I
«Com o Acordo Ortográfico, aumenta o número de palavras que se escrevem de forma diferente!!! Isto é, havia 1235 palavras que se escreviam da mesma forma em Portugal e no Brasil que, com o Acordo, mudam, a saber: 190 ficam com dupla grafia em ambos os países (por exemplo, circunspecto e circunspeto); 57 ficam com dupla grafia mas só em Portugal (por exemplo, conceptual e concetual, que no Brasil se escreve conceptual, mantendo a consoante “p”); 788 mudam para uma das variantes que existem no Brasil, por vezes a menos utilizada ou a considerada mais afastada da norma padrão (por exemplo, perspetiva: em Portugal, só se admite esta forma – sem “c” -, mas no Brasil admitem-se duas, perspetiva e perspectiva, sendo esta última a preferencial); finalmente, 200 mudam para uma até ao momento inexistente e que passa a existir apenas em Portugal (por exemplo, receção, que no Brasil só admite a forma recepção, que passa a não ser possível em Portugal).
Esta última situação é a mais aberrante: são 200 as palavras inventadas, que não existiam e passam a ser exclusivas da norma ortográfica em Portugal. Alguns exemplos: em Portugal, com o Acordo, passa obrigatoriamente a escrever-se aceção, anticoncetivo, conceção, confeção, contraceção, deceção, deteção, impercetível, enquanto no Brasil se escreve obrigatoriamente acepção, anticonceptivo, concepção, confecção, contracepção, decepção, detecção, imperceptível.
O problema diz, pois, respeito, sobretudo à grafia das palavras que contêm as vulgarmente chamadas “consoantes mudas”. Segundo os dados do Portal da Língua Portuguesa, com o Acordo Ortográfico, no que diz respeito às palavras que mudam, no Brasil continuam a escrever-se 1235 palavras com essa consoante etimológica (978 de dupla grafia e 257 que se escrevem só com a manutenção da consoante), enquanto em Portugal e nos restantes Países de Língua Oficial Portuguesa esse número desce para 247, e todas com dupla grafia!!!
Em Portugal, altera-se a ortografia fazendo desaparecer as referidas consoantes e, afinal, no Brasil, essa ortografia de cariz etimológico mantém-se!!!»
Maria Regina Rocha, no Público (20 de Janeiro)
II
«Chegámos assim à situação actual, verdadeira parábola sobre o destino da sobranceria: neste momento, há três grafias oficiais da língua portuguesa – a que vigora em Angola, Moçambique, Timor, e que é a anterior ao AO; a grafia brasileira que é a mesma de sempre, resultante do não acatamento de nenhum dos três acordos ortográficos assinados connosco, ao longo de 60 anos; e a de Portugal, que, com excepções ainda autorizadas, é resultante do AO de 1990 – feito, segundo diziam, para “unificar a língua”, agradar aos brasileiros e não perder influência em África! É notavel, é brilhante, é mais do que prometia a estupidez humana! Perante este facccccccccto, seria de esperar que os nossos sábios e os arautos dos amanhãs que cantariam no português por eles unificado pintassem a cara de preto e viessem pedir desculpas públicas. Eu dar-lhes-ia como castigo a conversão ao AO do Grande Sertão, Veredas, de Guimarães Rosa.»
Miguel Sousa Tavares, no Expresso (19 de Janeiro)


Já se percebeu que o Brasil dará aos portugueses as “consoantes etimológicas” – como se chamam aqui (de facto, o que acontece é que são grafemas da língua portuguesa AC, EP, OP, etc.) que eles conservam. Até há acordistas que declaram que sempre pronunciaram esta ou aquela consoante – que, por mero acaso, são sempre daquelas que o Brasil conserva.
Ou só agora é que esta evidência, agora trazida a lume era desconhecida?
A questão é muito simples: Portugal não precisa deste acordo e a evolução ortográfica, em todas as línguas do mundo culto, consiste na estabilização da ortografia – como aconteceu com o inglês, o francês e não na sua vandalização.
O resto é atraso cultural, demência e corrupção.
