Miscigenação


Cristina Torrão,

A conversa à volta da fotografia de Elyas M’Barek, na rubrica “Always handsome” desta semana, um actor muito popular na Alemanha, de nacionalidade austríaca e filho de pai tunisino, deu azo a conversas que eu não teria imaginado. Nada tenho contra, pelo contrário: as conversas são como as cerejas e é bom trocar informações. Porém, alguns comentários seguiram rumos que sinceramente não aprecio e não posso deixar de referir certos pontos.

 

Depois de quase trinta anos de vida no estrangeiro, não sou de opinião de que os emigrantes/imigrantes portugueses sejam melhores do que os outros, tese criada a fim de distanciar os ilegais portugueses dos anos 1960 de todos os outros ilegais. Quem quiser viver nessa ilusão, pois faça favor! Se há algo que aprendi, nestas últimas décadas, é que, em todo o lado, e oriundas dos mais variados países, há pessoas boas e más, pessoas trabalhadoras e preguiçosas, pessoas honestas e vigaristas.

 

Também não sustento a ideia de que os portugueses gostem mais de regressar do que os africanos, pelo menos, no que respeita aos norte-africanos muçulmanos. Conheço portugueses reformados em Hamburgo que aqui se mantêm, desistindo de um regresso definitivo. Quanto às férias: quem viaja de carro entre França e Portugal, em Agosto (e eu, vinda do Norte da Alemanha, tenho de atravessar a França de lés a lés), verifica um verdadeiro êxodo de marroquinos, tunisinos, etc., junto com os portugueses, de regresso aos seus países-natais. No Norte de Espanha (País Basco e arredores) há placas em português e em árabe, assim bem juntinhas (que sacrilégio!), assegurando que esses viajantes não se enganem no caminho. Os norte-africanos são encaminhados para Algeciras, os portugueses para a fronteira de Vilar Formoso.

 

É pena que, em contextos destes, haja tanta compreensão, tanto elogio e tanto carinho, da parte dos portugueses residentes no seu país, em relação aos compatriotas residentes no estrangeiro, e que, na prática, quando os emigrantes invadem Portugal, em Agosto, só haja desprezo e sarcasmo para os “aveques”, que se armam ao pingarelho a falar francês.

 

Também acho curioso que aqueles que tanto atacam o machismo dos muçulmanos sejam eles próprios machistas. Se abordo aqui no Delito assuntos feministas (os comentários à minha publicação Upskirting foram bem elucidativos), sou atacada sem dó, nem piedade. Falando-se de muçulmanos, surgem indignações sem limites, defendendo-se os direitos da mulher com unhas e dentes.

 

Conclusão: um actor como Elyas M’Barek é muito melhor aceite em países com fama de racistas do que no nosso jardinzinho plantado à beira-marzinho.

36 comentários em “Miscigenação”

  1. “Conheço portugueses reformados em Hamburgo que aqui se mantêm, desistindo de um regresso definitivo.” Nem mais, e não é só por causa dos filhos e dos netinhos, é também porque o SNS lá do sitio é um “poucochinho” melhor.

  2. Eh eh!
    E faça uma novena à Virgem, ou ao santo da sua devoção, em sentido agradecimento por não ter levado com o Vento, munido da Bíblia na mão esquerda e a espada flamejante da Divina Justiça, na direita.

  3. Provavelmente serei um dos visados deste post.
    No entanto, creio em lado nenhum ter escrito que o emigrante português é melhor que os outros. Limitei-me a tecer uma opinião, uma opinião partilhada por muita gente, inclusivamente por naturais de países que convivem com vários emigrantes, de diferentes países.

    Não sejamos ingénuos e a autora está a ser ingénua propositadamente, com o claro objetivo de ser politicamente correta, de tentar fazer crer que o emigrante português emigra com o mesmo objetivo e com o mesmo desejo do norte africano. Não têm o mesmo objetivo de regressar a casa no final da sua conquista por uma vida melhor. O que é compreensível, dadas as condições de vida nesses países, comparativamente com Portugal.

