Não sei se Lula da Silva é culpado ou não daquilo que o acusam. Não acompanhei devidamente o processo judicial, não sei se as provas são suficientes e fidedignas, ou se Lula obteve vantagens pessoais. A verdade é que já vamos na segunda instância e o tribunal de recurso até endureceu a condenação. Mas se Lula não cometeu mesmo os actos de que é acusado, e se não obteve vantagens pecuniárias para si mesmo, cometeu pelo menos o crime – ou o pecado – de omissão pela rede clientelar e de corrupção que o PT semeou no aparelho de estado e organismos a ele ligados.
Seja como for, a candidatura presidencial do mentor do Partido dos Trabalhadores parece estar por um fio. As sondagens mantêm-no à frente da corrida. Os seus apoiantes clamam que é o único candidato “capaz de unir a esquerda”. Daí minha admiração: não haverá mais nenhum candidato de esquerda com hipóteses ganhadoras? É só mesmo um político que está há quarenta anos no activo? Isto também diz muito da esquerda brasileira. Seria como se a direita portuguesa recorresse a Cavaco Silva para se “unir”.
Entretanto, olha-se para o friso de candidatos que já se perfilam às presidenciais deste ano – além de Lula temos Geraldo Alckmin, Marina Silva, Ciro Gomes, Jair Bolsonaro e Manuela d´Ávila – e lembramo-nos da velha piada académica: há candidatos bons e originais; mas os que são bons (com grandes dúvidas), não são originais; e os originais, como a comunista Manuela d´Avila, e sobretudo o sinistro e inenarrável Bolsonaro, não são bons. Espero que Deus seja mesmo brasileiro, para acudir àquele imenso país.


Também não sei se Lula é culpado do que o acusam e reconheço não estar por dentro dos meandros do caso. Mas, embora seja claro que não foi isso que escreveu e apenas deu um exemplo de candidaturas à esquerda e à direita, sei uma coisa, Lula da Silva não é pessoa comparável a Cavaco Silva: nem na personalidade e trato pessoal, nem em termos de acção política. São duas mentalidades em absoluto diversas. Seja Lula culpado ou inocente (e a mim parece-me mais inocente que culpado e julgo tudo o que se está a passar um golpe para o afastar do poder), não há que duvidar: foi o presidente mais popular e mais querido pelo povo e aquele que mais fez para melhorar as condições de vida do imenso mundo sem eira nem beira do povo brasileiro. O poder das esquerdas é sempre de temer, tem aquele mau hábito de estar do lado dos mais pobres. O que assusta o outro lado que não quer perder o pódio e nem a postura medieval.
Também não sei de que serviria encontrar um outro candidato de esquerda. Vimos o que aconteceu a Dilma e a outros candidatos. E antevemos o que acontecerá se a esquerda lançar um candidato com hipóteses ganhadoras.
Tenho certeza que Deus não é brasileiro, o argumento da perfeição convence-me. Mas aquele povo bem precisava que fosse. Que não lhe vemos caminho.
Talvez haja mais semelhanças na acção política do que imagina: Cavaco Silva pode ser o mais distante possível de Lula em termos de personalidade, mas ganhou várias eleições com maioria mais que absoluta e no tempo do seu governo as condições de vida dos portugueses melhoraram muito (também se pode dizer que teve a sorte de governar em época de paz e no seguimento da adesão à CEE). Mas a comparação era mais com o tempo que ambos levaram de vida política – pelo menos desde 1979.
Não me parece que um candidato de esquerda vá forçosamente fracassar: talvez a justiça esteja a ser severa com Lula (Dila é mais um caso político), mas mais para mostrar serviço e não tanto para conspirar contra facções políticas. Aliás, outras figuras que não do PT estão também sob alçada da justiça