O sucesso desta década pode ser creditado a muitas personalidades, mas antes de mais, e com toda a justiça, a Edmund Ho. O chefe do Executivo macaense esteve à altura dos desafios que o cargo lhe impunha, governando com o discreto talento de negociador e de árbitro de conflitos que já demonstrara noutro plano, como dirigente empresarial e vice-presidente da Assembleia Legislativa, durante a administração portuguesa. Teve, para o efeito, o melhor dos mestres: o seu pai, Ho Yin, ainda hoje justamente recordado como um dos homens a quem Macau mais deve, estabelecendo pontes entre as diversas comunidades locais mesmo nos momentos de maior tensão política.
Preferia, claro, que não se cultivasse tanto um certo novo-riquismo kitsch em certas edificações turísticas apostadas em tornar o território numa réplica parola de Las Vegas. E gostaria sobretudo que se tivessem dado passos mais audaciosos no plano político. Durante demasiado tempo, vigorou na administração portuguesa uma mentalidade ainda contaminada por resquícios coloniais: encontrei-me, nos anos 90, entre os que consideraram imperdoável que Portugal não estimulasse com maior vigor em Macau o exercício de direitos comuns em todo o mundo livre – do direito à greve à liberdade de constituição formal de correntes políticas, além do alargamento, que continuo a achar indispensável, do voto directo dos cidadãos para a escolha dos deputados da Assembleia Legislativa. Faltou alguma ousadia neste domínio – e continua a faltar. Mas noutras áreas, como o combate determinado à corrupção, têm sido dados passos firmes. E chego até a pensar que Portugal podia receber boas lições de Macau neste domínio, sabendo nós como a corrupção é um fenómeno em expansão contínua nestes tempos de economia precária e de lassidão moral que facilmente contamina as instituições.
O que mais lamento, nestes dez anos, foi ter visto partir alguns amigos de longa data que tive o privilégio de conhecer em Macau – amigos como o professor José Silveira Machado, o pintor Nuno Barreto e o padre Francisco Fernandes, entre outros. Mas esta é uma consequência da natural erosão do tempo, que a distância física acaba por tornar mais dolorosa. Entre os motivos de congratulação, que felizmente são muitos, permito-me destacar a manutenção de órgãos de comunicação social que se exprimem (e bem) em português. Nenhuma sociedade é verdadeiramente adulta sem imprensa livre e responsável. Tanto mais responsável por ser livre, tanto mais livre por ser responsável.
Publicado no jornal Hoje Macau


Sou sua leitora assídua aqui e no Hoje Macau. Parabéns por este conjunto de posts, tão oportuno.
Tó tché.
Justa e oportuna a lembrança de 3 homens que nos deixaram e que tanto amaram Macau: Silveira Machado, Nuno Barreto e o padre Chico. Ainda bem que os referiste.
Três pessoas, entre tantas outras, que muito gostei de conhecer em Macau, Sérgio. Tal como também gostei de conhecer Roque Choi, entretanto também falecido. Conhecemos lá personalidades inesquecíveis. Macau atraía (e atrai ainda) gente que tem sede de aventura, o que ajuda a perceber melhor por que motivo há lá tantas figuras cuja vida daria um livro. Ou um filme.