    No final, a autora é que cria o preconceito. O preconceito do emigrante, que regressa a casa ao final de um ano e é maltratado.

    Ora, tudo na vida se faz pelo geral. As políticas têm um objetivo geral. A medicina tem em vista o bem geral. A lei tem como referência um conceito geral de legalidade. Nada se faz com vista ao particular, apesar de o particular existir e se diferenciar do geral.

    Fazer a análise GERAL que fiz sobre o emigrante, não faz de mim preconceituoso. É apenas e só uma análise geral, tendo perfeita consciência de que existem excepções.

    Agora repare, a autora faz uma análise geral do português, com os fundamentos que quiser apresentar. No entanto há excepções. Então na minha opinião geral eu revelo um preconceito e a autora no seu, já não.

    Pelo que vejo é tudo uma questão de assunto. E como assunto foi desviado pela autora, sem nenhum fundamento, para uma questão racial, já não fica bem tecer uma idéia geral.

    Não me parece correto. Aliás, parece-me castrador não haver liberdade para se falar sobre determinados assuntos, que em nada fazem passar idéias racistas, ou xenófobas, excepto na mente de quem as quer ver dessa forma.

    Em suma, o emigrante português é diferente do africano? No geral é. O português menospreza o emigrante português que regressa a Portugal? No geral sim.

    E então? Qual é o problema?

  4. A culpa é do Lavoura, que com o seu comentário, mexeu com isto tudo.
    Não fique tão melindrada. Não é caso para isso. Nem me parece ser caso para revestir este episódio, nem nenhum comentário, de teor xenófobo, ou racista, de superioridade, ou inferioridade.
    Provavelmente a Cristina estará a dramatizar a coisa e parece-me estar a seguir pelo mesmo caminho que a levou a criar este post.
    Eu costumo dizer que o português não é melhor nem pior. É diferente.

  5. “Se abordo aqui no Delito assuntos feministas (os comentários à minha publicação Upskirting foram bem elucidativos), sou atacada sem dó, nem piedade. Falando-se de muçulmanos, surgem indignações sem limites, defendendo-se os direitos da mulher com unhas e dentes.”

    Se não percebe a diferença entre o Privilégio que o Feminismo quer e manda e o tratar a mulher com direito a ser uma pessoa independente que boa parte dos Muçulmanos não quer, não há nada a fazer.

    lucklucky
    ´

  6. Nicht mehr. keine gnade.Eine guter schlag Ist nur gut fur die gesundheit. Ich bin solidarisch mit dir.

    Acabei de retroverter no google porque não sei alemão

    Cumprimentos
    J M

    1. Ficou um pouco enigmático (a culpa não é sua, é do tradutor e da língua alemã, esse quebra-cabeças), mas entendi que está solidário (ou solidária), o mais importante, e agradeço.

  7. Não querendo ofender, mas parece-me que a senhora não é propriamente a emigrante que saiu de Portugal com uma mão à frente e outra atrás, com o futuro incerto e sem saber se arranja trabalho ou não e acaba a dormir durante 3 ou 4 meses na sala de um familiar.
    Quero com isto dizer que os emigrantes são diferentes de país para país sim senhor. E são diferentes até aqueles que vão do próprio país.

    1. Não vejo qual a importância do tipo de emigrante que sou. Tenho a experiência do outro lado, das viagens e dei aulas a crianças portuguesas em Hamburgo, ou seja, entrei em contacto com muita gente e com muitas histórias de vida. Também conheço bastante bem a região transmontana e as motivações dos transmontanos que emigram.

      Claro que os emigrantes são diferentes. Não me parece é haver razão para dizer que os portugueses são melhores do que os outros.

