Lembro-me de ser noite e de sair com o meu pai da Ordem da Trindade, onde a minha mãe estava internada. Passavam muitos carros a apitar, em direcção à Avenida dos Aliados, com pessoas a berrar, entusiasmadas, com bandeiras do Partido Comunista. Festejavam a morte de Sá Carneiro, umas horas antes, em Camarate. Alguns desses democratas ainda devem andar por aí a chorar baba e ranho pela morte do Fidel.
Memória de 4 de Dezembro
Rui Rocha,

Rui, penso que esses ainda não tinham ouvido Sá Carneiro, como se segue:
A democracia económica postula a intervenção de todos na determinação dos modos e dos objectivos de produção, o predomínio do interesse público sobre os interesses privados, a intervenção do Estado na vida económica e a propriedade colectiva de determinados sectores produtivos; pressupõe ainda a intervenção dos trabalhadores na gestão das unidades de produção. A democracia social impõe que sejam assegurados efectivamente os direitos fundamentais de todos à saúde, à habitação, ao bem-estar e à segurança social; exige a abolição das distinções entre classes sociais diversas e a redistribuição dos rendimentos, pela utilização de uma fiscalidade justa e progressiva.
Sá Carneiro sobre o capitalismo e a tecnocracia, “o poder é pertença de minorias compostas pelos detentores do grande capital e por membros da tecno-estrutura”
Sá Carneiro assumia-se como social-democrata. Creio que o que transcreve não traz grande novidade, concorde-se ou não. Mas era isso mesmo: social e democrata. Dos comunistas não se pode dizer o mesmo.
Sempre excelente. Agora já percebo melhor a sua veia de escrita. É do Porto. Parabens, não é que isso faça diferença, mas ajuda muito a clarear ideias.
Não propriamente do Porto. Mas estudei, vivi e trabalho lá, Cristof.
Tem razão, Rui: também me lembro dessas manifestações de regozijo pela morte de Sá Carneiro, por parte de apaniguados do PCP, Partido que ele combateu lealmente.
Uma atitude lamentável e que define quem a praticou, TA.
Também vi na televisão grandes festejos em Miami pela morte de Fidel Castro.
Acho sempre muito feio festejar a morte de alguém. Pode não se lamentar essa morte, mas festejá-la é repugnante.
Isso mesmo.
Lembro-me dos foguetes que ecoaram logo após o anúncio do acidente nas terras do Seixal…
Diremos que eram outros tempos, mas lendo a hagiografia de Fidel compreendo que o PcP ficou cristalizado no tempo.