Segundo notícia do Público, os tradutores do novo livro de Dan Brown, Inferno, estiveram essencialmente encarcerados numa cave durante dois meses a traduzir a obra. A explicação é a tradicional: a pirataria. «Estamos numa época de pirataria e em que os editores querem vender livros» foi a epifânia pessoal que Brown nos transmitiu. Sem querer entrar (ainda) na questão da qualidade, a verdade é que o livro estava provavelmente disponível para download à borla cerca de 30 segundos após ser colocado à venda. A sinopse do livro na Wikipédia ficou completa pela primeira vez às 22:07 do dia 15 de Maio, dia seguinte ao lançamento. Qualquer história sobre sigilo e protecção contra pirataria não é mais que treta. Ou, noutra palavra, marketing.
Por outro lado fiquei impressionado com a passagem relativa aos comentários da tradutora francesa:
Carole Del Porte, tradutora francesa do livro, disse à revista italiana Sorrisi e Canzoni em Abril, depois de terminada esta operação, que aqueles dias lhe permitiram mergulhar completamente no trabalho de Dan Brown. “Foi uma experiência única e fantástica. Não tinha nada com que me preocupar e pude concentrar-me no meu objectivo: conseguir a melhor tradução possível para os leitores”, disse.
Ou seja, não só parece que gostou de ter ficado presa, também parece ter gostado do livro. Cá para mim, aquilo que lhe fizeram foi lavagem ao cérebro. Ou pagaram-lhe uma batelada para participar desta operação de marketing. Quanto à qualidade, só lendo, mas vendo pelos anteriores, o título pode muito bem referir-se à experiência de quem leia o livro.

Por onde a Wikileaks quando se precisa dela?
Quanto à qualidade de Brown, um excerto de um artigo da The New Yorker, por alturas do lançamento do filme
Quanto à qualidade de Brown, um excerto de um artigo da The New Yorker, por alturas do lançamento do filme <iO Código Da Vinci</i>:
There has been much debate over Dan Brown’s novel ever since it was published, in 2003, but no question has been more contentious than this: if a person of sound mind begins reading the book at ten o’clock in the morning, at what time will he or she come to the realization that it is unmitigated junk? The answer, in my case, was 10:00.03, shortly after I read the opening sentence: “Renowned curator Jacques Saunière staggered through the vaulted archway of the museum’s Grand Gallery.” With that one word, “renowned,” Brown proves that he hails from the school of elbow-joggers—nervy, worrisome authors who can’t stop shoving us along with jabs of information and opinion that we don’t yet require. (Buried far below this tic is an author’s fear that his command of basic, unadorned English will not do the job; in the case of Brown, he’s right.) You could dismiss that first stumble as a blip, but consider this, discovered on a random skim through the book: “Prominent New York editor Jonas Faukman tugged nervously at his goatee.” What is more, he does so over “a half-eaten power lunch,” one of the saddest phrases I have ever heard.
http://www.newyorker.com/archive/2006/05/29/060529crci_cinema
/suspiro
Eu e o html…
html: há tretas muito lixadas
Já o conhecia. As críticas de cinema do Anthony Lane são verdadeiros tratados. Concorde-se ou não com a opinião, lê-lo é sempre um prazer.
A escrita é contudo apenas um dos problemas. Como o José Mário Silva comentou por altura da sua crítica ao livro anterios (nem me lembro do título), se não tivermos expectativas muito altas em relação à escrita, podemos tentar deixar-nos levar pelo ritmo da história. O chato é que se funciona num primeiro livro, a repetição ad nauseum da mesma fórmula e o uso de pseudo-ciência, pseudo-história e pseudo-seja-lá-o-que-for que ele tenha digerido nos meses anteriores acabam por se tornar insuportáveis.
Creio que um dia Dan Brown será estudado como exemplo da decadência da civilização ocidental: como pôde uma pessoa que não é capaz de alinhavar duas frases consecutivas com qualidade ser um dos autores mais vendidos do seu tempo? Prevejo paletes de ensaios e teses de doutoramento.
Uma experiência infernal.
Pondo de parte o caso Dan Brown, eu penso que pode ser uma experiência interessante para um escritor/tradutor isolar-se do mundo, durante um certo tempo, a fim de se dedicar a uma obra.
Sem dúvida, mas não a mando de outros. Só o imagino se for voluntariamente e sem guardas.
Lá isso é verdade. Nem sei como foi possível uma coisa dessas…