Madeira: na hora do rescaldo


imagenscomhistoria,

Durante meia dúzia de anos (entre 1979  e 1985, se a memória não me atraiçoa) razões profissionais  obrigaram-me a ir à Madeira em Janeiro ou Fevereiro, durante duas ou três semanas por ano. Pude, durante esse período, acompanhar o desenvolvimento inicial da ilha e afeiçoar-me ao território e à sua  gente. A tragédia de ontem marcou-me, por isso, de forma muito profunda.

Passaram cerca de 20 anos até voltar à Madeira. Espantei-me com o seu desenvolvimento, mas não deixei de dar ouvidos a  alguns ambientalistas que me alertaram para atentados ambientais que prenunciavam a eventualidade de uma catástrofe de proporções muito superiores às de 1993.

Aconteceu ontem. Infelizmente.

Não é altura de fazer recriminações, mas também não podemos fazer como a avestruz e fingir que o que se passou ficou a dever-se, apenas, à chuva excessiva. Catástrofes semelhantes vêm ocorrendo com frequência em vários pontos do globo, afectando especialmente as zonas costeirasde forte crescimento turístico. Como vêm avisando há quase 20 anos vários cientistas prémios Nobel, estas catástrofes tornar-se-ão cada vez mais frequentes, mais violentas e localizadas. Uma das causas é o aquecimento dos oceanos, outra é resultante da actividade humana.

Não é momento para criticar o crescimento desordenado do Funchal, mas também não é altura para exigir a quem foi perguntado sobre o assunto (como um dirigente da QUERCUS) que se cale e esconda a verdade.

Não é o momento para tentar tirar dividendos políticos de uma tragédia, como o próprio AJJ fez questão de salientar. Atacar Jardim e o governo da Madeira por ter ignorado as Leis da  Natureza é tão pornográfico como criticar Sócrates pelo facto de não se ter deslocado de imediato à Madeira, ignorando que não o podia fazer, porque o aeroporto do Funchal estava encerrado.

É no entanto o momento oportuno para reflectir no que se passou e tentar tirar algumas ilações sobre o que se passa na nossa orla costeira, para evitar catástrofes anunciadas. O temporal nas vésperas de Natal na Região Oeste foi um aviso para alguns perigos que corre a costa portuguesa, se não arrepiarmos caminho no desenvolvimento acéfalo e dominado apenas pelo lucro, ignorando as Leis da Natureza.

É altura de pensar nos crimes ambientais que se cometem à sombra dos PIN (Projectos de Interesse Nacional) criados pelo governo de Sócrates, para alimentar o lucro sôfrego de alguns investidores na área do turismo e da indústria.

É o momento certo para repensar os Planos de Ordenamento da Orla Costeira. É chegada a altura de não ter medo. Urge derrubar construções clandestinas, em vez de permitir que sejam elas a derrubar membros do governo que desenvolveram exemplarmente as suas tarefas em prol do ambiente. Está na hora de impedir a construção de unidades hoteleiras, centros comercias, ou complexos turísticos em zonas que ocupam os leitos de rios e ribeiras, comprimindo-os de tal maneira, que um dia acabam por se revoltar  .

O que sucedeu nos últimos dias no Algarve é, apenas, um alerta para o que poderá ocorrer, a curto prazo, em toda a costa portuguesa, onde a construção clandestina e desordenada ameaça seriamente o futuro.

A incúria dos homens  tem exercido também um papel relevante na destruição, e sobre isso falarei num próximo post.  Por agora, apenas me permito lembrar a importância de ter um serviço público de rádio e televisão.

17 comentários em “Madeira: na hora do rescaldo”

  1. Idem idem, aspas aspas, não podia estar mais de acordo, da primeira à ultima linha. O triste e desesperante disto tudo é que o arquitecto Ribeiro Teles já falava e alertava para o perigo da construção em leito de rio há mais de trinta anos.

