Todos vimos em directo, nos canais de televisão. António Ramalho Eanes – talvez o político mais impoluto que conheci até hoje em Portugal -, João Lobo Antunes, Manuel Alegre, Mário Soares, Bagão Félix, Leonor Beleza, Jorge Sampaio, Vítor Bento e todos os outros conselheiros de Estado foram insultados e vaiados, à chegada e à saída ao Palácio de Belém, por uma multidão que lhes chamava “chulos” e “gatunos”.
“Quis ver os desavergonhados que se estão a aproveitar do nosso país”, dizia uma senhora entrevistada por uma equipa de reportagem televisiva, enquanto um cavalheiro também presente na vigília da praça Afonso de Albuquerque berrava: “A democracia tem que acabar.”
Uma coisa são as críticas – duras, indignadas, veementes – ao Governo. Outra é arrasar por igual todos os políticos, defender o fim das instituições democráticas e menosprezar os mecanismos constitucionais. Confundir tudo numa amálgama de impropérios onde só falta pedir um “pulso forte” para “endireitar o País” é meio caminho andado para desembocarmos numa situação muito pior do que a actual.
Os protestos de rua são inteiramente legítimos. Mas a rua não substitui o voto, por mais genuína que seja a indignação colectiva. E a insensatez dos insultos aos conselheiros de Estado está nos antípodas da cidadania. Ao contrário do que gritava o tal cavalheiro, a democracia não deve acabar. Deve melhorar, isso sim. E ser aprofundada. Sempre com mais cidadania, nunca com menos.
Também aqui

Eanes era aquele sr. muito impoluto que fundou um partido a partir da presidência da república, tarefa para que ninguém o elegera?
Era não. É.
Ninguem é perfeito, não é, Pedro?
Mas é impoluto? Ou era?
É.
A rua não substitui o voto mas há muita gente que na rua jurou mudar o voto…
Nada mais natural em democracia.
Infelizmente as pessoas estão a comfundir democracia com ladroagem.
E outras confundem democracia com ditadura, o que ainda é mais lamentável.
Tenho-me abstido de escrever sobre estes assuntos porque não cabem no meu blogue e também por me encontrar fora do país. Mas há coisas que não se devem deixar passar. Sem comentários, vou partilhar o seu post no FB e se me der licença vou fazer um link para ele no desabalo. .
Faça o favor, Graça.
Não sei se o tal cavalheiro que reivindicava o fim da democracia, é acólito de Manuela Ferreira Leite, se é alguém que vê.
Por muito doloroso que nos seja admitir, percebemos que a maioria da população não possui sentido de cidadania, mas que, a maioria dos intelectuais também não, assim como, a maioria dos políticos.
Ou melhor, cada cidadão do nosso país, possui um sentido próprio e antagónico de cidadania.
As famílias não cultivam o ensinamento do que deve ser cidadania, aos seus elementos mais jovens. A escola, demite-se dessa disciplina, como o diabo foge da cruz. Nas suas vidas de cidadãos, os jovens são cercados no dia-a-dia por estímulos que se possuem alguma finalidade, ela é direccionada para o sentido oposto ao de cidadania. Nada, ou muito pouco daquilo que nos envolve em matéria de áudio e de visual, se enquadra no conceito de cidadania. Nada, ou muito pouco nos direcciona para acções cívicas, tanto nos empregos, como nos serviços públicos.
Não basta conhecermos a definição “técnica” de cidadania, é tão ou mais importante, vivencia-la, identifica-la nos pormenores do dia-a-dia, para que a adoptemos e para nos sentirmos impelidos a troca-la com todos aqueles com quem interagimos.
Precisamos aprender a ser cidadãos responsáveis em primeiro lugar, defensores dos nossos direitos e reconhecedores e respeitadores dos mesmos direitos, na pessoa do outro, para então podermos saber apreciar a democracia e vivê-la plenamente.
Não sendo assim… então o mais provável é que o nosso destino volte a ancorar numa ditadura, talvez mais repressiva e castradora que a anterior, extinta em Abril de 74.
Bartolomeu, é perigoso esse raciocínio que começa a generalizar-se mais do que devia num país que já viveu debaixo de uma ditadura durante 48 anos. Uma ditadura não é solução nenhuma – é apenas mais um problema. Um problema que pode tornar-se intransponível.
