Médicos com fronteiras


Teresa Ribeiro,

A incomodidade que sempre experimentei na minha relação com os médicos vem da consciência da profunda desigualdade que a caracteriza. Consultá-los é conceder-lhes, ainda que só por alguns momentos, um poder desmedido sobre mim. Afinal são estranhos e no entanto podem fazer-me perguntas sobre a minha intimidade, devassar o meu corpo e no limite decidir retalhá-lo. Bem sei que há uma base ética e científica que lhes confere toda a legitimidade, mas agora o que me interessa é falar de respostas emocionais e não justificar as suas funções.

 A verdade é que em certa medida a relação com um médico é sempre uma violência, caucionada pelas memórias dramáticas dos xaropes de gosto horrível, das picas e dos detestáveis supositórios da infância. Se a consciência da sua vulnerabilidade está presente em cada paciente, também os médicos vivenciam a experiência inversa. Quando se fala de ética médica é, entre outros aspectos, da capacidade de liderar correctamente esta relação, tão delicada, que se fala. 

Do ponto de vista antropológico os médicos são os legítimos sucessores dos feiticeiros tribais, que detinham, mais do que os próprios reis, o poder da vida e da morte. Daí os atavismos: a deferência, as garrafinhas de Porto e as caixinhas de ovos moles, o senhor doutor para aqui, senhor doutor para ali. Nenhum outro licenciado é tão doutor. Nem mesmo os que são (realmente) doutorados em outras áreas do conhecimento podem aspirar a ser destituídos de nome e apelido e identificados unicamente pelo título.

Mas tanto poder faz mal à saúde. Deles e nossa. Há uns anos, ao recolher informação para uma reportagem sobre negligência médica descobri que os registos de queixas dessa natureza eram praticamente inexistentes. Sinal extraordinário de competência? A Ordem dos Médicos quis fazer-me crer que sim, mas a realidade era outra. Tratava-se de uma questão de cultura que não previa o escrutínio da classe. Hoje a realidade começa a ser diferente. E isto, para mim, é neste contexto uma boa notícia.

23 comentários em “Médicos com fronteiras”

  1. Ainda bem que as coisas mudam(neste caso positivamente) Teresa. Eu tenho uma alergia crónica aos médicos 🙂 Mas devido á asma que resolveu aparecer na minha vida, lá tenho que ir ao pneomologista de vez em quando,mas tenho a sorte de ter um excelente médico, e não é preciso dar prendinhas, nem pequenos(ou grandes) subornos para ser tratada e cuidada como todas as pessoas deveriam ser..já o médico de família…é outra historia que dava” pano para mangas”;)

  2. O seu post leva-me a fazer um comentário necessariamente breve. Penso que os seus 2 primeiros parágrafos sugerem uma experiência pessoal traumática, geradora de uma atitude de desconfiança pouco aconselhável quando se pretende abordar com seriedade uma questão desta natureza. A forma como relata o seu conhecimento inicial do(s)médico(s) é mais próxima da descrição de uma intromissão de alguém na sua vida, para a perturbar, do que da sua procura de ajuda junto de alguém capacitado para lhe resolver um problema. Isso poderia explicar alguma coisa mas, como você escreve, o que (lhe) interessa é falar de respostas emocionais. Ora, do meu ponto de vista, essa é justamente a forma mais arriscada de se falar destas questões. Abordar uma questão tão complexa e que envolve aspectos tão diversos, desde os medos e a fragilidade que todos temos quando nos sentimos doentes, até à esperança quase ilimitada que muitas vezes necessitamos colocar nos ombros e no rosto de alguém para nos resolver problemas frequentemente insolúveis, tudo isto carece de uma análise que, podendo ter uma componente emocional, deve ser despida de juizos ou estados subjectivos prévios que a condicionem.
    O seu post faz o fácil: divide o mundo em “bons” e “maus”. Isso é péssimo.
    Cumprimentos

    1. Não me leve a mal, Paulo, mas só me faltava que este ‘post’ desse em consulta psicológica. A descrição aqui trazida ilustra perfeitamente o que a autora quis dizer e serve o objectivo que ela expõe.
      Não vale a pena dramatizar mais. Repito: não me leve a mal, que isto foi só para o ambiente ficar menos pesado.
      Apareça sempre.

