Faz hoje 40 anos, um oficial de face esguia e de poucas falas, com marcado sotaque beirão, era eleito Presidente da República após uma campanha atribulada que envolveu ameaças, insultos, pancadaria e tiros. A dado momento o candidato subiu com agilidade para o tejadilho de um carro e desafiou os agressores armados, deixando claro que era um homem sem medo. Estavam ainda frescos os ecos da revolução e muitos não se conformavam com a “normalidade democrática”: exigir o impossível ao virar da esquina era palavra de ordem que continuava a ser bradada a todo o instante.
Este oficial de semblante espartano tinha irrompido do anonimato numa noite tensa, ao surgir de camuflado como comandante operacional da contra-insurreição de 25 de Novembro de 1975 que pôs fim ao aventureirismo de uma certa esquerda festiva, armada até aos dentes. Com a região militar de Lisboa em estado de sítio, a circulação de jornais suspensa e os blindados do Regimento de Comandos da Amadora defrontando a Polícia Militar no quartel da Ajuda numa ríspida troca de tiros que provocou três mortos. O PREC chegava ao fim, a disciplina regressava aos quartéis, Portugal não seria a Albânia da Europa Ocidental – o destino que alguns tontos sonhavam para nós.
“Missão cumprida, meu general”, disse o tal militar de poucas falas, dirigindo-se ao Presidente da República, Francisco Costa Gomes. Sete meses depois, já também oficial-general, ascendia ele próprio à chefia do Estado. Mas, ao contrário do antecessor, António Ramalho Eanes iniciava o seu mandato validado nas urnas. Pela primeira vez Portugal tinha um Presidente da República eleito por sufrágio livre, directo e universal.
Os portugueses gostaram dele: naquele dia 27 de Junho de 1976 recebeu quase três milhões de votos, correspondentes a 61,5% dos boletins, e logo se proclamou “Presidente de todos os portugueses”. Este nativo do signo Aquário era o mais jovem inquilino de sempre do Palácio de Belém: tinha apenas 41 anos quando ali entrou com a esposa, Manuela, e um filho ainda pequenino, Manuel. Outro viria a nascer já com o Pai a conduzir o Estado naqueles anos em que a nossa democracia ainda mal gatinhava.
Alguns dos que mais o combateram acabariam por render-se à competência e à seriedade de Ramalho Eanes, um dos pioneiros da nossa democracia – figura de referência pela rectidão de carácter e pelo patriotismo que sempre evidenciou. Foi um dos raros políticos nacionais que sempre mereceram o meu respeito. Até porque dele se pode dizer, sem favor, que ao cessar funções deixou o País melhor do que estava ao iniciá-las.
Oxalá de todos se pudesse dizer o mesmo.

![18653284_rJAsR[1].jpg 18653284_rJAsR[1].jpg](http://3.fotos.web.sapo.io/i/B7a08eefb/19731712_6foVN.jpeg)
Acompanho-o nos seus elogios. Só faltou referir a parte fraca do seu desempenho na Presidência que foi ter dado cobertura à criação do PRD mas mesmo aí deu-nos a oportunidade de constatar que um partido baseado apenas na ausência de corrupção não se aguenta, dado que acaba por incluir sempre alguns membros com telhados de vidro.
Todos os mandatos políticos têm luzes e sombras. Ainda bem que assim é: a “perfeição” só existe em regimes totalitários, onde quem manda não são homens mas monstros.
Não retiro fundamento ao seu reparo crítico. Mas o que me interessa valorizar neste dia concreto é o enorme contributo que o Presidente Ramalho Eanes deu para a consolidação da democracia em Portugal. Não foi tarefa fácil. Não foi – muito menos – uma tarefa menor. A verdade é que no momento certo ele estava lá. E esteve à altura dos desafios da história.
Nós, os que já nascemos ou atingimos a maturidade depois desse ano-chave de 1976, devemos-lhe essa palavra de reconhecimento.
Reconhecendo o seu papel importante na consolidação do regime que hoje temos em Portugal, não tenho particular simpatia por esta figura da politica portuguesa, em especial o seu papel pós-presidencial, nem tão pouco a aura que hoje se pretende colocar, como referência moral da república. Uma pessoa que, pura e simplesmente não fala sobre nada, não toma posição sobre nada, não pode ser a referência moral da República.