Pedro Correia, tenho a sensação que somos um povo que precisa sangrar para ter a certeza de estar vivo…
Para já, é a 3ª república que parece instransponível, dominada pelas maçonarias e interesses mais ou menos obscuros e com um desprezo quase total pela vontade dos eleitores. Um regime que, depois do Pinto de Sousa admite um Relvas como 2ª figura do governo está a suplicar que não o respeitem.
É evidente que o Poder da Democracia tem de diminuir, um Primeiro Ministro eleito por 40% Não Pode Ter Poder para pedir emprestado 80 mil milhões de Euros e quase duplicar a Dívida.
Um primeiro Ministro eleito por 40% também Não Pode Ter Poder para estabelecer um acordo ortográfico onde muda aspectos fundamentais da língua.
E isto só são uns exemplos entre muitos do excessivo poder dos eleitos.
O excesso de poder do Estado Português sobre aqueles que não concordam com as suas medidas é que nos levou a esta situação.
“O poder da democracia tem de diminuir” para quê? Para vir um regime de “pulso forte”, com um “homem providencial” que “ponha tudo nos eixos” e nos reconduza a 1926?
O poder do estado portiguês é malsão e herdeiro de concepções autoritárias. Diminuir o poder do estado, perceber bem os seus limites – e em Portugal atribuem-se ao estado poderes quase taumaturgicos! – diminuir o poder do estado é aumentar a democracia – que em Portugal é extremamente deficiente.
Sobre o dito da Dra. Manuela Ferreira Leite, a questão existe e põe-se com acuidade numa situação em que seja imprescindível uma medida impopular. Um governo demagógico e apenas motivado pelos resultados eleitorais tenderá a adiá-la. Foi essa questão, que existe e é difícil, que a Dra. Ferreira Leite pôs, para a rejeitar e obrigar-nos a pensar no problema. A única questão, em democracia será a siscussão aprofundada e quase exaustiva – no antípodas do que acontece em Portugal. Temos de voltar acrescer 10% ao ano, como aconteceu com Salazar, mas m democracia.
“para quê?”
Para não acontecer aquilo que nos levou a onde estamos. Foi o excesso de poder que a Democracia dá aos políticos que nos levou onde estamos, dei dois exemplos que não contestou.
“Para vir um regime de “pulso forte”, com um “homem providencial” que “ponha tudo nos eixos” e nos reconduza a 1926?”
Claro que não, um homem providencial ainda teria mais poder.
Não parece ter percebido o que eu disse.
A Democracia continua, os eleitos é que têm de ter menos poder para fazer coisas em nome dela. Tem de haver mais Republica, mais travão ao poder da Democracia.
O presidente dos Estados Unidos, que é considerado por muitos o homem mais poderoso do mundo, normalmente é eleito por pouco mais do que 25% da população, porque a abstenção nos States anda normalmente pelos 50%.
Se elegermos quem nos governa com 40-45%, já é um bom score.
“Se elegermos quem nos governa com 40-45%, já é um bom score”
Não elegemos com 40%, quando disse 40% é para efeitos de votantes. Não conta com abstenção nem aqueles que não têm idade para votar.
Note-se que mesmo que o fosse 60% seriam obrigados a sofrerem as políticas de 40%.
Quanto ao dito “acordo ortográfico” é algo que se adequa a um ditador demente. E o nosso regime não está longe disso: afinal, e para falar apenas de finanças e economia, esta é a 3ª intervenção do FMI depois do 25 de Abril. O analfabetismo, de que ninguém fala, ronda os 20% e até desafiava o Cavaco Silva, Coelho ou Seguro para um ditado…
A frustração e a falta de sentido crítico informado dão nisto: mistura-se tudo cegamente. Nem sempre o povo é sereno, e muito menos lúcido.
Não gostei de ver na “vigília” militares fardados, intitulando-se fuzileiros, dizendo-se prontos a fazer o que for preciso. Este país já teve fardas a mais, durante demasiado tempo.
Pedro, aqueles “militares” são tão militares como eu, que passei “à peluda”, em meados de 1975, e por isso aparecerem fardados foi um abuso que o comando dos Fuzileiros devia sancionar.
Por outro lado, não nos podemos esquecer que os FN foram um dos suportes militares do Gonçalvismo, e só não sairam à rua na noite de 25/11/75, porque, dizem as más linguas, tiveram medo dos Comandos do Jaime Neves.
