Nelson Mandela, incomparável herói, resiste à morte como resistiu à prisão, à injustiça, à adversidade: com uma determinação tranquila. Talvez porque sabe, lá no fundo, que nunca morrerá. Mesmo que os boletins médicos o anunciem, mesmo que os telejornais espalhem a notícia, mesmo que os olhos do mundo se encham de lágrimas, mesmo que os grandes da Terra louvem o seu exemplo desaparecido com ocas palavras de pompa e circunstância. Ele sabe que será eterno. Merece sê-lo, como muito poucos.
Mandela
Ana Vidal,


Muito bem, Ana.
Apeteceu-me celebrá-lo enquanto está vivo, depois haverá quem lhe faça mil empolgantes epitáfios. 🙂
Compreendo, aceito, e até subscrevo a exaltação de Mandela, figura ímpar.
Mas lembro, se me é permitido, que outros presos políticos, de opinião também, pelas mesmas latitudes, não sobreviveram:
Uria Simango
Lázaro Nkavandame
Júlio Razão Nihia
Mateus Gwengere
Joana Simeão
Paulo Gumane
Celina Mulhanga Simango,
e muitas dezenas de milhares de outros.
Seria por não terem as reais qualidades de Mandela, ou por ineficiência do regime do apartheid – incompetente para o efeito.
Caro umBhalane, claro que lhe é permitido lembrar os que não resistiram. Agradeço até que o faça aqui, é justíssimo.
Mas talvez o grande segredo – e o grande trunfo – de Mandela para a sobrevivência tenha sido a total ausência de ódio, que tão rara é em quem passou tantos anos na prisão. Teria sido essa a diferença? Não sei, mas é admirável de qualquer maneira.
Cara Ana Vidal
Tenho um enorme, ENORME, respeito pela mais diferentes ideias e sua expressão, apenas com uma condicionante – que sejam honestas, verticais.
Para ser muito claro, é por isso que admiro Cunhal, e detesto Soares – é um exemplo elucidativo, claro, de como penso e estou na vida.
1 – Não escrevi que não resistiram – escrevi que não sobreviveram, o que até no ambiente do Português Colonial em que fui educado, já agora por um Professor Colonialista enviado por Salazar, é muito diferente;
2 – A minha simpatia por Mandela, creia que não é oportunista, circunstancial, antes pelo contrário, mas não pelos motivos que invoca, que não estão dados como provados, e que serão demasiado fáceis de desarticular – Mandela regenerou-se, mas NUNCA foi o “Santo” a que o querem alcandorar – sejamos sóbrios, honestos; (já com o Obama foi o mesmo – o politicamente correcto, e outros);
3 – Mandela resistiu, sobreviveu, tão só porque o apartheid, ao contrário da frelimo, não o assassinou.
Esta é a realidade nua e crua.
E ponto final.
E não constitui nenhum elogio ao apartheid, que em matéria humana era/foi sempre muito superior à frelimo.
4 – Indiciar que o Reverendo Uria Simango e o Padre Mateus Gwengere, e mesmo também os restantes, foram pessoas possuídas por ódio e outros sentimentos menores, é obra.
A verdade acima de tudo.
Caro UmBhalane, vamos então por partes, como sugere:
1. Resistir e sobreviver são vocábulos diferentes, aceito, mas não escolhi o segundo por nenhuma razão escusa ou intencional. Usei, simplesmente, a palavra resistir (à morte) como sinónimo de sobreviver.
2. Não considero Mandela um santo, e não foi isso que escrevi (já agora, rigor com rigor se paga). Mas considero-o, sim, um exemplo, um homem raro. E parece-me que não estou sozinha nesta apreciação. No seu primeiro comentário concorda até com ela, ao referir-se a Mandela como “uma figura ímpar”. Não vejo é como possa falar-se de Obama neste contexto, e muito menos fazer comparações entre eles.
3. O apartheid não assassinou Mandela, mas manteve-o preso por muitos anos. Tantos, que era mais do que compreensível (expectável, até) uma reacção de ódio e de incapacidade de perdoar a quem assim o privou de viver. E aquilo a que se assistiu foi exactamente o contrário, o que faz dele um homem superior. Quantos, nas mesmas circunstâncias, conhece assim “regenerados”?
4. Uma vez mais me interpretou mal, ou eu me expressei mal: não fiz qualquer comparação entre Mandela e os nomes da lista que apresentou. Muito menos desvalorizei essas pessoas ou as considerei “possuídas por ódio e outros sentimentos menores”. Nem poderia, pela simples razão de que não conheço as suas histórias de vida. Essa leitura foi inteiramente sua.
A verdade acima de tudo, e também a lucidez.
Em determinadas alturas aparecem regimes que conseguem superar os tradicionais racistas.Julgo que os nomes que lembrou se referem a desaparecidos ou eliminados por um outro regime de partido único.
Em determinadas alturas aparecem regimes que conseguem superar os tradicionais racistas.Julgo que os nomes que lembrou se referem a desaparecidos ou eliminados por um outro regime de partido único.
O maior
O maior, de facto.
Um homem maior do que a vida e um monumento à dignidade humana e à capacidade de resistir à injustiça.
Tudo isso e também um monumento à liberdade, porque não pode haver maior liberdade do que a incapacidade de odiar.
É um exemplo de resistência serena e sobretudo de ausência do espírito de vingança,revanche,tão comum
nestes casos.Faz muita falta.Ainda há dias um ínfimo mugabe tentou conspurcá-lo.Que viva Mandela!
Mugabe é a antítese de Mandela.
É a suprema liberdade, porque equivale a afirmar que, mesmo condicionando as condições da sua existência, não conseguiram mudar a sua natureza. De certo modo, está incluída na dignidade.
A incapacidade de odiar, quem lhe infringiu tanto sofrimento e a tolerância, são para mim as maiores qualidade deste Homem.
Mas Ana, eu acho que ele já quer ” descansar ” e não o deixam, atormenta-me ver o ar dele a pedir sossego, e a ” rejeitar ” os holofotes, de olhos cansados e ” aflitos “, como os de uma criança perdida no meio da multidão.
Para nós ele estará sempre vivo, mesmo que o seu tempo na terra tenha terminado.
🙂
Cr, Madiba tem mais do que direito a descansar longe dos holofotes, que aliás nunca lhe agradaram.
Subscrevo tudo, Ana. Ninguém vivo me merece mais admiração que este enorme senhor.
A mim também não, Teresa.
É com toda a certeza uma das pessoas mais lindas que alguma vez pisou a terra e nós tivemos a sorte de ser seus contemporâneos. Vai viver para sempre.