
“Sabes Avó, queria fazer-te uma pergunta.” Quando a minha neta Alice entabula conversa cautelosa, fico logo preparada para o que der e vier. “Sabes que podes perguntar o que quiseres.” Doeu-te muito furar as orelhas?” Olha, não sei! É capaz. ”Como não sabes? Ou doeu, ou não doeu!” Tanto quanto sei, neta, por volta dos meus três meses, decidiram que chegara a altura de me furar as orelhas. Usava-se uma agulha já com linha, e meia batata pequena. Acendia-se uma vela para desinfectar a agulha, e assim que a ponteira estivesse ao rubro, espetava-se no lobo da orelha até enterrar na batata colocada por detrás. Puxando a batata, esta trazia a agulha e a linha por arrasto, deixando no local o buraco feito pela agulha, mas preenchido pela linha, na qual se dava um nó para não sair e não deixar fechar o buraco. Ficava assim como uma argola de linha. Sabendo agora tu tudo isto, pensas que me doeu? “Penso sim! E que choraste bastante também.” Também penso que sim. “Mas, avó, agora ainda se usa isso, essa técnica da batata?” Nada disso, neta! Agora há uma maquineta que parece um agrafador que fura e coloca o brinco que se escolheu em segundos e tudo ao mesmo tempo. “Mas dói?” Deve doer um bocadinho, afinal tem sempre de se fazer um buraquinho, mas eles põem um gel para deixar dormente e é tudo muito rápido. “Vou pensar nisso. Gostava de usar brincos, avó.”
No dia D, enviou um vídeo em que estoicamente deixa furar os lobos, apenas com um apontamento de doloroso gemido. “Estás contente?” “Estou muito feliz. Gosto tanto! A minha vida é maravilhosa.” Abençoados oito anos…

Que disparate, furar as orelhas.
Dantes eram só as mulheres quem fazia esse disparate, agora, para piorar, também homens fazem.
Brincos são símbolo de estatuto social. Por exemplo, na Pérsia ou na Índia no who’s who da altura, apenas era incluído quem usasesse brinco e a posição dependia da qualidade e da preciosidade do material. Dito isto vejo-me a pesar bem o meu gosto pessoal e a concordar consigo. Não gosto de brincos, não uso, bem como colares, anéis e pulseiras, salvo em eventos que requerem ” produção” especial. Não furei as orelhas às minhas filhas, mas fizeram-no elas de moto próprio. Gostam de brincos. Óptimo.
Não furei as orelhas às minhas filhas, mas fizeram-no elas de moto próprio.
Ora muito bem, estou de acordo consigo. Quem quiser fazer asneiras com o seu corpo, que faça, quando tiver idade e responsabilidade para isso, mas que não sejam os pais a fazê-lo.
Nunca encorajaria fosse quem fosse a furar o corpo por uma questão de estética. Pagar essas decisões é que acaba por ser algo inteiramente diferente
Na côrte de Luís XVI os homens usarem um brinco na orelha esquerda era “de règle”.
Seguramente que sim. Desde o osso à pedra e por aí fora, que os brincos são evidência de classe e não apenas de classe social.
Brincos bem perto de orifícios, orelhas na Europa e orelhas e nariz na Ásia.
Por cá dizia-se que nas mulheres era para o diabo não lhes entrar no corpo.
Por cá dizia-se ( diz-se) muita balela. Aos homens, um brinco conferia-lhes panache, sofisticação. Se fosse uma argola de ouro, eram nómadas sonhadores ou valentes corsários. No caso das mulheres tinha de ter tudo a ver como o diabo! Só se for com o diabo que os carregue! A igreja de Deus e a maledicência dos homens são como água para chocolate.
Ás arrecadas e aos brincos das vianesas ainda é dado esse tratamento.
As arecadas e filigranas são o expoente máximo da ourivesaria portuguesa e serem rebaixadas a amuleto contra as más intenções do demo é uma provocação e pura inveja de quem ficaria asqueroso em usá-las… havia por aí, e ainda há, muito artigo indefinido fechado numa gaveta.
Maria Dulce Fernandes é o que dizia a minha avó e a minha mãe.
Acredito!
Os homens são o diabo,
Não há mulher que o negue,
Mas todas elas procuram,
Um diabo que as carregue.
É natural que haja por aí mulheres com parafilias, mas antes um homem do que uma casca de batata, caramba. E depois Deus disse ” crescei e multiplicai-vos” , mas não deu opções com +. E se quer que lhe diga, ainda bem.
E disse!! (assino o comentário por baixo)
Quanto à cena com a neta: que ternura :)))
Referia-me ao comentário que começa por “Por cá dizia-se muita balela”…
Demónios tentadores vs fracas figuras…
A minha neta é surpreendente. Vá que esta conversa foi apenas sobre furar as orelhas
Também me furaram as orelhas quando era bebé, mas há décadas que não uso brincos.
Brincos nos homens? Cada um deve fazer o que lhe apetecer, mas confesso que sempre achei o Corto Maltese irresistível
É maravilhoso a sua netinha achar que a vida é maravilhosa.
Maria🍁🍂
Querida Maria, eu e o Corto temos , talvez há 50 anos, um affair de coeur. Os seus livros são o meu País das Maravilhas, e o mais maravilhoso é que aqueles mafarricos celtas Puck, Merlin, Morgana, Oberon, não o deixaram envelhecer, ainda é o mesmo moreno elegante e desgrenhado e de olhos cor de mel de castanheiro que me apaixonou perdidamente. Lamento tanto não conseguir passar a paixão à descendência…beijinho.

A primeira coisa que fiz aos dezoito foi tirar de imediato os brincos. O furo, desse, não me livro. Oxalá sejam as garotas a escolher se querem ou não as orelhas furadas.
Eu tinha umas argolas com uma flor. Eram detestaveis. herança da trisavó Carolina. Num verão, na praia, perdi uma argola e pedi para tirar a outra. Levei um valente raspanete, e afinal encontrei a perdida caída no ralo da banheira. Guardei-a , caladinha e nunca mais pus brincos salvo nos eventos em que, por exemplo, sou a madrinha, o padrinho, a mãe da noiva… ainda tenho as duas argolinhas guardadas. Não menti à minha mãe; foi uma pequena omissão que me deixou mais feliz. A Alice quis um parzinho de pequenas borboletas. Ficam-lhe bem.
(Mais uma vez) Este post é uma maravilha!
Obrigada Leão a Alice agradece.