Eu tenho boa memória e também já vi muito, Alexandre. Já vivi num tempo em que havia manifestações gigantescas todos os dias, a toda a hora, em todo o lado. Vivi já o suficiente para me lembrar do Terreiro do Paço literalmente a transbordar de gente a vitoriar Salazar, Otelo Saraiva de Carvalho e até o almirante Pinheiro de Azevedo (quantos se lembrarão hoje dele?). Tempos em que a rua era “do povo”. Tempos em que partidos de extrema-esquerda enchiam praças e avenidas.
A minha geração ficou a conhecer muito cedo a importância da rua. Mas ficou a conhecer também a importância do voto. Duas realidades que não devem ser confundidas.
Todos vimos e ouvimos, também, um coro semi-improvisado cantar o “Acordai” do Lopes Graça e José Gomes Ferreira. Todos sabemos que nestas coisas há sempre exageros e os aproveitadores.
“… a rua não substitui o voto”.
Depende. Por exemplo em 1974 deu jeito, verdade? E um pulso forte (impoluto) endireitou o país e soube depois devolvê-lo ao poder civil.
“… é meio caminho andado para desembocarmos numa situação muito pior do que a actual.”
Não me leve a mal, mas não estará na altura de o Pedro Correia dar algum descanso aos ecrans televisivos, blogs, googles e youtubes, às canções e aos filmes do século passado?
Ab
Você confunde ditadura com democracia, Pedro Barbosa Pinto. E era precisamente aí que eu queria chegar.
Não será o Pedro Correia que confunde Liberdade de Expressão com Democracia?
Existirá liberdade de expressão em ditadura?
Não se deve confundir o vociferar furioso com a manifestação. As pessoas estão desesperadas. É natural que se cometam excessos e se diga o que não pode ser legitimado por quem tem a barriga aconchegada e sabe que, apesar de tudo, o dinheiro ainda lhe vai chegando. Gostava de saber como é que se pode ter o desplante de reduzir o ordenado mínimo e manter inúmeras excepções nos cortes. Conseguirias viver com 400 e poucos euros e vê-lo reduzido para 300 e tal? E dormirias descansado se o tivesses proposto? A grande sorte é que, apesar de alguns excessos de linguagem, somos tranquilos, mas não podemos exigir tanta lucidez. O desespero, a miséria e a fome nunca foram bons companheiros. Não é este o país que quero.
Ninguém está imune à crítica, Leonor. Nem os manifestantes que na Praça Afonso de Albuquerque insultavam uma deputada do Bloco de Esquerda enquanto prestava declarações à televisão ao ponto de quase não se ouvir o que dizia. Nem os manifestantes que ostentavam cartazes como este: “Portugal a criar coveiros, muito bem pagos desde 1975.” E muito menos os militares que apareceram fardados, como se estivessem prontos a pegar em armas contra as instituições democráticas.
A questão é saber o que é, materialmente, uma instituição democrática… São as que estão previstas numa constituição?
Sendo Portugal, formalmente, uma democracia representativa, experimente lá escrever ao seu deputado… Envie-lhe um mail a pôr uma questão. Experimente puni-lo (ou conservá-lo) mediante o desempenho desse seu representante. Pode fazê-lo? Não, não pode!
Democracia? Dificilmente.
Sendo essa uma deficiência real do nosso sistema democrático, há duas formas de a solucionar, C: abolindo o sistema ou melhorando-o. Eu aposto decididamente na segunda opção. A primeira somaria novos problemas aos actuais sem fornecer nenhuma solução. E repare: sem democracia não estaríamos aqui sequer a trocar impressões nesta caixa de comentários. Sucede isso em países como o Irão, Cuba, China, Arábia Saudita e tantos outros.
Parecia-me que tinha ficado claro que lamento a falta de democracia em Portugal.
Não creio que fosse possível outra leitura.
Então estamos de acordo. Mas convém separar as águas. Porque muitos dos ataques à democracia representativa que vejo por aí destinam-se a suprimi-la e não a melhorá-la.
É claro que ninguém está imune à crítica, Pedro, felizmente, acrescentaria. O problema é que se chegou a um ponto em que algumas pessoas já não conseguem pensar com lucidez e agir de acordo com isso. Naturalmente, o governo não só não ajuda como é responsável pelo desespero. A forma de comunicar desastrosa e arrogante, as trapalhadas que bem conhecemos e a não distribuição dos sacrifícios leva à descredibilização total dos governantes e a atitudes menos cordatas.
