Medina Carreira :«Nunca fui corrompido»


Pedro Correia,

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«Este país vive sempre no curto prazo, em função do trimestre anterior e do trimestre que há-de vir»

 

Bem ao seu jeito, Henrique Medina Carreira respondeu assim, quando lhe perguntei qual era o seu maior sonho: «Era ver isto governado por gente honesta e competente. Se não mudarmos, Portugal caminha rapidamente para um desastre financeiro e social de proporções históricas.» Numa entrevista telefónica que lhe fiz 18 meses antes da chegada da troika. Quem o conheceu, reencontra o seu tom aqui, do princípio ao fim. Infelizmente, o ministro das Finanças do I Governo Constitucional já não está connosco: faleceu a 3 de Julho de 2017.

 

Tem medo de quê?

Quase toda a gente tem medo de morrer. Eu não. Mas tenho medo da forma como se morre, do sofrimento. Fora isso, não tenho medo nenhum. Sou uma pessoa de vida limpa: nunca enganei ninguém, nunca fui corrompido.

Gostaria de viver num hotel?

De jeito nenhum. Gosto de viver em sossego.

A sua bebida preferida?

Água.

Tem alguma pedra no sapato?

Não. Houve quem me fizesse umas patifarias, mas isso não chega para alterar o meu humor.

Que número calça?

43.

Que livro anda a ler?

Ando sempre a ler vários livros. Neste momento estou a ler com muito interesse um do Vasco Pulido Valente sobre a política nos séculos XIX e XX. Ando a ler também com muito interesse outro livro, da Fátima Bonifácio, sobre o liberalismo.

História é um tema que lhe interessa?

É. Não conseguimos perceber bem o presente nem encontrar soluções para o futuro sem conhecermos o passado. Este país vive sempre no curto prazo, em função do trimestre anterior e do trimestre que há-de vir.

Tem muitos livros à cabeceira?

Na cabeceira só tenho canetas e uma telefonia. Mas tenho livros a toda a volta. Vivo rodeado de livros, desordenadamente e em pilhas. Quando quero um lá consigo encontrá-lo.

A sua personagem de ficção favorita?

As do Eça, sobretudo d’ Os Maias e d’ A Relíquia.

Falta-nos hoje um Eça?

Não sei se um Eça hoje bastaria.

Rir é o melhor remédio?

Tenho um ar desagraçadamente sisudo, mas gosto imenso de dar umas gargalhadas. Quando estou com pessoas de que gosto costumo rir-me perdidamente.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Choro com frequência, até com notícias da televisão. É uma fragilidade minha.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzido?

Gosto muito de conduzir, mas conduzo muito pouco porque há cada vez menos espaço para estacionar.

É bom transgredir os limites?

Depende. Quando são os outros que estão em jogo, não devemos transgredir.

Qual é o seu prato favorito?

Gosto muito de sardinhas assadas, de bacalhau. No fundo, gosto daquilo de que os portugueses gostam.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

Acho que não pratico nenhum. Não tenho a consciência pesada.

A sua cor favorita?

Encarnado. Sou benfiquista.

Costuma cantar no duche?

Não. Ficaria assustado comigo mesmo.

E a música da sua vida?

Sei pouco de nomes de músicas. Mas há uma que me fascina: o Adagio, de Albinoni.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Gosto muito do hino. Refiro-me sobretudo à música, pois reconheço que a letra é um pouco caricata. Mas todas as letras dos hinos são caricatas: basta ouvir as do Benfica ou do Sporting.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Com Mário Soares [falecido em Janeiro de 2017]. Trabalhei com ele e hoje estou em desacordo com ele em quase tudo. Mas é uma pessoa fascinante.

As aparências iludem?

Sou uma pessoa de boa fé. Costumo até dizer que qualquer um é capaz de me vender um carro eléctrico mas ninguém me vende segunda vez um carro eléctrico. Quando me enganam, é definitivo. Na política portuguesa existem aldrabões a mais. Aqueles que me enganam vão para o arquivo…

O que é que um verdadeiro cavalheiro nunca faz?

Desrespeitar os fracos, os idosos, as senhoras. Ainda sou do tempo de dar a direita a uma senhora.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Aquilo que trago agora: uma camisa ligeira e umas calças de ganga. Detesto casaco.

Qual é o seu maior sonho?

