Marcelo Rebelo de Sousa tem um problema político sério. Desde muito novo se habituou a marcar a agenda política, especialmente através da sua célebre página 2 do Expresso onde todas as semanas inventava factos políticos como quem constrói castelos de cartas. Por isso, quando foi desafiado para concorrer à Câmara de Lisboa nos anos 80, Marcelo ficou convencido de que facilmente poderia ganhar a eleição. Nessa altura recebeu, porém, com grande surpresa a notícia de que era totalmente desconhecido do grande público. Desde então Marcelo passou de criador de factos políticos para criador de factos mediáticos, inventando sucessivos shows, apenas com o fim de se tornar conhecido, como mergulhar no Tejo ou conduzir um táxi em Lisboa. Não percebeu, no entanto, que esses shows eram fatais para a credibilidade da sua candidatura. Jorge Sampaio apresentou apenas um slogan: “a responsabilidade” e facilmente ganhou essa eleição.
Marcelo perdeu, mas não desistiu de até hoje manter uma presença constante nos media, julgando ser esse o caminho para atingir o poder. Inicialmente na TSF, e depois na TVI ou na RTP, Marcelo foi laboriosamente, ao longo de mais de duas décadas, construindo uma persona televisiva, julgando que o amplo reconhecimento do grande público seria suficiente para ganhar todas as eleições a que se apresentasse. Mas a verdade é que o mediatismo é insuficiente, e até permite expor muitas vezes a falta de conteúdo da mensagem política dos candidatos mediáticos. Ao contrário do que muitos julgam, Donald Trump não ganhou as eleições presidenciais americanas por ser uma estrela de reality shows, mas antes porque surgiu com um discurso político que teve grande impacto nos estados decisivos. Ora, Marcelo nunca conseguiu ter qualquer discurso político consistente e daí o seu fracasso na liderança do PSD, perdendo a oportunidade de ser primeiro-ministro. É verdade que conseguiu ganhar as eleições presidenciais, apenas falando em afectos, mas isso aconteceu porque António Costa quis essa eleição, tendo por isso apresentado contra ele um candidato anódino, cujo discurso radical de esquerda afugentava o eleitorado de centro. Pode dizer-se que António Costa ofereceu a eleição presidencial numa bandeja a Marcelo Rebelo de Sousa, e ele não tem deixado de lhe retribuir o favor, apoiando o seu governo em tudo e mais alguma coisa, até nas críticas a um simples aviso de Teodora Cardoso.
A questão é que, da mesma forma que Donald Trump não consegue largar o twitter, Marcelo está absolutamente viciado na presença mediática e não perde uma oportunidade para surgir nos meios de comunicação social, enquanto que o cargo de Presidente exigiria antes recato e distanciamento. Parece que Marcelo não acredita que existe se não aparecer nos media. É assim que agora vai aparecer como ardina a vender a revista Cais nas ruas. Maurice Duverger disse uma vez que se virmos o Rei na rua, sempre que vamos ao quiosque comprar jornais, a Coroa deixa de inspirar respeito. Imagino o que ele diria se o Rei aparecesse nas filas de trânsito a vender uma revista aos automobilistas. As boas intenções, que o povo diz que enchem o inferno, não justificam tudo. E a dignidade do cargo de Chefe de Estado deve ser sempre preservada.

Não é um Presidente – possui (é possuído…) pela natureza de um “compère”…
“…a Coroa deixa de inspirar respeito.”
Com saudades do respeitinho…!
João de Brito
O mal o menos….
Mais vale o Cais ou Borda d’Água do que DN – Público ou Expresso!
Dos três venha o diabo e escolha!
Vai uma apostinha que ninguém lhe nega compra!
“Pode dizer-se que António Costa ofereceu a eleição presidencial numa bandeja a Marcelo Rebelo de Sousa”
Só confirma o meu comentário ao do José Leite, no Poste do Pedro Correia, em 02.03.17 – Frases de 2017 (7-bis)
“In politics, nothing happens by accident. If it happens, you can bet it was planned that way.” – Franklin D. Roosevelt
Assino por baixo. Excelente análise; mesmo que Marcelo nunca me tenha convencido muito, estava longe de imaginar que fosse tão fraquinho. Não é só o caso de respeito ou não respeito; é a dignidade de um Presidente e, no fundo, de todos nós que está em jogo… ou anda pelas ruas da amargura.
Isto parece um orfanato da cavacal figura, carregadinhos de azia.
Em quem terão votado os que agora criticam Marcelo e lhe desvalorizam a vitória eleitoral com miríficos argumentos de que não tinha opositores á altura?
a verdade é que ” O REI VAI NU “
o cargo de Presidente exigiria antes recato e distanciamento
Essa é uma interpretação salazarista do cargo e função do Presidente da República, interpretação essa que não tem nenhum fundamento legal. Trata-se apenas de um hábito criado na “longa noite fascista”, na qual o Presidente era uma figura meramente decorativa e honorífica. É uma forma de exercer a presidência, mas não é a única nem nada nos diz que seja a mais aconselhável.
se virmos o Rei na rua, sempre que vamos ao quiosque comprar jornais, a Coroa deixa de inspirar respeito
Parece que o rei da Noruega (o da Suécia, não tenho a certeza) anda todos os dias de bicicleta pelas ruas de Oslo. Não consta que perca o respeito dos seus súbditos por esse facto.