Ouço, a todo o momento, jornalistas e comentadores referirem-se a Angela Merkel chamando-lhe “senhora Merkel”. Como se fosse a Dona Rosa do lugar da hortaliça. Isto podia obedecer a um critério, mas não obedece. Os mesmos jornalistas e os mesmos comentadores não aludem a Barack Obama chamando-lhe “senhor Obama”. Nem a Vladimir Putin chamando-lhe “senhor Putin”. Nem a Durão Barroso chamando-lhe “senhor Barroso”. Nem ao Presidente venezuelano chamando-lhe “senhor Chávez”. Nem ao Chefe do Estado angolano chamando-lhe “senhor Santos”.
Existe um preconceito óbvio nesta forma de tratamento jornalístico da chanceler germânica. Não certamente por ser alemã, mas por ser mulher. Acho indefensável esta forma de machismo insidioso, aliás com precedentes: quantos de nós não ouvimos apelidar Margaret Thatcher de “senhora Thatcher” com o mesmo suave desdém reservado às mulheres que ousam atingir elevados cargos no universo político?
Confesso não espantar-me por ouvir Mário Soares aludir vezes sem conta à “senhora Merkel” enquanto faz vénias rasgadas ao “Presidente Obama”. Todos nos lembramos da forma descortês como se referiu a Nicole Fontaine quando esta o derrotou em 1999 na votação para a presidência do Parlamento Europeu: com mau perder, procurou desvalorizá-la chamando-lhe “dona de casa”. Suponho que não tardou a arrepender-se de ter cometido tamanha deselegância.
Já me espanto por ver comentadores e jornalistas muito mais jovens, com idade para serem netos de Soares, falarem do mesmo modo. E o espanto aumenta ainda mais um pouco quando são mulheres a falar desse modo.
Falam, no fundo, como se avalizassem essa inaceitável modalidade de machismo. E o pior é que, na primeira oportunidade, talvez estejam sempre disponíveis para chamar ‘machista’ a outros.


E onde foste tu buscar esta fotografia tão cheia de photoshop , Pedro?
‘Senhora Merkel ‘ deve ser tradução literal de Frau Merkel . O preconceito de ser alemã também é uma possibilidade. É o que não falta por aí. O mais irónico é que acusam os alemães de ser o que eles próprios praticam: uma xenofobia e preconceito execráveis.
Esse fotografia “photoshop” deve ter pelo menos dez anos. A senhora também já foi nova, como todos. Porque é que as mulheres são tão mázinhas umas para as outras? 😉
Não é uma questão de ser nova ou velha. O que lhe garante que eu não sou uma carcaça igual? Basta não se ser cego 🙂
Ei, calma aí! Eu posso afiançar que não és (qual é a tua expressão?) nenhuma “carcaça igual”.
Não acho que seja machismo. É mais para criar distância da figura que é representada como a “má” da fita. Tal como Thatcher. É o tipo de discurso construído pela esquerda que introduz sempre uma nota popular ou rocambolesca para desvalorizar os seus supostos adversários. Estes gajos são uns pedinchas e uns vígaros que aldrabam as contas quando ninguém está a olhar, mas a “alemona” é que é a má da fita. É a reitora, a madrasta, etc… É ridículo: esta malta não evolui nem à lei da bala, quanto mais à lei da ortografia “moderna”…
E por falar em aldrabar contas: http://sol.sapo.pt/inicio/Sociedade/Int erior.aspx?content_id=52987
É, não é? Igualmente absurdo é personalizarem a coisa, como se a política alemã fosse somente responsabilidade da Merkel, qual “megera”. Bastava estar um “camarada” do SPD no poder que eles “largavam” logo os cordões à bolsa, não? Se Gerhard Schröder ainda estivesse no poder, de longe o menos europeísta e atlantista dos chanceleres alemães, seria muito pior. Esse aproveitava mas era a crise para acabar com UE e entender-se com a Rússia. Há pessoas que têm a memória curta.
De facto nunca me lembro de um tratamento jornalístico semelhante a outros políticos alemães. Nada de “senhor Schröder” ou “senhor Brandt” ou “senhor Kohl”. A todos estes políticos (homens) era reconhecido nome próprio. Até ao Hitler, caramba.