Permita-me tão só, essa é a razão deste meu comentário, que recupere o acrónimo que o seu nome, Eanes, invocava aos seus detractores e apoiantes:
Em
Alcains
Nasceu
Este
Sacana / Senhor
Aprovei a publicação do seu comentário por aqui vigorar a liberdade de expressão mas tenho de dizer-lhe sem rodeios que acho de um tremendo mau gosto aquilo que escreveu.
E fico-me por aqui.
Saudando a sua liberdade de expressão, não esperava outra coisa, e não falando do acrónimo, que o Pedro acha de mau gosto falar, mas que eu retenho de o ouvir nos termos em que o apresentei (detractores vs apoiantes) aquando da sua reeleição, tinha eu oito anitos, permita-me que recupere um texto de Saramago que, de certo modo, vai de encontro ao que penso a propósito da aura de referência da República que se quer impor ao General Ramalho Eanes:
«Três anos de outra vida em liberdade (hoje sob alguma vigilância) não curaram maleitas históricas. E uma delas, apontada, radiografada, posta na mesa da anatomia, é isso a que se deu nome de sebastianismo. Lugar-comum, banalidade, já parece sinal de pouca imaginação e nenhuma sabedoria falar de tal coisa. Que estes rótulos não nos calem. Porque sebastianismo não é só esperar por D. Sebastião, adorar D. Pedro V, andar com Sidónio às costas ou empurrar para a frente Ramalho Eanes. O sebastianismo é muito mais subtil do que esta elementaridade, muito mais dialéctico do que essa simpleza. D. Sebastião também pode ser colectivo. Hoje, nesta exacta hora, o Rei Virgem encarnou nos independentes.»
SARAMAGO, José – Folhas políticas : 1976-1998. Lisboa : Caminho, 999. p. 46
De acordo com o post.
“…Foi um dos raros políticos nacionais que sempre mereceram o meu respeito. Até porque …” faz parte da inacreditavelmente escassa elite de políticos portugueses que foram eleitos, e sobretudo re-eleitos, em nome próprio.
Mas mais, não precisou de negociar apoios dos partidos do poder para ser re-eleito. E estes não se atreveram a o não apoiar. Situação sem par.
De respeitar ainda a forma como aceitou, de forma rápida e clara, a derrotada na tentativa de singrar para uma vida político-partidária.
Uma tentativa a que, como qualquer outro cidadão, tinha direito. Tentativa essa por vezes interpretada de forma discutível, e a merecer uma cuidadosa análise, pelas consequências que teve na evolução da “democracia” em Portugal.
Soube aceitar a derrota e afastar-se do poder político, apesar de ter já uma notável carreira política e uma personalidade interventiva. Não é nada fácil.
PS- Não tenho qualquer relação pessoal ou profissional com A. R. Eanes.
Aprecio em Ramalho Eanes algumas qualidades que hoje parecem muito fora de moda: sobriedade, contenção verbal, sentido de honra, noção do compromisso, fidelidade à palavra dada, patriotismo jamais confundível com patrioteirismo. E coragem – física e anímica.
Gostava muito que o ex-Presidente escrevesse um livro de memórias ou sugerisse a alguém para o fazer por ele. Deve isso a Portugal e aos portugueses.
Pessoalmente, não o conheci tão bem como a outros inquilinos do palácio cor de rosa. Era, como diz, de poucas falas. Não gostava do mediatismo popular. Só o vi interagir com populares , em mangas de camisa em época de reeleição.
Não obstante, subscrevo este seu texto na integra.
Colei muito cartazes dele ” Muitos prometem, Eanes cumpre”. Foi um competente inquilino de Belém. Creio que cumpriu.
Gosto de qualificar o desempenho dos políticos segundo a regra que enuncio no fim deste texto, Dulce: ao cessarem funções deixaram o País melhor ou pior do que o encontraram?
Com Eanes nunca tive a menor dúvida quanto à resposta. O Portugal de 1986 era incomparavelmente melhor do que o Portugal de 1976.