Mais cem escritores que deviam ter ganho o Prémio Nobel (37)


Pedro Correia,

 

«Contra o pessimismo da razão, o optimismo da vontade.»

Antonio Gramsci (1891-1937)

10 comentários em “Mais cem escritores que deviam ter ganho o Prémio Nobel (37)”

    1. Era inelegível porquê? Um candidato é elegível se for proposto:
      a) pela academia sueca ou academias ou instituições similiares de outros países;
      b) por professores universitários de literatura ou linguística;
      c) por sociedades de autores ou de escritores;
      d) por outro laureados com o Nobel.

      Suponho que será inelegível se for analfabeto.

      1. Por elegível queria-se significar a não coadunação da obra com as finalidades estatutárias da atribuição do Nobel e não tanto a questão processual da apresentação da candidatura.
        Nos termos da sua criação e nas palavras do próprio Nobel o prémio da literatura destina-se a premiar “the most outstanding work in an ideal direction”
        Defensor de regimes totalitários, pior, teorizador do totalitarismo cultural e partidário de uma ditadura do proletariado Gramsci não poderia ganhar o Nobel, a não ser que se conclua que a direcção ideal de que Nobel fala no seu testamento é compatível com o horror da ditadura.
        Aliás, mesmo aqueles que “apenas” se limitam a ser admiradores de ditadores totalitários (Neruda, por exemplo) não deveriam receber o Nobel. Neruda, num “poema”, proclama a necessidade do castigo dado por Staline. Quem vomita canalhices dessas ultraja a memória de centenas de milhares de vítimas do Gulag e está na direcção inversa do que seria um “work in an ideal direction”.
        E se isso não é uma evidente evidência, apenas significa que a luta pela hegemonia cultural gramsciana continua o seu caminho.

        1. Entendi agora. Mas repare: esse critério levaria o Comité Nobel a excluir alguns dos galardoados, como sublinha – não só Neruda mas também Cholokov, por exemplo. E talvez o próprio Sartre, distinguido em 1964 (embora tenha recusado o Nobel). E esse ‘conpagnon de route’ dos comunistas que foi Romain Rolland.
          Repare que foi precisamente o preconceito político ou ideológico que excluiu do Nobel figuras tão diversas mas tão marcantes como Céline, Junger ou Borges. Haveria certamente excelentes motivos políticos para tais exclusões (no caso de Borges julgo que não). Mas não havia bons motivos literários. E aqui o que conta é a escrita, não a política. Ou devia contar.

          1. Não se trata de um preconceito político, mas de cumprir a vontade do instituidor do prémio, que tem o direito de estabelecer os critérios que entender.
            Não creio, aliás, o que haja de mal em excluir autores nazis, comunistas ou fascistas.
            Se os critérios do fundador tivessem sido cumpridos há gente que teria ficado de fora? Certamente. E pelos melhores motivos.
            Pessoa, que cumpria os critérios, ficou de fora.

            Não esquecer, no entanto, que o prémio é dedicado à obra, não à vida ou crenças não expendidas na obra (se isso é possível).
            A obra literária de Romain Rolland não contraria os critérios de Nobel
            Até mesmo, de certo modo, a Sartre. Idem Céline.
            Quanto a Borges não creio que tenha havido motivos políticos.

          2. Se excluir marxistas-leninistas fosse critério, Saramago nunca teria recebido o Nobel. E o Borges, sim, foi excluído por motivos políticos – fez um elogio ao Pinochet, ou coisa do género.

          3. Ah, sim, lembro-me muito vagamente dessa do Borges. Creio, no entanto, que havia algum embaraço mais literariamente genuíno: era aquela acusação/blague de Borges não ter uma obra.
            Sobre o restante: não se trata de medir consequências, ou de usar a nossa tolerância, mas de interpretar, com um mínimo de rigor, as palavras constantes num testamento. E creio firmemente que o sentido das palavras de Nobel não se podem interpretar senão como excluindo um autor marxista-leninista – se esse ideário se reflectir na sua obra.
            As obras de Saramago não reflectem tal ideário. Há na obra literária de Saramago um limbo de intenções várias, difusas, de protesto, que descambavam por vezes num sentimentalismo de mau gosto agudizado por uma imensa piedade/admiração por ele mesmo.
            De resto, se por via do stalinistmo (que guardava para as crónicas e entrevistas, como notava, com desgosto o Bloom), Saramago não tivesse o Nobel não viria ao mundo maior mal do que aquele que veio por autores bem maiores do que ele – Green ou Nabakov, por exemplo – o não terem recebido por motivos que não se podem enquadrar nas intenções de Nobel.

  1. Independentemente de ser ou não elegível para o Nobel, a frase que seleccionaste merece um comentário: sobrepor a vontade à razão dá muitas vezes – olha, sei lá – na situação em que estamos.

    1. Sobrepor a vontade à razão deu milhões de mortos no comunismo que Gramsci queria.
      A situação em que estamos é um pequeno contratempo.

      1. Certíssimo. Mas «milhões de mortos» já é uma estatística e para muita gente os tempos ‘áureos’ da URSS serão uma época quase tão estranha e afastada como Portugal nos tempos do Marquês de Pombal. Eu estava apenas a tentar puxar a frase para um nível mais comezinho mas também (talvez) mais actual.

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