Destaco, com o devido aplauso, estas suas palavras: “A evolução ortográfica, em todas as línguas do mundo culto, consiste na estabilização da ortografia – como aconteceu com o inglês, o francês e não na sua vandalização.”
As consoantes que eram chamadas mudas em português não tinham justificação etimológica. O seu argumento é inválido. O francês está a passar por uma reforma ortográfica neste momento. O seu argumento é novamente inválido. Das línguas europeias faladas em vários países, só o inglês parece não ter tido uma reforma ortográfica recentemente. O seu argumento é, está claro, inválido.
Mas não deixe que a realidade se ponha no caminho do que lhe “parece”. Como não esteve no caminho de MST, que diz que em Portugal passamos a escrever “fato”, ou da outra senhora, que escolheu só olhar para uma das mudanças do acordo para depois tirar conclusões acerca de tudo – se eu olhar só para os vencimentos dos políticos em Portugal, também direi que a situação do país não podia estar melhor para a população.
As consoantes que chamadas mudas em português tinham todas justificação etimológica.
Poderíamos passar horas nisto, porque você não tem argumentos, só verborreia.
Aconselho a “Orthographia” de Duarte Nunes de Lião (1576), e não se intimide com a comparação que ele faz com bois e outras bestas.
A justificação etimológica, semelhante no francês ou inglês já não serve para o português?
Batemos no fundo, mesmo.
O francês está pelo menos desde o Séc. XIX a preparar reformas ortográficas, e no entanto mantém-se igual.
É um fenómeno!
Quanto a “todas as línguas”, não é que interesse muito, mas convinha colocar países, anos, links para essas reformas ortográficos… senão é só escrita à toa.
Assim, os seus argumentos resumiram-se a zero!
É difícil ser tão vazio, mas você conseguiu.
Parabéns, pode ir longe!
Vamos então à minha “verborreia”.
As consoantes mudas do português não tinham origem etimológica. Está bem explicado na reforma de 1911, que encontra gratuitamente procurando no Google. Essas consoantes formavam um dígrafo com as vogais antecedentes, como o nh… nesses casos a vogal antecedente era lida aberta. Sempre que havia uma palavra com um caso desses o uso da consoante naquela posição devia expandir-se a todas as palavras da mesma família. Daí não termos práctico, victória ou aflicção. Estes princípios gerais sempre foram mal aplicados, umas vezes era-no e outras não, à vontade do doutor. Li uma vez muitos exemplos de contradições, mas como agora não me lembro de nenhum melhor, contente-se com dicção mas ditar). Se ler de facto a reforma ortográfica original (de 1911, deixe lá o Duarte Nunes de Leão em paz, que a nossa ortografia é muito mais tardia) verá que nada de etimológico havia nas consoantes mudas do português e deixará talvez de chamar nomes aos outros sem sequer ter razão.
As datas da reforma ortográfica francesa são fáceis de decorar porque são as mesmas da do português: feita em 1990, aplicada em 2008 ou 2009. Abra as edições mais recentes do Larousse ou dos Robert, tanto o grande como o pequeno, e veja por si. Gerou celeuma em Fança, mas foi aplicado por esta altura de que falei na Bélgica, na Suíça e no Quebeque, e depois disso os franceses finalmente começaram a mudar eles próprios, primeiro no ensino, verificadores ortográficos, dicionários… como cá. Também houve reformas no alemão (década passada), no espanhol (há dois ou três anos, na edição mais recente do dicionário da RAE e da sua Ortografía de la Lengua Española) e noutras como o dinamarquês e o holandês. E nestes casos todos foram os vários países a entender-se – no caso do espanhol, até há uma academia por país. Veja na Wikipédia ou onde bem entender, é informação fácil de obter para quem queira de facto informar-se ou informar os outros e não apenas insultar gratuitamente. Leia antes qualquer coisinha sobre o assunto e cá fico à espera da sua resposta.
Há aí uma confusão.
Uma coisa é _a_ justificação não ser etimológica. É verdade. _A_ justificação dessas consoantes é _fonética_, como muito bem explicou. ‘Justificação’ significa, aqui, na nossa língua, ‘motivo pelo qual se mantiveram’.
