Michael Foot: o fim de uma era


Pedro Correia,

 

Pouca gente já se lembra, mas houve um tempo em que as teses dominantes na cena política do Reino Unido se confundiam com as da esquerda radical. Basta recuar à década de 80. Pensei nisso há dias, ao ler o longo – e excelente – obituário que o Times londrino dedicou a Michael Foot, falecido dia 3, aos 96 anos.

Foot foi um nome de primeiro plano do trabalhismo britânico durante quatro décadas, chegando a líder do Labour em 1980, no rescaldo da copiosa derrota do primeiro-ministro James Callaghan nas legislativas que marcaram a ascensão ao poder de Margaret Thatcher. Manteve-se 31 meses nestas funções – o prazo suficiente para protagonizar nova derrota eleitoral depois de propor aos eleitores brîtânicos um programa quase decalcado da extrema-esquerda. Nas legislativas de 1983, Foot apresentou-se aos eleitores com uma ampla proposta de nacionalizações na indústria (François Mitterrand, que fizera o mesmo dois anos antes em França, estava nessa época já pronto a abandoná-la), a promessa do desmantelamento unilateral do arsenal atómico britânico – algo notável, em plena Guerra Fria, com as ogivas atómicas do Kremlin apontadas ao Ocidente – e a garantia de que retiraria o Reino Unido da Comunidade Económica Europeia.

Foi estrondosamente derrotado por Thatcher e abandonou de imediato a liderança do partido. Mas durante alguns anos as suas propostas continuaram a seduzir parte da classe política e jornalística britânica, mobilizando legiões de intelectuais que desciam às ruas entoando o slogan "Antes vermelhos que mortos", que presumia uma rendição incondicional às teses soviéticas na própria recta final do regime comunista em Moscovo.

No fundo, Foot era um desses intelectuais: foi jornalista, crítico literário, um bibliófilo reputado e celebrado autor de uma biografia de H. G. Wells, ícone histórico da esquerda britânica. E um homem probo, além de orador inspirado, ao que rezam as crónicas. Mas a sua oratória anti-liberal, que atroava as vetustas paredes da Câmara dos Comuns, estava já fora de sintonia com um mundo que caminhava a passos largos para a globalização – o mundo da Apple e do Google, longe do equilíbrio de terror proporcionado por meio século de corrida ao armamento atómico.

A radicalização à esquerda proporcionou, ainda nos anos 80, uma grave cisão no Partido Trabalhista: dirigentes da era Callaghan, como David Owen, Roy Jenkins e Shirley Williams, romperam com Foot, fundando o Partido Social-Democrata, que em aliança com os Liberais quase ultrapassou o Labour no escrutínio de 1983. Já nos anos 90, surgiu a reacção interna centrista, encabeçada por Tony Blair e o seu New Labour.

A morte política de Michael Foot consumou-se aí. Praticamente sem herdeiros ideológicos num mundo totalmente diferente daquele em que nasceu para a política, viveria ainda o tempo suficiente para verificar até que ponto as receitas que propunha há quase três décadas estavam erradas no tempo e no espaço concreto em que as defendeu.

14 comentários em “Michael Foot: o fim de uma era”

  1. Muito interessante, compadre. Eu já quase não me lembraria do ultrapassado Michael Foot, que fez correr tanta tinta. Foot parece já uma figura do passado distante. Dir-se-ia que o mundo deixou de rodar como era normal e passou a girar freneticamente nesta geração mais recente.

    1. Michael Foot, década e meia antes, era uma espécie de anti-Tony Blair. Enquanto este conduziu o Partido Trabalhista ao centro, garantindo-lhe mais de uma década de poder, Foot arrastou-o para as franjas da esquerda mais radical, dividindo o partido ao meio sem ganhar uma eleição. Margaret Thatcher esmagou-o. Um quarto de século depois, os pontos principais do programa eleitoral dele são de um anacronismo impressionante. Era um intelectual respeitável e senhor de uma vasta cultura. Mas os intelectuais, que perseguem modelos perfeitos, fracassam quase sempre quando mergulham na política, que é a arte do possível.

  2. Só uma pequena nota para acrescentar que o Programa de Governo que Michael Foot apresentou em 1983, era de tal forma radical à esquerda que ficou conhecido como “the longest suicide note in history”.

  3. O meu contacto mais próximo com Michael Foot foi em 1986, quando vivi no Reino Unido. Devo confessar que naquela altura (e não mudei muito a minha opinião) o achei “demasiado intelectual” (espero que a seja dada uma interpretação correcta ao que escrevi entre aspas). Já o seu texto, acho-o muito bom.

    1. Obrigado, Mike. Foot era, de facto, um intelectual. Mas como tantas vezes acontece com os intelectuais, não se deu nada bem com o protagonismo político. Tinha uma concepção abstracta do mundo, da geopolítica e da ‘modernidade’ que em nada se coadunava com a realidade.

  4. Essa do ”Antes vermelhos que mortos” daria uma tese, é que tenho impressão que quanto mais vermelhos mais hipóteses teriam de ser mortos, se a sovietização do partido trabalhista, coisa que me parece impossível, se desse.

    1. Muitos intelectuais e muitos políticos, na altura, proclamaram esse ‘slogan’, Lili. Queriam marchar alegremente para a tutela soviética, de modo a garantir a “paz” perpétua e universal. Isto numa altura em que a URSS estava prestes a implodir.
      Não viam um palmo à frente do nariz.

      1. “paz” perpétua e universal.” Isto numa altura em que a União Soviética tinha invadido o Afeganistão e que os americanos, sem o saber, estavam a alimentar um monstro que lhes cairia em cima, literalmente, no início do milénio, já tão próximo.

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