      1. Não são melhores nem piores. São diferentes. No entanto, qualquer cidadão de qualquer país, tem legitimidade para afirmar que prefere aqueles de determinado país, do que outros, de outro país. E isso acontece frequentemente, basta falarmos com cidadãos franceses, alemães, holandeses, ou italianos.
        Recentemente na Suíça disseram-me que tinham muito boa imagem do emigrante português. Um indivíduo trabalhador, cumpridor e que não melindrava ninguém. Por outro lado disseram-me que o emigrante italiano era um pesadelo. Barulhento, pouco dado a cumprir as regras e as normas de cidadania… ou seja, são pessoas muito mais alegres que os suíços… o que não será difícil.
        E já agora, permita-me alongar sobre outro país. Espanha. O espanhol da Catalunha chama de estrangeiro o espanhol da Galiza. O espanhol do País Basco, trata por estrangeiro o espanhol da Andaluzia. É absurdo, mas é um facto. E muito espanhol acha que o próprio espanhol trata mais corretamente o emigrante de outro país, do que o espanhol que sai da sua região autónoma, para trabalhar noutra, dentro da própria Espanha.
        Por isso, melhor ou pior, eu tenho muito orgulho no emigrante português. Até hoje nunca ouvi uma crítica.

  8. Curto e grosso? A Cristina Torrão está a abordar, de forma algo elíptica, o ambiente abjecto dos comentários de blog. Francamente, o local mais infrequentável que encontro desde há muitos anos, gente boçal, ignorante e ressabiada.

    1. Espelho meu espelho meu … la la la … la la la … la la la …
      Um ser superior é superior por ser superior, não por ser igual ou indiferente, e tem de o demonstrar por actos, comportamentos a palavras.
      Se fores lutar com um porco no quinteiro do porco, vais ficar porco como o porco. Mas se trouxeres o porco, com bons modos, para o espaço limpo e esclarecido, ele vai aceitar, e até talvez começar a gostar menos do quinteiro.
      Toda a gente gosta de saber mais, e de aprender com quem sabe mais por saber mais, não por dizer que sabe mais, mas por dizer o que sabe mais.

      1. Aplaudo. De facto há gente, gente não, seres humanos superiores, que deviam ter um blog só deles. Assim podiam escrever o que eles acham que é de qualidade e evitar que a gentalha ignorante, que são todos menos ele, viessem estragar os seus pensamentos cheios de categoria.
        Se a arrogância e a altivez fosse música, este snob era uma orquestra.

  9. não sou de opinião de que os emigrantes/imigrantes portugueses sejam melhores do que os outros

    Recentemente, uma luso-francesa disse-me que os portugueses têm extremamente boa fama em França por serem a segunda comunidade estrangeira em que há mais gente rica (a primeira são os judeus), e que por isso são muito respeitados pelos franceses.

    Há algumas dezenas de anos, quando estive algum tempo em França e sintonizei estações radiofónicas portuguesas lá, espantei-me com o seu deplorável nível cultural, do mais atrasado e provinciano que podia haver – muito pior do que as estações radiofónicas do Portugal dessa época. Comentei o facto com uma amiga francesa, que me confirmou, sim, que a comunidade portuguesa em França tinha um nível cultural do piorio, muito pior, disse ela, que os magrebinos, que tinham a mente bem mais desempoeirada e atualizada que os portugueses.

  10. em todo o lado, e oriundas dos mais variados países, há pessoas boas e más, pessoas trabalhadoras e preguiçosas, pessoas honestas e vigaristas.

    Uma ideia velha que não quer dizer nada — uma vez que é na supremacia do conjunto que reside o problema. Já alguma vez viu uma manifestação de muçulmanos contra o terrorismo — como vê manifestações orquestradas pelas esquerdas contra o seu próprio modo de vida? Isto quer dizer que, à semelhança do que ocorre nos países deles onde os “bons” são subjugados pelos “maus” (os moderados são dominados pelos radicais), quando eles forem a maioria cá, os maus vão subjugar os bons, e os bons vão estar calados. Aliás, é bem mais complexo do que isto — isto é a versão para totós.

