
Foi uma tia materna, de visita à nossa casa na Rua do Soajo, no Porto, quem me ofereceu o primeiro livro aos quadradinhos, no caso um Pato Donald. A casa ainda lá está, com uma horrenda porta de alumínio a substituir a antiga de madeira, talvez por causa da memória da malfeitoria de dois dos meus irmãos, que arrombaram a almofada inferior com o meritório propósito de entrar sem chave, iniciativa que os vizinhos não encararam com excessiva simpatia.
Pela mesma ocasião tive direito, numa deslocação à praia da Circunvalação, a um inesquecível gelado Rajá. E, no regresso de eléctrico até à Rotunda, e depois a pé por Nossa Senhora de Fátima acima, a uma paragem na confeitaria Porto Rico, que ainda existe, Deus a proteja. Aí veio para mim um mimoso iogurte, amaríssimo, num frasco de vidro. Tão bom como o primeiro beijo, o qual teve de esperar ainda uns bons anos.
Perdia-a de vista porque teve uma vida (aventurosa e sofrida) longe. Quando regressou, em 1973, revi-a fugazmente e depois algumas vezes, sempre por pouquíssimo tempo. Vivíamos longe, havia a diferença de idades e sobretudo a de amigos, vivências e opiniões (foi co-fundadora do Bloco de Esquerda).
Numa troca de correspondência há poucos anos, a propósito não sei de quê, contou-me algumas histórias, que ignorava, sobre aspectos da vida na casa em que nasci. E nelas constatei a sua bondade inalterável, bem como o talento para a escrita – Manuela era uma contadora de histórias nata, e deixou obra para o testemunhar.
Morreu ontem, no Hospital de Serpa, e hoje fui ao Crematório de Faro despedir-me.
Se houver outra vida, e a justiça divina não me enviar para o quinto dos infernos, ou até para o Purgatório, prometo que não vou ficar longe.

“Não conheci pessoalmente a Manuela Barros Ferreira. Mas, pelo tanto que me marcou no breve tempo que com ela convivi por aqui, posso extrapolar o que terá marcado quem com ela conviveu. Descanse em paz.”
Convivi com ela no facebook num grupo sobre assuntos da língua portuguesa, e esse texto foi a minha homenagem de hoje.