    1. Desde a cimeira de Estocolmo em 1972, Ariel, que há avisos. Os ambientalistas cépticos, porém, continuam a defender que as questões ambientais nada têm a ver com a intervenção do Homem. Os Criacionistas também reduzem tudo a castigos divinos…

  2. As imagens que hoje nos foram chegando, algumas feitas durante as horas mais críticas, outras que mostram o resultado da tragédia, dizem-nos que nada havia a fazer.
    Mesmo tirando umas toneladas a mais de entulho ou pedras de uma ribeira, ou proibir a construção de umas quantas casas em locais menos próprios, não evitaria a devastação que ali aconteceu.
    Prova também que muitos dos sabedores de todos os males, conhecedores de todos os remédios, que ontem de imediato vieram a público, famintos de protagonismo, criticar, denegrir, enxovalhar, perderam a melhor oportunidade das suas vidas de olharem para as suas próprias consciências e terem um pingo de vergonha.
    Como muito bem diz, Carlos, há que aprender com os erros e no mínimo, sair da frente, se possível e a tempo.
    Infelizmente não serão estas catástrofes que limitarão a ganância ou porão travão aos interesses.
    Até porque à semelhança do que recentemente aconteceu no Haiti, é uma questão de dias até passar o choque e esquecermos o que aconteceu e acharmos que o mal, mais uma vez, só acontece aos outros.
    Podemos continuar a alimentar a esperança que um dia alguém se preocupe, mas até lá, é esperar que AJJ não queira a independência e que o Continente possa contribuir para a recuperação de uma zona deste nosso lindo país, para que possa voltar a brilhar como uma linda pérola no meio do Atlântico.
    A cordialidade, humildade e simpatia do Madeirenses, merecem-no.

    1. E já agora, ToZé, também me parece oportuno lembrar o que MRS disse hoje na RTP. Depois de, há uma semana, ter chamado a Sócrates mentiroso compulsivo, hoje veio enaltecer o seu sentido de Estado deixando bem claro que o aproveitamento político que se faça desta matéria, é mero oportunismo.

  3. Os planos de ordenamento são os mais destacados candidatos maiores contribuidores para esta tragédia.
    Mas tenho para mim que as perguntas devem ser colocadas pelo inicio, para não dispersar a discussão. A pergunta para a qual se deve procurar resposta é se estes acontecimentos deviam ter sido previstos – qual a probabilidade de acontecer acontecer o que aconteceu: 1 vez em 100 anos, 1 em 300, 1 em 20?
    Em Entre-os-rios, como no Oeste há poucas semanas, muitos se perderam a discutir várias teorias mas a pergunta correcta, a que permite identificar se há responsáveis, é só uma: isto foi previsto com que probabilidade?
    O desastre madeirense (http://pensasmal.blogspot.com/2010/02/o-desastre-madeirense.html)

  4. “o que aconteceu nos últimos dias no Algarve”

    No Algarve não aconteceu absolutamente nada. Havia umas casas que uns indivíduos construíram onde não as deviam ter construído, veio o mar e destruiu-as, e prontos, ficou o problema resolvido e nós nada temos a ver com isso. Não é um problema porque já está resolvido, pelo mar. Anda bem que o mar resolveu o problema, assim evitou ter que sermos nós a gastarmos dinheiro com ele.

  5. Não consigo ver a relação entre o temporal na região do “Oeste” e a orla costeira. Houve um temporal nessa região, como poderia ter havido em qualquer outra. É normal que um temporal destrua estruturas agrícolas e parques de campismo. As estruturas agrícolas estavam naquelas terras porque elas são produtivas e férteis. Há estruturas agrícolas em muitos sítios férteis, costeiros ou interiores, e em qualquer deles pode ocorrer um temporal.