Essa é a ironia não é Leonor? A Alemanha tornou-se o bicho papão da Europa, por vezes com alguma razão outras sem razão nenhuma. O que ninguém parece compreender é que o suposto comportamento dos alemães começa a ser carregado ás costas por toda a gente na Europa..
Já o disse várias vezes: os alemães não são a Merkel e a Alemanha não parou em 1945 como muitos insistem. Ignorância, ignorância pura.
Ja, natürlich.
Pois claro que está mal … deviam referir-se a Angela Merkel como “a Chancelera”, seguindo o exemplo da sua “amiga” Dilma, “a Presidenta”.
Se Dilma é “presidenta”, Lula também seria? No presento, Lulo seria certamento “presidento”.
Sei, isso sim, que Lula nunca seria tratado por “senhor Silva” pelos jornalistas e comentadores portugueses que estão sempre a falar na “senhora Merkel”.
Tens razão, senhor compadre.
Creio que esteia mais simples comparar o tratamento dado a Merkel ou a Segoléne Royal, por exemplo, que nunca foi mademoiselle Royal…
No entanto, creio que, talvez, o senhora de Merkel traduza sem que eles mesmo se apercebam, a noção de alguém com efectivo e real poder.
De notar, também que o tratamento de senhor, Mister, Monsieur, etc é normal na imprensa estrangeira e que o Mrs. Merkel é normal em Ingaterra.
Apenas o igualitarismo de uma sociedade bloqueada, falida e boçal retira os títulos de cortesia.
Frau Merkel é normalíssimo na Alemanha e a forma como é tratada.
Um mau hábito depois mimetizado, se calhar sem consciência.
O melhor paralelo que encontro é a forma como os media se referiam ao Bispo de Timor: “Dom Ximenes Belo”…
Como se o prelado não tivesse nome próprio (Carlos) e como se porventura usássemos por cá o equivalente : -Dom Tavares Rebimbas? -Dom Nascimento Clemente?
Dom Torgal Ferreira?
Haha:) Dona Isabel II? mas concordo com a Laura, julgo que é mais mimetismo que outra coisa…
Certo, Senhor Bandeira.
Olha, fui ver e também eu pequei: no mesmo dia em que escreveste este post, eu enviei um boneco para o jornal em que uma senhora rural se refere à chanceler como “senhora Merkel” (saiu no dia seguinte, mas garanto que não foi provocação). São os personagens quem fala, não eu, mas isso não me iliba: terei mais cuidado para o futuro, que no que dizes há ‘food for thought’. notei outro facto curioso – não faço, nem de perto, tantos bonecos sobre… hum… Angela Merkel quanto imaginava. Por fim, e no que pode ser considerado caso para sofá de psicanalista, verifiquei que me referi quase sempre ao presidente da UEFA como… senhor Platini.
No caso do Platini, meu caro, acho que pecas por excesso de complacência. Tenho esse senhor atravessado desde 1984.
Concordo plenamente, mas acho que isto também pode ser considerado um “lamber de botas”. A Merkel, perdão, a senhora Merkel, deve ser a mulher mais poderosa da Europa neste momento e ninguém quer chateá-la.
Mas enfim, o mundo está quase perdido e toda a gente o sabe…
“Cusquem” o meu blogue: pensamentosvida-marianocas.blogspot.com
Beijos, Marianocas.
Muito sucesso para o novo blogue, Senhora Marianocas.
“Não acho que seja machismo. É mais para criar distância da figura que é representada como a “má” da fita. Tal como Thatcher. É o tipo de discurso construído pela esquerda que introduz sempre uma nota popular ou rocambolesca para desvalorizar os seus supostos adversários. “
Precisamente. Como foi já dito a Dilma não é a “senhora Dilma”. É a Presidente Dilma.
Tal como o Ditador é o Pinochet.
Castro, Assad, Saddam, Kadafi são Líderes.
De facto, nunca ouvi ninguém chamar-lhe ‘senhora Dilma’. E muito menos ‘senhora Roussef’.
Mas este “machismo insidioso” existe alhures.
Nas casas-de-banho, há “homens” e “senhoras”.
Da mesma forma, nos desportos há competições para “homens” e “senhoras”. Nunca para “mulheres” – que é o feminino de “homens”.