      1. João Carvalho, claro que não tenho de levar a mal a sua observação. Eu é que não me tinha apercebido que o ambiente estava a ficar pesado.
        Cumprimentos e divirtam-se, então.

        1. Na verdade, a extensão daquele seu comentário merecia uma observação. Foi o que me saiu, para que não se sentisse ignorado. Mas fiquei curioso, Paulo: sempre é psicanalista?

    2. Nada de traumas, Paulo. felizmente. Tal como digo no post. as memórias de infância e a consciência da minha vulnerabilidade na relação necessariamente desigual entre médico e doente terão bastado para as minhas reservas. Claro que as muitas histórias que fui conhecendo de más práticas médicas só podem ter desenvolvido a minha consciência crítica relativamente a estas questões. E é claro que há bons e maus, Paulo. No caso muito específico dos médicos, os maus podem, no limite, matar. Por isso é bom que comecem a ser escrutinados, sim.

  3. Ainda bem que a realidade começa a ser diferente mas às vezes receio que se caia no exagero como em todas as profissões que estão sob escrutínio directo e que se passe da responsabilização à perseguição. Contudo urgia que fossem mais responsabilizados pelo que fazem. É inadmissível o caso destes dias, da grávida que foi três vezes ao hospital e só à terceira lhe foi diagnosticada Gripe A. Teve de fazer uma cesariana e, há horas, ainda estava em estado crítico. Não percebo como isto acontece.

    Quanto aos médicos (ainda), o que mais me enfurece e me faz adiar consultas é a espera, meu Deus, a espera… Nenhum dos meus é pontual e este não ser pontual implica no mínimo dos mínimos duas horas de espera e muito despero da minha parte.

  4. Sou filha de médicos, a minha visão desse universo é necessariamente diferente. Fui uma priviliegiada nesse aspecto: “ir ao médico” era, quase sempre, estar com alguém que já conhecia e era amigo dos meus pais. Mesmo assim, percebo muito bem todas essas aversões infantis, que eu também tive. O maldito óleo de fígado de bacalhau era mesmo intragável, e só o Iodarsolo (um tónico, acho que era assim que se chamava) nos compensava, porque sabia a vinho do Porto e era óptimo.

    Quanto à inimputabilidade dos médicos, infelizmente é bem conhecida e explica-se pelo facto de esta ser a única classe profissional realmente unida e corporativa em Portugal. Acho muito bem que tudo isso esteja a mudar. Mas a Leonor tem razão: se cairmos no extremo oposto é igualmente mau e os médicos acabam por defender-se tanto que não fazem nada com medo das consequências.

    1. É verdade, Ana. Os médicos podem até individualmente ter as suas rivalidades, mas como classe são extremamente unidos. Um exemplo para todas as outras classes profissionais, a começar pela dos jornalistas…

  5. O que vejo e o que sinto quando vou ao médico, é que muitos deles tiveram, realmente, média para entrar no curso, mas a vocação é nula. Não existe, na grande maioria desta classe profissional, qualquer sensibilidade para lidar com os seus paciente. Não digo isto com o intuito de os ofender, existem excelentes profissionais e conheço bastantes. Infelizmente, são muitos os péssimos profissionais e, infelizmente, já tive demasiadas experiências negativas.
    Recentemente, numa das raras vezes que me desloco ao consultório da minha médica, senti-me verdadeiramente injustiçada e maltratada e quis relatar a situação no bem-dito livro de reclamações, que os portugueses tanto temem usar.
    Fui desencorajada de o fazer por todas as pessoas que me rodeiam, incluindo as funcionárias do posto médico que me disseram o seguinte, em tom ameaçador:”Se fizer a reclamação, terá problemas com a médica.”
    Acho que isto responde à sua questão sobre a falta de queixas…

    1. Pois, Helena. Mas quando se tornar mais “normal” usar o livro de reclamações nessa e já agora noutras situações bem diferentes, todos teremos ganho alguma coisa.

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