Outra coisa é não haver justificação etimológica. Está errado. Todas, sem excepção, têm uma justificação etimológica. ‘Justificação’ significa, aqui, na nossa língua, ‘ter antecedente histórico’. Não há uma única dessas consoantes que tenha sido introduzida sem que pertencesse à etimologia.
Reformas ortográficas são coisas normais, sim, como todos os outros fenómenos da vida. O problema aqui não é haver uma reforma, mas sim a sua dimensão, o modo como é feita e a qualidade da mesma. Em todas essas vertentes, esta é um exemplo do que não se deve ser.
(Já agora, que ganharam o francês e o alemão com as reformas dos anos 90? É que é possível apontar o que perderam.)
Vamos então à minha “verborreia”.
As consoantes mudas do português não tinham origem etimológica. Está bem explicado na reforma de 1911, que encontra gratuitamente procurando no Google. Essas consoantes formavam um dígrafo com as vogais antecedentes, como o nh… nesses casos a vogal antecedente era lida aberta. Sempre que havia uma palavra com um caso desses o uso da consoante naquela posição devia expandir-se a todas as palavras da mesma família. Daí não termos práctico, victória ou aflicção. Estes princípios gerais sempre foram mal aplicados, umas vezes era-no e outras não, à vontade do doutor. Li uma vez muitos exemplos de contradições, mas como agora não me lembro de nenhum melhor, contente-se com dicção mas ditar). Se ler de facto a reforma ortográfica original (de 1911, deixe lá o Duarte Nunes de Leão em paz, que a nossa ortografia é muito mais tardia) verá que nada de etimológico havia nas consoantes mudas do português e deixará talvez de chamar nomes aos outros sem sequer ter razão.
As datas da reforma ortográfica francesa são fáceis de decorar porque são as mesmas da do português: feita em 1990, aplicada em 2008 ou 2009. Abra as edições mais recentes do Larousse ou dos Robert, tanto o grande como o pequeno, e veja por si. Gerou celeuma em Fança, mas foi aplicado por esta altura de que falei na Bélgica, na Suíça e no Quebeque, e depois disso os franceses finalmente começaram a mudar eles próprios, primeiro no ensino, verificadores ortográficos, dicionários… como cá. Também houve reformas no alemão (década passada), no espanhol (há dois ou três anos, na edição mais recente do dicionário da RAE e da sua Ortografía de la Lengua Española) e noutras como o dinamarquês e o holandês. E nestes casos todos foram os vários países a entender-se – no caso do espanhol, até há uma academia por país. Veja na Wikipédia ou onde bem entender, é informação fácil de obter para quem queira de facto informar-se ou informar os outros e não apenas insultar gratuitamente. Leia antes qualquer coisinha sobre o assunto e cá fico à espera da sua resposta.
Pedro:
não há discussão com quem diz que não há ortografia em Duarte Nunes de Lião, que escreve um dos primeiros tratados sobre ortografia. Ser ignorante é natural – ninguém nasce ensinado. Agora querer permanecer ignorante é toda uma opção de vida.
Querer ser provocador é outra… se fala em ligeiras mudanças ortográficas que tiraram o acento circunflexo, então também tem que considerar a de 1973 em Portugal, que apenas fez alterações mínimas, e quase ninguém deu por ela.
Os franceses não substituíram os ph por f, nem cortaram nenhuma etimologia.
Não compare o incomparável.
Oh da Maia, tem mesmo um problema em reconhecer que por vezes se engana redondamente. Só desconversa, nas suas respostas…
Duarte Nunes de Leão tinha ortografia, sim, nem eu disse o contrário. Disse é que a nossa ortografia, a que nós usamos hoje, nada tem com a dele. Porque não tem, já que houve um corte quase completo em 1911.
Na ortografia do francês mudaram dez regras – longe de ser só o circunflexo! -, que, num dicionário geral de língua, alteram a grafia a cinco mil palavras. Como cá, portanto.