  6. só uma nota : sic noticias /domingo – jo berado pode explicar o fenomeno que aconteceu na sua terra?
    -sim , sim . eu estou no continente mas sei que o que aconteceu na madeira foi um fenonemo unico no mundo, desconhecido até então, jamais visto e já tenho a confirmação de amigos brasileiros. na madeira deu-se um tsunami de cima para baixo, começou no pico do areeiro e veio até ao funchal parar ao mar.
    -…. …. … muito, muito obrigado pelos esclarecimentos que nos deu.

  7. Eras ilha paraíso
    Cheia de encanto e beleza
    Ate que foste fustigada
    Pela força da natureza

    Pela força da natureza
    Que chegou sem avisar
    Destruindo vidas inteiras
    Deixando Portugal a chorar

    Deixando Portugal a chorar
    Por aqueles que partiram
    Pelos que agora nada têm
    Perdendo o que construíram

    Perdendo o que construíram
    Ficando simplesmente sem nada
    Madeira, não é a mesma
    Que tanta vez foi falada

    Que tanta vez foi falada
    Que foi marcada na historia
    Mas este dia infernal
    Ficará para sempre na nossa memoria.

  8. Gostei.
    Gostaria de chamar a atenção para mais alguns pontos:
    Alberto João tem responsabilidades na catástrofe.
    Não estamos a falar de um novo dilúvio: A chuva que caiu na Madeira foi pouco mais de metade da que caiu na Andaluzia.
    Alberto João tenta condicionar a liberdade de informação pelos prejuizos que o turismo pode sofrer.
    Alberto João continua nesta hora de aflição para o “seu” povo a dar notas de arrogância: nada de ajuda externa (a França, a Espanha e os Açores, ofereceram ajuda, de pronto rejeitada.).
    Venham milhões para a Madeira, que Alberto João vai administrá-los à sua maneira.
    A Madeira tem sido, ao longo dos anos, governada no interesse do turismo e não no interesse dos madeirenses.
    Espero que as mortes de agora não sejam em vão.

  9. Carlos, as televisões estão hoje a divulgar alguns relatos de pessoas que VIRAM mortos em vários locais, até afirmam ter visto a policia meter esses mortos nas bagageiras dos carros da policia.
    Estas declarações estão a contrariar o numero oficial de mortos.
    Tenho a sensação de que algo de anormal se estará a passar.
    Nem quero imaginar, que aquilo que já pensei poder estar a acontecer, seja só isso mesmo, imaginação minha.
    Estou a contradizer-me, ao fazer este comentário extemporâneo e que espero, peque por precipitado.
    Que acha disto?

    1. Ontem, pessoa amiga na Madeira falou-me disso e de outras coisas que não têm vindo a lume. Escrevi um post mas, como não pude confirmar, não o pus no ar. Soube pela TSF que se confirmava o que me tinham dito e, depois de ler o seu comentário, fui ao site da RTP onde, várias peças, vão no mesmo sentido.
      Escrevi um post a colocar várias questões, lá no CR. No entanto, não creio que se possa dizer que estamos perante um caso de Censura. Trata-se, em minha opinião, apenas de embargo noticioso – o que é muito diferente e pode ter justificações plausíveis.
      Agora que “a bota não bate com a perdigota” em diversas situações, disso não tenho quaisquer dúvidas.

      1. Não foi censura que pensei, mas manipulação, fria, calculista…
        A explicação de hoje, sinceramente não me convenceu, mas é possível… Vamos ver.
        Entretanto foi com alguma surpresa que ouvi AJJ dizer que começou um novo ciclo político e que o passado ficou para trás.
        Enalteceu o apoio do PR, PM e do Povo do Continente.
        Engoliu muitos sapos de uma vez, mas pareceu-me… sentido.
        Se bem que no jornal da tvi, à noite, já parecia o mesmo de sempre.
        Burro velho…….
        Mas de uma coisa quase tenho a certeza.
        Nunca mais ouviremos AJJ dizer mal do Continente nem do seu Povo.

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