O meu maior sonho era ver isto governado por gente honesta e competente. Se não mudarmos, Portugal caminha rapidamente para um desastre financeiro e social de proporções históricas.

E o maior pesadelo?

Tenho um pesadelo frequente: acordo a meio da noite, num local estranho, que não sei qual é.

O que o irrita profundamente?

A aldrabice. Acho-a particularmente detestável.

Qual a melhor forma de relaxar?

Andar. Ler. Passear sem rumo e sem preocupações.

O que faria se fosse milionário?

É coisa a que não aspiro pois não saberia o que fazer.

Casamentos homossexuais: de acordo?

Não. Casamento é uma figura histórica que assenta na ideia de desigualdade sexual. Mas a regulação jurídica de uma relação entre iguais é algo que defendo há muito.

Uma mulher bonita?

Teresa Gouveia. Tem uma beleza serena, ponderada, reflectida, respeitadora.

Acredita no paraíso?

Não. A gente vive aqui e depois vamos todos para o mesmo sítio.

Tem um lema?

Fui educado sob o lema dos Pupilos do Exército: Querer é poder. Ao longo da minha vida tenho sido muito o produto da aplicação deste lema.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (22 de Agosto de 2009)

18 comentários em “Medina Carreira :«Nunca fui corrompido»”

  1. Quando o ouvia falar lembrava-me sempre daquela série dos marretas. Raramente dizia bem fosse do que fosse. Era capaz de não ser má pessoa mas a imagem que me transmitia era de amargura ou de algum conflito não sanado do passado.

  2. Não é para comentar, é só para dar os parabéns pelo “NOVO” projecto
    É preciso mais jornais “fora da bolha”

  3. “É bom transgredir os limites?
    (…).Quando são os outros que estão em jogo, não devemos transgredir.”

    Bom.

  4. Carlos Sousa, com quem desde a pandemia até ao caso Sócrates passando por tudo entretanto, não me lembro de alguma vez concordar, diz que Medina Carreira lhe parecia amargurado. A mim pareceu-me revoltado.
    No seguimento do pai que deverá ter passado boa parte da vida a rebuscar arquivos e é incontornável para documentar a história de Cabo Verde, também ele consultava infatigavelmente dados estatísticos e relatórios para poder analisar e entender o momento económico.
    Se estava amargurado, seria apenas na medida em que a economia estava já nas ruas da amargura. Estava sim revoltado com a incompetência e a falta de preparação dos responsáveis pela governação.
    O futuro deu-lhe razão mas o que fôra o seu partido – não sei se ainda o era quando faleceu – ignorou-o consistentemente. Nisso encontrou-lhe semelhanças com Henrique Neto.

  5. Escrevia Madina Carreira hà 15 anos ! (in Expresso 12/10/2006): { Não nos iludamos porque estamos numa situação em que vigora a „tirania das circunstâncias“: é secundário se se é de direita ou de esquerda, liberal ou conservador, representante da economia de .mercado ou do socialismo. O mais grave problema que enfrentamos hoje é o do Estado: não se sustenta com a economia que temos e outra é irrealizável em tempo útil. Resta repensá-lo }.
    Como estamos hoje? sem Homens como Medina Carreira, não vamos lá. Fica-nos a memória de um Homem Bom
    Pedro Almeida

  6. Medina era o tipo do homem comum que quando alertava já tudo estava a acontecer. Nem sempre concordei com ele, na medida em que ele preconizava soluções baseadas na prevenção de catástrofes económicas que já se encontravam em curso.
    Portanto, uma coisa seria evitá-las e outra será reagir quando elas estão pela frente. Assim, tal como os demais, não creio que tenha oferecido novidade, mas lamentos.

    Há um homem que apresentou soluções resolutivas mas desconfortáveis para os agiotas, esse chama-se Varoufakis.

  7. Sou fã do Medina Carreira. Faz falta uma pessoa com a lucidez (e a piada) dele. Eu era assídua espectadora do Plano Inclinado, com o Mário Crespo. E depois também do outro programa com a Judite de Sousa.
    Quanto à entrevista, adorei a palavra telefonia, que hoje raramente se ouve.
    E ainda, sobre o que mais o irrita: “A aldrabice. Acho-a particularmente detestável.”
    Eu assinaria por baixo. Muito bom.

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