Mário Soares.


Luís Menezes Leitão,

 

Mário Soares faz hoje 90 anos de uma vida cheia. Nenhumas dúvidas podem existir de que é a personalidade mais marcante do regime surgido a 25 de Abril de 1974, tendo sido decisivo em vários momentos fundadores desse regime, como a implantação da democracia e a adesão à União Europeia. Na política, depois de ter vencido Álvaro Cunhal em 1975 e do falecimento prematuro de Sá Carneiro, apenas teve um único rival: Cavaco Silva. Mário Soares conseguiu mesmo terminar abruptamente com o cavaquismo no fim da sua presidência, mas já não conseguiu impedir a eleição do seu rival dez anos depois, tendo embarcado numa aventura de uma candidatura presidencial disparatada. Curiosamente, no entanto, o apagamento em que Cavaco Silva voluntariamente transformou a presidência fê-lo perder estrondosamente o seu confronto histórico com Mário Soares. Hoje os portugueses recordam com saudade os tempos da presidência de Mário Soares e estão ansiosos para que acabe o penoso mandato presidencial de Cavaco Silva.

 

Se Mário Soares não tem hoje assim ninguém que lhe dispute o lugar de personalidade mais marcante do regime, é curioso que atinja os 90 anos num momento em que o clima é de fim de regime. Mário Soares foi Primeiro-Ministro em dois períodos de austeridade severa (1976-1977 e 1983-1985), mas nenhum deles é comparável com a situação actual, na medida em que a desvalorização da moeda amorteceu os efeitos da crise. Mas depois a presidência de Mário Soares (1986-1996) ficou na memória dos portugueses como os tempos áureos deste regime, que seguramente teve o seu momento de apogeu em 1998 com a Expo. Desde então, os tempos têm sido de profunda decadência, e é seguramente penoso para Mário Soares assistir ao que se está a passar. De certa forma, a situação é semelhante ao que se passou com Álvaro Cunhal que no fim da sua vida teve que assistir ao colapso de tudo pelo que tinha arduamente batalhado.

 

Sobre Álvaro Cunhal alguém escreveu que um homem como ele mereceria ver o sol nascer no fim da sua estrada. Seguramente Mário Soares mereceria também assistir à prosperidade do regime de que é a personalidade mais marcante. É uma pena que tal não esteja a suceder. Só que, ao contrário de Álvaro Cunhal, que viveu os últimos anos da sua vida numa reclusão voluntária, Mário Soares está sempre presente e não abdica de defender as suas posições. Foi dos primeiros a visitar Sócrates em Évora e uma simples palavra sua nessa ocasião fez tremer a estratégia do PS. Enganem-se, por isso, aqueles que julgam que Mário Soares deixará de dizer o que pensa para seguir estratégias alheias.

 

Por muita discordância que tenha das posições políticas de Mário Soares, admiro profundamente o seu perfil de combatente infatigável desde os tempos da ditadura, que nem a prisão, o exílio ou agora a velhice conseguiram travar. Por isso lhe desejo: “Ad multos annos“.

8 comentários em “Mário Soares.”

  1. “Ó sr. guarda, desapareça!” Grandes estadistas são assim.

    Além de fazerem desaparecer das livrarias livros como “Contos Proibidos- Memórias de um PS Desconhecido”, relatando acontecimentos que num país a sério não ficariam por ali.

    1. A grandeza dos estadistas de um país mede-se pela grandeza dos cidadãos desse país.
      O nível de inteligência e profundidade do seu comentário é revelador do que quero destacar.

  2. Este seu texto aponta, e muito bem, três personalidades marcantes dos últimos 40 anos: Mário Soares, Álvaro Cunhal e Francisco Sá Carneiro, cujas vidas políticas se distinguiram bem antes do 25 de Abril. Todos eles revelam características comuns: a combatividade, a vontade de se darem para transformarem a vida de todos e de cada um e o inconformismo.

    Espero que seja muito útil esta sua homenagem, que, mais que histórica, contém uma forte componente pedagógica.

    Na realidade vivemos tempos de vazio; e todos quanto ambicionam uma vida cheia para todos os demais têm de compreender que este caminho é feito pelo deserto. Mas um deserto onde também surge a consciência de que um oásis é possível descobrir.
    Infelizmente, também a realidade portuguesa revela-nos que somos personagens incapazes de descobrir que mais que seguidores possuímos o dever de liderar nossas próprias vidas, e que o preço dessa liderança é o sofrimento.
    Por isto mesmo os bezerros de ouro são-nos apresentados por filhos de terra árida que nem pelo vento se deixam elevar à montanha que é capaz de transfigurar a face do destino.
    Catequeticamente procuram enaltecer o maná que não evita a morte e esquecem a fonte de água viva que é capaz de regar desertos e fazê-los florescer.
    Também esta geração é perversa e nem os cânticos e os sons da lira os fazem bailar. Também estes são túmulos caiados, formosos por fora mas cheios de esqueletos por dentro. Também estes adoram a puta da babilónia e de dia para dia vão erguendo mais um piso nessa torre que cimenta uma diversa e incompreensível linguagem que a todos separa. E o povo tem fome.

    Mas o povo necessita compreender que este pão é amassado nas entranhas da dor que cada um transporta, e que só depois de amassado pode o fermento fazê-lo levedar e multiplica-lo ao ponto das sobras encherem a quantidade de cestos que ao invés de excesso nos revelam a plenitude.

    A liberdade é um dom. Como dom é dádiva. Como dádiva que é pede-se. Quem pede busca. Quem busca movimenta-se. Quem se movimenta alcança.

    Tudo isto para dizer que a lei não liberta e que necessitamos libertar-nos desta liberdade.

    Portugal, assim como a Europa e demais continentes, nos últimos 6 anos tem navegado pelas mãos de infantes que tal como esponjas absorveram os resíduos da promíscua lei que enaltece a idolatria de mercados e se propaga pelos sete cantos do mundo pela besta também ela com sete chifres, que são as antenas da comunicação que é incapaz de discernir o peso do ouro do peso de uma Vida.
    Sim, a puta da babilónia impera e os frutos de seu ventre revelam as deformações de suas entranhas.

    Em tempo de advento, que é também tempo da promessa, resta uma curta oração:
    “Abba, Senhor do Céu e da Terra,
    eis-me diante de Ti para me alimentar do Pão de Tua Palavra,
    para conhecer a Tua Vontade e para Santificar Teu nome.
    Como já não aceitas nem holocaustos nem sacrifícios, entrego-Te toda a minha vida”. (pequeno excerto in O Quinto Evangelho).

    Parabéns, Soares.

  3. “Hoje os portugueses recordam com saudade os tempos da presidência de Mário Soares”

    É preciso muita arrogância para escrever uma coisa destas.

    1. Os portugueses recordam com saudade os tempos da presidência de Mário Soares, ou os tempos dos governos do Cavaco? Como foram contemporâneos, a dúvida é legítima…

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