    Eu cá não tenho problema nenhum em afirmar que o modo de vida dos muçulmanos é uma ameaça à nossa maneira de estar e quando puderem dominar vão fazê-lo — e chamem a isto o que quiserem. Who fucking cares. Isto é como a biologia: um vírus espalha-se e não quer saber do bem e do mal. Aliás, a história da humanidade é colonização e não foram os europeus os primeiros a fazê-lo, tal como não serão os últimos. Aliás, a Europa está agora a começar a ser colonizada — imbecilmente uns acham que é um castigo merecido, quando afinal de contas os europeus foram os únicos que tentaram acabar com isso. Os outros estão-se a borrifar para esses complexos. Aliás, nem estão, aproveitam-nos. E não pensem que são vontades individuais que se vão juntando aleatoriamente nos países de hospedagem. O individual não existe na cultura deles. E estes movimentos não são espontâneos: são patrocinados por organizações desde a Fundações Aga Khans aos tiranos do médio oriente — como faz o ditador da Turquia que agora tem as chaves da porta Europa. Quem lhe deu a chave?

  11. Comentem o que quiserem, dêem a vossa opinião, exponham as vossas teorias, argumentem. Mas, por favor, não me chamem de ingénua, nem de politicamente correcta e não me acusem de estar a dramatizar. Por duas razões:

    1 – nada disso é verdade.

    2 – desvalorizar a mulher com a qual se discute, ou as suas ideias, é um truque machista antigo e por demais conhecido.

    1. Alínea 2: Cara Cristina — pelo amor das deusas todas da Lusitânia —, se não se pode rebater um argumento seu só porque é mulher e então automaticamente estamos a ser machistas… então não há debate possível. Acho que qualquer argumento pode (e deve!, dizia Karl Popper) ser rebatido. Quem o profere não interessa nada, tal como não interessa nada quem o rebateu ou concordou com ele.

      Fazer isso é a estratégia do messianismo islamita, que apresentam a comunidade em confusão com a sua ideologia —como raça, sem o ser— e, portanto, automaticamente também são vítimas. Exactamente a estratégia dos blacks, que são blacks e então não se pode dizer nada porque são blacks mesmo que estejam a dizer o maior disparate da história e o ser black não ter nada a ver com o problema. Aliás, nunca tem. O problema reside sempre, única e exclusivamente, no comportamento colectivo.

      O não se pode dizer nada é precisamente o pior que o marxismo activo trouxe ao debate filosófico — o valor moral do argumento. O pré-preconceito.

      Assim não dá.

      (a escolha das palavras que utilizei nas quatro belas estrofes que vos deixo em cima não foi por acaso)

      1. Apelidar alguém de ingénuo, ou de ser politicamente correcto, ou acusar de estar a dramatizar não é rebater argumentos. Esse é que é o problema.

        Se eu disser que sou contra o racismo, porque acho que os humanos são todos iguais, e alguém contestar, dizendo que é racista, porque há humanos superiores e inferiores, essa pessoa está a rebater um argumento meu, por mais que a sua opinião me indigne. Se essa pessoa, porém, me disser: “acha que são todos iguais? É tão ingénua e politicamente correcta”, não está a rebater argumentos, mas a fazer juízos de valor. Normalmente, isso acontece, quando a pessoa não tem argumentos.

        1. Apelidar alguém de ingénuo, ou de ser politicamente correcto, ou acusar de estar a dramatizar não é rebater argumentos. Esse é que é o problema.

          Sem dúvida, paternalismos é que não.

          Mas acho que deve ser feita uma distinção entre o “não gostar de estrangeiros” (já de si uma péssima conjunção que é usada apenas para obter vantagens argumentativas — não define nada nem ninguém) e ser-se racista. É completamente diferente. Eu por exemplo acho um problema a imigração em massa de países muçulmanos e não é pelas pessoas (não as acho inferiores ou esquisitas ou seja o que for, aliás estou-me bem a borrifar para mais uns cadáveres adiados como dizia o outro). Agora importar culturas cujos princípios fundadores são a anulação das outras e que não querem viver como se vive nos países de acolhimento já me parece bastante problemático. Acho que isto nem xenofobia é — porque não é o ser-se estrangeiro que está em causa. Aliás, não é a minha dúvida que tem de ser definida em termos de postura cultural: é a prepotência da atitude suprematista desse colectivo de imigrantes que merece uma definição.

          Portanto, eu rejeito liminarmente toda a fraseologia das esquerdas, que está carregada de equívocos, truques e armadilhas. Arranjem outra.

          1. Agora importar culturas cujos princípios fundadores são a anulação das outras e que não querem viver como se vive nos países de acolhimento já me parece bastante problemático.

            Parece haver pouca diferença, mas ela é enorme. A cultura faz vítimas, não há dúvida, mas existem também culturas que só fazem vitimizações.

  12. A hipocrisiazinha faz parte do bouquet de que são feitos os nossos brandos costumes. E depois há o problema, que é universal, do uso de dois pesos e duas medidas no discurso moralista. Nada de novo, portanto…

  13. (Parte 1 de um comentário divido em 2)
    Já por algumas vezes tive a oportunidade de aqui neste blogue manifestar a minha convicção de que a (aquela a que resolvi chamar de) “ala feminina” tem uma abordagem, de longe, muito mais sensível e humana (e, por isso, muito mais inteligente), do que a apresentada, com raríssimas excepções, pelos seus companheiros “machos”.
    Este seu “post”, Cristina Torrão, é um perfeito exemplo disso… e, só por isso (se até não houvesse outras razões), tem a minha solidariedade nesta sua manifestação de (digamos) “rebelião” que, confesso, até nem a vejo como uma novidade em si.
    Um exemplo? Quando apareceu por aqui com o “Always handsome” vi a sua iniciativa como tal… Confesso que sempre achei o “Belles toujours” das coisas mais “pirosas” (para não lhe chamar algo de pior mas mais sério) que alguma vez descobri num blogue. No “Always handsome” descobri um acto de rebeldia, intencional ou não, da sua parte contra a pirosice machista… e que até, para além disso, me permite saborear, confesso que com algum requinte de maldade, o bónus de ver todos os habituais “machos brancos zangados” com o nosso Tempo, que participam e frequentam este blogue, a fazerem de conta que eram desempoeirados, transformando os seus “handsomes”, invariavelmente, apenas em “bons actores” (ou futebolistas, etc, etc)!
    Não pretendo com este comentário dizer que estou sempre de acordo consigo – ainda no início desta semana, tive a oportunidade de discordar consigo (ver, se estiver interessada, um exemplo disso em https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/pensamento-da-semana-11559525) – mas até senti alguma satisfação por V. ter, de algum modo, “descoberto” do que é que lhe falava quando mencionei por lá, os tais “alguns dos habituais iniciados deste blogue” (https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/pensamento-da-semana-11559525?thread=93240677#t93240677)… e lá está, mesmo que alguns deles até insistam em continuar a pretender achar que, apesar deste seu comentário, V. apenas só está a falar de um “excelente actor”!
    (continua)

    1. Também não percebo essa coisa de as mulheres terem o exclusivo da sensibilidade e peculiaridades humanas e os homens serem todos uns machos, rudes e abruptos — que reajem como cro-magnons acabadinhos de chegar da caça. Isto é o exemplo mais acabado de um chavão e daquilo que de facto é a essência do pre-conceito.

      Para mim, aliás, a ideia que as mulheres têm uma psicologia e os homens têm outra é a coisa mais absurda desde que inventaram os gelados com sabor a sardinha (o quê, não inventaram isto ainda? ia jurar…). Conheço mulheres que são autênticos cepos e homens perfeitamente humidificados pelo humanismo mais pingado que existe. Não acredito sequer nessas patetices de guerras dos sexos, feminismos, etc etc.

      Não confundir com violência sobre as mulheres (tal como chantagem psicológica sobre homens e sobre mulheres nos seus empregos, por exemplo) — isso sim existe, mas gostava de ver a composição étnica desses casos uma vez que não acredito que esteja a aumentar estatisticamente entre os portugueses de origem, desculpem lá — a trajectória da cultura autóctone tem sido outra. Se querem analisar as realidades utilizem toda a gama de informação que os dados, que são sempre multifacetados incluem, não procurem verdades absolutas num só um lado do prisma com faz actualmente o jornalismo (bem, o jornalismo nunca foi grande coisa a este respeito, é sempre um conhecimento superficial e algo tabloidista)