Nem os franceses nem nós “cortámos etimologia” nenhuma com este acordo, como lhe disse. Eliminámos uma série de dígrafos de motivação fonética que eram desnecessários.
Oh da Maia, já lhe mostrei ponto por ponto que tem falta de informação. Será incapaz de reconhecer isso?
Zero. A zero argumentos, resposta zero. Quer conversa, compre um papagaio.
então o que fazemos com as milhares de crianças que já aprenderam a escrever conforme o AO?
E então o que fazemos às milhares que hão-de vir? E aos milhares de portugueses, angolanos, moçambicanos, espanhóis e brasileiros que nunca quiseram este aborto?
Acabar com isto ontem, já era tarde.
De facto, andamos dementes e somos ignorantes. Se o argumento é que já estamos habituados à senhora da asneira, logo, como tal, há que não quebrar a imbecilidade de rotina e continuar em frente como se nada fosse, então mais palavras para quê…
Se o dito é ilegal, só acordou quem quis ou não sabe mais para outra coisa…
Pois, mas talvez não sejam assim tantos, os portugueses que não querem (ou que sequer se preocupam) com este acordo. E será por isso que fora uma minoria barulhenta a maior parte dos portugueses e das empresas, incluindo editoras, jornais, canais de TV, passou a aplicar o acordo no último ano sem problemas de maior. Tanta conversa por tão pequena questão…
Vá dizer isso aos angolanos, que recusam aplicar o ‘acordo’. Ou aos brasileiros, que estão a retardar ao máximo a aplicação do dito cujo.
No Brasil já toda a gente aplica o acordo há imenso tempo. Veja (ou, melhor, leia) por si.
Ensiná-las a escrever bem, caro Daniel. Vamos sempre a tempo de corrigir um erro. Nunca é tarde para isso.
Parece-me instrutivo citar aqui as “Tripas” de José Agostinho de Macedo:
«… que conceberão projectos de destruição, com especialidade no segundo Club Maçonico chamado, Cortes Ordinarias: que pozerão um jugo de ferro a todo o Povo Portuguez,
fazendo-lhe a mais escandalosa traição que ainda se vio no mundo;
que espoliarão o Real Erario, a que davão o nome de Tesouro publico,
augmentando a divida Nacional até ao ponto de ser insolvivel por seculos»
Reparamos que “espoliarão” assume por via das mudanças ortográficas um aspecto profético.
Macedo referia-se a 1820, mas a espoliação do Erário Público – para dívidas insolúveis por séculos – não era apenas passado, repetir-se-ia nos 200 anos seguintes. Por mera coincidência, certamente, há sempre um rasto que leva aos “manos” do Club.
Macedo continua, no que aparenta ser um tom profético, mas é simples relato do passado:
«que reduzirão à mendicidade inumeraveis familias, privando os seus respectivos Chefes de seus ordenados: que excluirão dos empregos os que legitimamente os tinhão, e occupavão, para introduzirem em seu lugar os adeptos da Maçonaria…»
Se lermos textos franceses, ou ingleses, da mesma época, vemos que a acção dos “manos” não actuou nessas ortografias. Talvez os “corcundas profanos” tenham oferecido maior resistência. E para que se entenda o adjectivo “Corcunda”, termino a citação de Macedo:
« … e expatriando homens benemeritos, conspicuos, e honrados, só por serem denunciados pelos Espiões, sem outra alguma forma de Processo, e só pela ridicula nomenclatura de Corcundas:…” »
Ainda que não releve para o assunto em causa, o “Corcunda de Notre-Dame”, de Victor Hugo, é de 1831, e o texto de Macedo é de 1823.
Parece-me que o termo “corcunda” é capaz de ser mais global do que “velhos do Restelo”.
Quantos aos outros, as suas ilusões continuam a gozar de jovialidade sempre renovada…
Eu só gostava de saber onde andam os “corcundas” que faziam maravilhas como esta piada que todos conhecemos:
“Antes, Farmácia escrevia-se com Ph, e hoje?”
Pois, o “H” de hoje, nunca se pretendeu que caísse, e também nunca se leu.
Essa piada continuas a ser a que melhor resume as contradições do aborto…