Sem questionar as tuas premissas, Leonor, julgo que não devemos desperdiçar oportunidades para ir fazendo alguma pedagogia cívica. Para lembrar – entre outras coisas – que a democracia é um sistema que permite sempre alternativas, que o protesto de rua só é consequente se for traduzido em opções de voto e que o insulto regular e sistemático a todos os políticos comete desde logo a injustiça de colocar em plano igual pessoas que nada têm em comum. É tão injusto dizer-se que “os políticos são todos gatunos”, ou mentirosos, ou incompetentes, como fazer generalizações semelhantes destinadas a jornalistas, professores, advogados, médicos, engenheiros, comerciantes, etc.
Compreendo a ‘democracia cívica’ mas é fácil para quem se vai aguentado apesar das vicissitudes. Por outro lado estamos a falar de massas, não propriamente de cada um individualmente, o que condiciona o comportamento, como se sabe.
Todas as generalizações são abusivas, mas é ao que assistimos permanentemente e com a ajuda dos últimos governos em relação a alguns grupos profissionais. Quanto aos políticos, tendo em conta o nosso percurso político, difícil é não generalizar. Por mais lindinhos que pareçam, cheios de parangonas e lições de moral acabam sempre por fazer o mesmo: mentir vilmente a quem o elegeu e proteger os amigos. Lamento, mas é o que penso.
Tomar a parte pelo todo é em qualquer circunstância uma abordagem perigosa e geradora de injustiças. Contudo, não querendo fazer a apologia da generalização impulsiva do insulto como arma política, compreendo que tal resulta de uma manifesta degradação da imagem da classe política, como um todo, em que todos os seus actores são apanhados neste turbilhão. E a principal culpada é precisamente esta classe política que tem vindo, ao abrigo do primado da alternância no quadro dos partidos do chamado “arco de governo” a gerir a “coisa pública” com despudor, falta de rigor, aproveitamento pessoal e, em várias situações, com notória gestão danosa. Neste quadro de impotência sentida pelo cidadão-comum, não admira que o grito de revolta se faça justificadamente sentir. E o maior perigo não é o insulto em si, é a manifesta deterioração do regime democrático, em únicos responsáveis são os agentes políticos.
Estou genericamente de acordo com o que escreve, em particular com a ideia contida na última frase. Mas atenção: termino como você começa. “Tomar a parte pelo todo é em qualquer circunstância uma abordagem perigosa e geradora de injustiças.”
Prezado Pedro Correia,
Vivo fora de Portugal e, por isso, não tenho uma completa visão do que se passa em Portugal. Mas entendo perfeitamente o estado de espírito das pessoas. O que era dantes meras demonstrações do PC generalizou-se. E incrível a falta de escrúpulos deste (e doutros governos). Aumentam impostos em 400 por cento, exigem-nos provas de pagamento de impostos de 4 anos atrás , baixam salários , aumentam os preços dos utilities (agua , gaz , electricidade ). Não compreende a reacção popular? Eu compreendo perfeitamente! Claro que o que foi vaiado não foi Ramalho Eanes. Foi um Conselho de Estado caduco, velho, bolorento que não representa a visão do pais, nem tem utilidade evidente! Olhando para cada um deles, são a cara e a culpa da situação em que estamos
Estou totalmente de acordo com a opinião de Pedro Correia.
“Olhando para cada um deles, são a cara e a culpa da situação em que estamos.” Pois é isso mesmo que eu critico, meu caro. Tomar a parte pelo todo. Esse é o caldo de cultura de todos os sistemas ditatoriais.
Mas, estamos ou nao a falar de um orgao colegial? Temos de olhar para o orgao, para o que ele significa e nao disseca-lo membro a membro tentando encontrar algum ponto positivo (genero agulha em palheiro). Naturalmente que nao concordo com a massificacao das opinioes, vulgo ditadura do proletariado, mas sinceramente este governo esta-lhes a dar uma forte ajuda.
Sim, caro José, o órgão é colegial. Mas cada um dos seus membros foi insultado e vaiado individualmente. À entrada e à saída de Belém. Cada um deles foi medido por uma bitola colectiva, o que é profundamente injusto.
Caro Pedro Correia,
Como lhe disse estou fora e nao tenho, concerteza, uma visao completa do que se passa em Portugal, mas acho que todos os orgaos do Estado (e sobretudo os orgaos de soberania Governo/Presidente da Republica) estao de tal forma desgastados que nao terao forca suficiente para impor as medidas economicas necessarias. Portugal parece-me a beira da anarquia.