  14. (Parte 2 de um comentário divido em 2)
    E não se engane: o que eles escrevem não é apenas “conversa”… é sim, e de modo definitivo, uma atitude!
    É a atitude do “politicamente incorrecto”! É aquela que pode descobrir em alguns dos “posts” por aqui colocados pelos seus companheiros de blogue (quando tentam resumir o “movimento” do “#MeToo” a uma espécie de ideologia fanática apenas culpada de ter criado a injustiça (a única e irreparável no seu universo) de tornar o Woody Allen num proscrito) mas, claro, evidentemente até em muitos mais comentários aqui inscritos pelos que reclamam candidamente que até nada têm contra as mulheres (e entenda-se, por extenso, todos os “outros”), hmmm desde que elas não se ponham até com “mais” exigências («Se não percebe a diferença entre o Privilégio que o Feminismo quer e manda e o tratar a mulher com direito a ser uma pessoa independente»).
    Eu, ao contrário de si, não tenho qualquer problema em me reconhecer no chavão que até, diga-se a bem da verdade, é mais utilizado pelos meus retractores do que por mim, o do “politicamente correcto”! Sim, porque eu defendo, acerrimamente, políticas que visem desmantelar todos os sistemas instituídos de “desigualdades e injustiças» (como o descreveu a Maria João Marques, num artigo no Público, dez dias atrás!). Woody Allen é uma vítima? Talvez… não sei… e confesso que tenho um verdadeiro pavor em me meter em intrigas familiares.

    1. Interessantes palavras.

      Só acrescentaria que quem se esforça por ser politicamente incorrecto está tão condicionado pelas atitudes e afirmações dos outros como quem se esforça por ser correcto.
      Não gosto destes chavões, porque eles não têm a mínima importância na minha maneira de estar e de pensar.

  15. O pior de tudo isto é que o texto tem um erro, que não se admite a nenhum professor: “mais bem aceite” e não “melhor aceite”. De resto, opiniões (como todas e por definição) umbilicais…
    Este comentário não carece de publicação.

    1. Claro que publico o comentário. Tudo o que sirva para um melhor esclarecimento da nossa língua é bem-vindo. E não tenho problema nenhum em admitir que errei, seja no que for.

      O correcto seria realmente “mais bem aceite”. Mas não estou assim em tão má companhia. Um erro destes pode não se admitir num professor, mas é-se obrigado a admitir em escritores como Camões e Camilo:

      ‘«Fulano está melhor preparado do que Beltrano» ou «mais bem preparado»?
      Não é muito fácil dar uma resposta definitiva, porque, neste ponto, a língua está em evolução. Melhor é comparativo de bom; mais bem é comparativo de bem. O lógico, portanto, será dizermos “mais bem preparado”, comparativo de “bem preparado”. Vemos, porém, que Camões escreveu: «O ponto (…) melhor tornado no terreno alheio (…)» (Os Lus., IX, 58).

      Camilo Castelo Branco em O Santo da Montanha, escreveu: «(…) aceitou um almoço melhor adubado que o da ceia (…)». E assim outros grandes escritores.

      Mas vejamos o seguinte: em bem preparado, bem tornado, bem adubado, o advérbio bem faz “corpo” com o particípio passado que se lhe segue. E há casos em que esse «fazer corpo» é tão nítido que se unem graficamente as duas palavras, o advérbio bem e o particípio passado, com o hífen (ou traço de união), como por exemplo em bem-falado, bem-feito, bem-parecido, etc. Note-se que cada uma destas palavras funciona como um qualquer adjectivo, como por exemplo: feio, bonito, belo, comprido, etc. E tal como dizemos mais feio/bonito/belo/comprido, diremos também mais bem preparado, mais bem-fadado, mais bem-feito, mais bem-parecido. O que vem a seguir a mais apresenta-se-nos como um todo significativo, e não como duas palavras diferentes. Eis a razão por que nos soa mais agradavelmente mais bem preparado (advérbio mais+adjectivo) tal como em mais feio (advérbio+adjectivo).’

      in Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/melhor-e-mais-bem/175 [consultado em 30-05-2020]

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