Quero aqui expressar a minha homenagem a três articulistas do Expresso. Os últimos resistentes, naquele jornal, à norma que abrasileira a ortografia portuguesa com carácter universal e aparentemente irrevogável. Inês Pedrosa, José Cutileiro e Miguel Sousa Tavares persistem teimosamente em utilizar a “antiga ortografia”, como lhe chama o modernaço semanário de Francisco Pinto Balsemão. Em tom peremptório – ou deverei antes escrever “perentório”?
“Os brasileiros continuarão a chamar camisola à camisa de dormir e a usar o verbo trepar como sinónimo de transar, um verbo amável que os portugueses não têm. Além das diferenças vocabulares, persistirão as diferenças na gramática e na sintaxe – criativas, inspiradoras diferenças, que impedirão sempre a unificação dos manuais escolares nos países de língua portuguesa, mantendo a música específica de cada versão do português. Expliquem-me, por favor, para que serve o acordo ortográfico – e digam-me quanto desse dinheiro que não gastamos a promover a cultura de língua portuguesa ele nos custou. Quanto custou o tal lince descodificador? Quanto custaram as reuniões dos cérebros que produziram a maravilha? Quantos milhões de livros se deitarão para o lixo por neles estar escrito ‘afecto’ em vez de ‘afeto’?”
São perguntas que Inês Pedrosa deixa na sua crónica de hoje. Em português “antigo”. E muito bem.
ADENDA – Mais papista que o Papa, no seu afã de abrasileirar o português, a Lusa suprime até as consoantes mudas que pronunciamos em Portugal, contrariando o “acordo ortográfico”. Um exemplo muito recente: “(…) explicou que pesou na decisão o fato de o réu ter admitido pessoalmente que sempre conduziu sem carta.” (Notícia difundida a 16 de Julho, às 10.50)
De fato. Levaria gravata também?

O português “antigo” parece-se estranhamente com o inglês e o francês modernos.
O português “moderno”, mutilado, que saíria do “acordo” parece-se estranhamento com uma língua falada num dos países menos alfabetizado do mundo e que discute internamente o porquê dos péssimos (último ou penúltimo do mundo) resultados que obtém no PISA em aptidão da língua materna – e, diga-se, também em matemática…
Hei-de voltar a este assunto, que para mim está muito longe de esgotado.
Em contrapartida não consigo entrar nos livros da Inês Pedrosa, mesmo a escrever à antiga. Odiei A Eternidade e o Desejo. Não tem muito a ver, eu sei.
Escritor-cronista é quase sempre diferente de escritor-escritor. Penso nisto muitas vezes ao ler alguns dos nossos escritores mais conceituados.
Por mim, a Lusa pode ir de vez e de fato. De fato preto.
De facto.
Nunca me considerei um grande patriota nem nunca perdi muito tempo a pensar nisso. Mas para mim Portugal define-se principalmente pela sua língua, admirada e temida pelos estranjeiros, de tão rica que é.
Sou muito old-school nisto de acordos ortográficos e, de facto, este assunto merece mais discussão, pois não vejo assim muita gente preocupada com isto.
Não sei por que dizem que a língua portuguesa é rica. Eu nunca contei as palavras, claro, mas tenho a noção de que o inglês é muitíssimo mais rico, pelo menos em matéria de verbos e de substantivos para descrever ações e coisas específicas. Talvez em matéria de adjetivos o português seja superior, mas para efeitos práticos, de descrever objetos e ações, o inglês tem centenas de palavras que faltam em português.
Claro que «o inglês tem centenas de palavras que faltam em português». Dou-lhe já duas: good morning.
“abrasileira a ortografia portuguesa”
Temos nesta frase o cerne da oposição à reforma ortográfica. Essa reforma não é má em si e por si, mas sim, e apenas, porque torna a ortografia portuguesa mais próxima da brasileira. Ou seja, é uma oposição xenófoba, uma oposição cuja principal (eu diria mesmo única) motivação é que o português se mantenha bem distinto do brasileiro.
Está enganado. O brasileiro é que se tornou distinto do português. Será que os brasileiros são xenófobos?…