Por vezes vê-se melhor à distância, caro José. Mas nem sempre. De qualquer modo, são sinais a que convém prestar atenção. Porque da imagem externa de Portugal depende muito do nosso futuro a curto prazo.
Talvez possam por lá o Louçã e Jerónimo, a ensaiar a ditadura do proletariado, ou então o Seguro a meter o socialismo na gaveta, bom país este.
Pode acontecer. Mas, para tanto, teriam de vencer eleições. É a única forma de chegarem lá.
São esses os resultados da instrumentalização das massas, Pedro.
Estranho, no entanto, que nesse caso nem me sinta inclinado para ‘acusar’ uma esquerda demagoga ou os típicos sindicatos. Antes sim, uma Imprensa estilo pêndulo.
As massas inflamam-se com emoções fáceis. Mas aos órgãos de comunicação social não se exige apenas a réplica acrítica dessas emoções: exige-se também um esforço permanente para lhes conferir uma perspectiva racional. A informação não deve confundir-se com as redes sociais. Os media que cometerem esse erro cairão numa crise ainda mais profunda do que a actual.
De facto, estamos a presenciar História – tenho, no entanto, as minhas dúvidas sobre até que ponto benéfica para o bem comum. O efeito das redes sociais na alavancagem do populismo.
Dá-me até um certo desconforto não saber quem são os indivíduos que estão por detrás das “comunidades” das redes sociais. Já para não falar dos poucos que vou descobrindo, a nível local, me darem uma imagem de idealismo precoce, aliado a juventude.
Não tem por hábito ser uma boa mescla, essa.
Sabemos como pode terminar (e uso a sua expressão, que me parece adequada) “o efeito das redes sociais na ‘alavancagem’ do populismo”. Em gigantescas ‘manifestações de massas’ em repúdio da democracia representativa aos gritos inflamados de “chulos” e “gatunos”, reclamando um homem providencial. Há sempre um, ao virar de cada esquina.
Uma “democracia” em que os governantes eleitos fazem, sistematicamente, o oposto do que prometeram nas eleições, NÃO É legítima. Ao contrário do que têm vindo a dizer, duma ponta à outra dos Partidos, os governantes NÃO ficam mandatados pelos eleitores para fazer o que querem. Mas sim para fazer o que prometeram! Uma “democracia” cujas Leis são feitas, não para proteger o Povo mas para proteger os políticos do Povo, NÃO É legítima. Esta “democracia” resultou da perpetuação de um assalto selvagem ao poder no 25 de Abril por uma classe de individuos que estabeleceu um regime tão ou mais amordaçante como o era o do “Portugal Amordaçado” da chamada ditadura. Temos vindo a ver o Pais a ser vendido ao desbarato, os contribuintes a serem saqueados descaradamente e nem o voto tem podido fazer alguma coisa para o impedir. Que espécie de democracia é esta?
É uma democracia que nos permite protestar aqui e nas ruas. Uma democracia que nos permite desalojar os governantes pelo voto – único modo legítimo de o fazer. Uma democracia que autoriza a injúria e permite a blasfémia, o que noutros países pode valer sanções penais – incluindo a pena de morte. Metade da população do planeta não tem hipótese de fazer isso, ainda hoje.
Uma “democracia” que permite isso tudo excepto responsabilizar os tais “desalojados” por actos que a evidência mostra terem levado o País à miséria, não é uma democracia. Por turnos (chamam-lhe alternância) vão para o puleiro fazer o contrário daquilo que lhes deu os votos e saiem depois, impunes e sabendo-se impuníveis — mas pelo voto! — rindo-se da populaça que deixaram na miséria. Isto é tão amordaçante quanto as sanções penais pela injúria ou blasfémia a que estão sujeitas a dita metade do planeta. O 25 de Abril não desalojou os governantes pelo voto e nem por isso deixou de ser considerado legítimo.
Vasco, essa responsabilização a que se refere compete aos tribunais, não compete às pulsões da “rua” nem aos “justiceiros” das redes sociais, onde se lêem apelos constantes ao enforcamento de X ou ao fuzilamento de Y.
O 25 de Abril desalojou um regime ditatorial, com governantes que jamais foram sufragados pelo voto. É um imperativo de ética derrubar uma ditadura para instaurar uma democracia. Pelo contrário, é totalmente inaceitável procurar derrubar uma democracia representativa com argumentos idênticos aos que são utilizados para pôr fim a uma ditadura.
