
Faz hoje 45 anos, iniciava-se uma das maiores atrocidades jamais ocorridas na África lusófona. Barbaridade que as narrativas dominantes tudo fazem para ocultar, como se nunca tivesse acontecido. O chamado “golpe do 27 de Maio”, nunca devidamente esclarecido, que vitimou parte da jovem elite do Movimento Popular para a Libertação de Angola – o partido que se tem perpetuado no poder em Luanda desde a independência, em Novembro de 1975.
Nessa data e nas semanas imediatas, milhares de militantes foram chacinados. Historiadores independentes e organizações de direitos humanos calculam em 30 mil o número mínimo de vítimas provocadas pelo esmagamento de uma suposta rebelião contra Agostinho Neto, selvaticamente reprimida pelas forças cubanas que serviam de guarda pretoriana ao ditador marxista-leninista e pela DISA, a sinistra polícia política que fazia do homicídio extrajudicial prática corrente.
A violenta repressão dos «fraccionistas», como eram apelidados no jargão do poder da época, pode ter causado um total de 70 mil mortos. Prolongou-se por dois anos envolvendo torturas, deportações forçadas para campos de concentração e fuzilamentos sem julgamento. Com Neto a dar rédea livre aos esbirros da DISA quando proclamou: «Certamente não vamos perder muito tempo com julgamentos. Nós vamos ditar uma sentença.»
Famílias inteiras desapareceram e os corpos, atirados para valas comuns, nunca foram recuperados. Incluindo o de Bernardo Alves Baptista, conhecido por Nito Alves, que a 25 de Abril de 1974 era comandante militar do MPLA na estratégica região dos Dembos e fora ministro do Interior desde a independência até Outubro de 1976. E também de José Jacinto Van Dunem e Sita Valles, pais de um bebé de três meses que viria a ser criado pela tia Francisca, futura ministra da Justiça em Portugal.
«Amarrem-nos onde forem encontrados: Nito Alves, José Van Dunem, Bakalof, Pedro Fortunato, Betino»; «Todos os fraccionistas pagarão pelos seus crimes», gritava em títulos garrafais o repugnante Jornal de Angola, fiel serventuário do regime, na edição de 31 de Maio. A 18 de Maio, em comunicado, o MPLA concluíra, num macabro aviso para o que se passaria dias depois: «Todas as organizações se depuram.»
A purga, como também lhe chamaram, incluiu matanças a sangue-frio nos cárceres e em locais como a praia das Palmeirinhas. Os mais afortunados – incluindo o actual ministro português da Economia, António Costa Silva, foram apenas vítimas de simulação de fuzilamentos.
Grande parte dos mortos não tinha sequer vínculo ao MPLA: foram apanhados no local errado e à hora errada, a pretexto da “purificação” do partido governamental, como sublinhou a Amnistia Internacional em vários relatórios.
Só em 2021 o Presidente da República, João Lourenço, pediu desculpa em nome do Estado angolano aos familiares dos assassinados, prometendo toda a colaboração das autoridades para a exumação dos cadáveres, a identificação dos restos mortais por equipas forenses e a emissão das respectivas certidões de óbito. Então com apenas 20 anos, a sua mulher, Ana Dias Lourenço, foi uma das militantes aprisionadas na sequência do 27 de Maio.

Apesar do louvável pedido de desculpas, falta fazer quase tudo. Falta, desde logo, criar uma Comissão de Verdade para que o massacre não caia no esquecimento colectivo ditado por conveniências muito selectivas. As mesmas que ainda idolatram Agostinho Neto como poeta, virtuoso humanista e «libertador» do seu povo.
A 21 de Maio de 1977, seis dias antes de esmagar os opositores, o ditador incentivou a população a «fazer um combate contra todos os fraccionistas que encontrarmos no caminho». Espécie de senha para o que logo se seguiu.
Mesmo que nenhum dos torcionários venha a pagar pela participação nestes homicídios, a memória não prescreve. Há que pôr fim à desinformação, à autocensura e aos silêncios, como alerta a Associação 27 de Maio. Há que repetir, uma vez e outra, que isto aconteceu. Uma nódoa inapagável na história do MPLA e da Angola pós-colonial.
ADENDA de 28 de Maio: um leitor chamou-me a atenção para este documentário realizado por Margarida Cardoso e exibido há dois dias na RTP 2: Sita – a Vida e o Tempo de Sita Valles. Vi-o na noite de ontem. Verdadeiro serviço público.

Ontem, na RTP 2: 580/sita-a-vida-e-o-tempo-de-sita-valles
https://www.rtp.pt/play/p10335/e619
“Documentário de Margarida Cardoso que retrata a curta vida da carismática dirigente estudantil”
Obrigado, António. Vou ver com atenção.
Acabo de ver a gravação. E lembro “O Mar em Casablanca”, um excelente livro do Francisco José Viegas, que alude àquele momento.
Vi também. E até fiz uma adenda no texto para chamar a atenção aos leitores. Tenciono escrever sobre este documentário que tanto me impressionou e tanto nos elucida sobre a tragédia africana – longe de se circunscrever a Angola.
Um artigo cheio de verdade, face aos horrorosos acontecimentos. Parabéns ao seu autor.
Obrigado.
convivi com AAN em 1950 por intermédio de Amigo comum.
igualmente um van Duném de que fui Amigo e soube muito do golpe por seu intermédio. discordo do texto. factos são factos. conheço outras versões e todas são coincidentes. não me compete dizer o que sei sobre o Mepelá.
existe uma tese dum Brasileiro sobre este assunto.
Fiquei sem perceber de que discorda, mas também não faz mal.
O problema em Angola era que cada qual em Angola queria a sua própria Angola.
E só um podia ficar com o bolo.
Dizem, não fora a acção da ajuda de cubanos na guerra civil, o mpla teria perdido. E agora teríamos pelo menos quatro Angola, em vez do actual mapa que ficou da colonização portuguesa.
O neocolonialismo cubano marcou Angola durante a primeira década e meia após a declaração de independência.
E provocou um número incalculável de vítimas.
Por trágica ironia, muitos dos mortos pós-27 de Maio pela repressão cubana eram membros do PCP ou tinham estado muito ligados a este partido.
Homicídios sobre os quais o PCP jamais se pronunciou. Continua a ser tema tabu 45 anos depois.
O que torto nasce tarde ou nunca se endireita.
Angola tarda em endireitar-se quase meio século após a declaração de independência. A criminosa repressão subsequente ao 27 de Maio é uma ferida ainda em chaga viva.
Rara é a família angolana que não viu um dos seus ser devorado nessa orgia sanguinária promovida pela clique dirigente com o apoio da tropa cubana e da sinistra DISA.
Tantos anos depois, os assassinados continuam sem uma certidão de óbito – o mais elementar dos direitos.
Muitos permanecem oficialmente “desaparecidos”.
As ossadas de grande parte das vítimas jamais serão encontradas pois os cadáveres foram lançados ao mar ou ao rio.
“dizem” tambem que nessa matança de 27 de Maio e outras, os cubanos tambem ajudaram se não ….!
Dizem que havia comunistas portugueses dos dois lados.