Mário Soares


Pedro Correia,

 

 

Percorro a pé o jardim do Campo Grande, ao fim da manhã, como tantas vezes gosto de fazer. De súbito, vejo caminhar a curta distância um homem alto, vestido de escuro, cabelos brancos. Tem um andar inconfundível. Digo para mim próprio: é Mário Soares. Aproximo-me dele. Caminha em passo estugado, vem da zona onde tem residência, dirige-se às imediações do metropolitano. Defronte da Biblioteca Nacional, vira para trás, prossegue a marcha em ritmo cadenciado e firme. Cruzo-me então com ele, cumprimento-o: “Como está, senhor Presidente?” Sorri, faz-me um aceno simpático e prossegue a sua marcha. Mais ninguém em redor nesta cidade despovoada num domingo soalheiro. É de algum modo a imagem do suave quotidiano português, nem sempre reflectido nas manchetes dos jornais. E também do próprio ex-Presidente da República, que sempre detestou escolta e segurança pessoal.

Lá o vi a dirigir-se de regresso a casa, provavelmente abrindo o apetite para o almoço. Em excelente forma aos 84 anos. Um cidadão como qualquer de nós. E no entanto já uma personagem com lugar garantido nos livros de História.

 

Quadro: Mário Soares, por Júlio Pomar (Palácio de Belém)

5 comentários em “Mário Soares”

    1. Também eu implico, Daniel. Mas este ‘post’ é apenas sobre a pessoa, não sobre as opiniões de MS. Num país em que todo o cão e todo o gato anda com aparato de segurança, este passeio descontraído e solitário de Mário Soares no jardim do Campo Grande pareceu-me bem. É de um senhor.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *