tropas ucranianas e mercenários junto delas alguns já se renderam.
      Entretanto, as estatísticas a ocidente indicam a morte de cerca de 1000 soldados ucranianos/dia – são mais.
      Os combatentes da região do Donbass, juntamente com as tropas russas, continuam a avançar, a tomar terreno, a cercar todas as possibilidades de fuga, e a guerra, a partir de agora, terá outras direcções e planos. A região noroeste da Ucrânia, Lviv e outras áreas, continuam a ser bombardeadas; e ninguém tem reportado isto, pois não convém dizer que o material de guerra enviado pelo ocidente está a ser destruído.
      Oportunamente farei um comentário, evitando pormenores sinistros próprios da guerra, em tom de diário de uma guerra que inqualificáveis e sinistras pessoas promovem e desejam que continue, como estes aqui:
      https://www.theguardian.com/business/2022/apr/04/jp-morgan-could-lose-up-to-1bn-through-exposure-to-russia-says-boss-jamie-dimon-ukraine
      Sobre a economia russa:
      O Banco central russo reduziu as taxas de juro para 9,5% (estavam em 20%) e a ocidente diz-se isto:
      https://www.businessinsider.co.za/russia-economy-gdp-stronger-expected-sanctions-ukraine-war-jpmorgan-ruble-2022-5

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