Estou em crer que estava lá muita boa gente de Oeiras…
Oeiras que elegueu o seu presidente da Câmara, embora já muito indiciado de corrupção…
Com o protexto:
” Que importa… ele fez obra”
E Oeiras não está só!
“Rouba mas faz” – onde é que eu já ouvi isto?
Estranhas coincidências. Em todas as reportagens, de todos os canais, quando o repórter pergunta pela profissão do manifestante, a grande, grande maioria diz que é, ou foi, funcionário público.
Por coincidência, leio o seu comentário enquanto escuto na TVI24 uma notável lição de política (e de vida) dada há dias em Portugal pelo ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso, um estadista que muito admiro. Diz ele, comentando a proverbial resistência das sociedades contemporâneas a todas as reformas: “As transformações não se fazem sem liderança, sem criatividade, sem imaginação.” Nada mais certo.
Caro Pedro Correia, pensei exactamente o mesmo e estive para escrever sobre isso. Subscrevo por inteiro que meter tudo e todos na mesma “molhada” não é sensato, nem adequado num regime democrático. Até parece que bom, bom, era suspender a democracia e chamar um qualquer “Salazar”…
Vou partilhar no Facebook.
Agradeço as suas palavras, José Carlos. E não estranho a sintonia. Não tenho a menor dúvida: muitos como nós pensaram e pensam o mesmo.
a rua não substitui o voto
De que vale o voto se os principais partidos existentes bloqueiam o sistema, impedindo que surjam novos partidos que exprimam melhor os anseios da população?
O voto só vale de alguma coisa se o sistema político fôr desbloqueado, nomeadamente através de uma modificação radical do sistema eleitoral, tornando-o proporcional (eliminando os distritos), e da lei de financiamento dos partidos, que deixe de multar a torto e a direito toda e qualquer partido que exista e permita que os pequenos partidos tenham que prestar tanta atenção a regras que, para eles, não fazem qualquer sentido.
Mas quem impede a formação de novos partidos? Eles, de resto, têm aparecido ciclicamente – do Partido Renovador Democrático, na década de 80 (que chegou a ser o terceiro mais votado em 1985), ao Partido da Nova Democracia, na década de 90, passando naturalmente pelo Bloco de Esquerda, que a partir de 1999 começou a afirmar-se como força política incontornável em Portugal. O sistema eleitoral pode e deve ser aperfeiçoado, concordo. Mas isso exige entendimentos amplos no Parlamento, com pelo menos 2/3 dos votos dos deputados em funções. Em compensação, nada nem ninguém impede os cidadãos de se constituir em partidos ou associações políticas.
É verdade que não é impedida a formação de novos partidos. Mas é muito dificultado que esses partidos se afirmam e cresçam, através da eleição de deputados.
De facto, a eleição de deputados por um partido pequeno só pode em Portugal ser feita pelo círculo de Lisboa, o que exige desde logo que o partido pequeno tenha 2% dos votos nesse círculo. Se, no entanto, houvesse um círculo nacional, um pequeno partido poderia eleger um deputado com 0,5% dos votos nacionais, o que lhe permitiria a partir daí crescer (até porque receberia as subvenções estatais correspondentes a esse deputado eleito).
Eu o que afirmo é que os partidos existentes, nomeadamente PS e PSD, estão interessados no bloqueio atual do sistema eleitoral (e na cruel lei de financiamento dos partidos), que dificulta muito o crescimento dos partidos pequenos.
Se a lei eleitoral fosse outra, MRPP, PAN e MEP (entre outros) teriam hoje, provavelmente, deputados, e valeria muito mais a pena votar.
Agora, votar sabendo que só vale a pena se fôr no PS ou no PSD, não vale a pena. Masi vale uma pessoa manifestar-se na rua do que votar num desses dois.
Eu estou de acordo com a alteração do sistema eleitoral, com a introdução de um círculo nacional e a valorização dos pequenos partidos. Não esqueça, no entanto, que em diversos países de irrepreensível democracia existe um patamar mínimo para a representação parlamentar (geralmente de 3% a 5%), o que não sucede em Portugal. É verdade que o actual sistema desencoraja a formação de novos partidos, mas lembro que o Bloco de Esquerda rompeu essa lógica fazendo eleger dois deputados em 1999 e conseguindo 16 representantes nas legislativas realizadas uma década depois (com parlamentares entãlo eleitos por metade dos círculos do continente: Lisboa, Porto, Coimbra, Faro, Braga, Setúbal, Aveiro, Santarém e Leiria).