– Nós tivemos cá o FMI em 83 porque a AD deixou o país na bancarrota.
– Como? Desculpe, mas quem é que estava a chefiar o Governo quando o FMI veio para Portugal?
– Era o Dr. Mário Soares, num governo de coligação PS-PSD em que, já agora deixe-me recordar-lhe, o vice-primeiro-ministro era o Dr. Mota Pinto e o ministro das Finanças o Dr. Ernâni Lopes. O governo tinha acabado de ser empossado quando o FMI veio. Quando foi eleito, já se sabia que o FMI vinha para cá.
– Então está a querer dizer que os dois anos de governo AD é que puseram o país na bancarrota?
– Dois, não. Quase quatro.
– Quase quatro?
– Sim, sim.
Diálogo (cito de cor) entre Alfredo Barroso e José Eduardo Martins, interrompido nesta fase da argumentação por Mário Crespo. Foi há pouco, no Jornal das Nove da SIC Notícias.

Memories
May be beautiful and yet
What’s too painful to remember
We simply choose to forget
So it’s the laughter we will remember
whenever we remember
the way we were.
A conversa deles inspirou-me o tíulo que por sua vez invocou a música, que eu adoro. Mas agora fizeste-me sentir que a estraguei ao colá-la a esta cena, tão lamentável.
É a isso que leva a total ausência de vergonha na cara.
Falta de vergonha, pois.
A prova de ignorância e petulância dada por José Eduardo Martins, apesar dos seus 41 anos, é bem a prova da massa de que é feita esta gente. Lamentável.
O que mais me chateia, Sérgio é que esta forma de argumentação, feita de má fé, a contar com eventuais falhas de memória do interlocutor e da audiência, é um padrão. Reflecte a cultura política que produziu as elites que nos levaram até aqui e ao que parece, apesar da crise, é para continuar. Nunca ninguém assume responsabilidades, a culpa é do outro ou, em alternativa, dos mercados, do Euro, dos Estados Unidos, do futebol, da meteorologia, do Papa, sei lá.O outro tem mil caras.
Não assisti ao debate entre Alfredo Barroso e José Eduardo Martins, porque por uma questão de higiene mental, recuso-me a ouvir os disparates que esse sobrinho de Mario Soares que nunca trabalhou na vida, costuma debitar quando lhe dão oportunidade para isso.
No entanto é verdade que quando o FMI veio para Portugal em 83, a AD tinha estado no governo desde janeiro de 1980 até junho de 1983.
Não querendo arranjar qualquer tipo de desculpas para a eventual má governação da direita, convem não esquecer dois pormenores importantes: 1º entre janeiro de 81, e junho de 83, o 1º ministro foi Pinto Balsemão, que apesar da qualidade dos ministros que elencaram o 7º e 8º governos, ficou bem patente que Balsemão não nasceu para o oficio de 1º ministro.
2º Nessa epoca ocorreu o terceiro choque petrolifero, que arrasou as generalidade das economias europeias, e por maioria de razão a nossa ainda mal refeita dos desmandos do prec. Para além disso convem tambem recordar que a economia portuguesa, banca incluida, estava praticamente toda nacionalisada, o que lhe retirava flexibilidade e capacidade de responder aos desafios que se punham na epoca.
Sá Carneiro enquanto 1º ministro, tentou um acordo com o PS para fazer a celebre “Delimitação dos sectores publico e privado”, de modo a ser possivel privatizar parte da economia, e faze-la sair do marasmo em que se encontrava, acordo que os socialistas sempre recusaram, impedindo assim Portugal de corrigir mais cedo os desmandos do prec, com consequencias que ainda hoje estamos a pagar. Mas esses pormenores provavelmente Alfredo Barroso esqueceu-se de referir.