Fala de si próprio na terceira pessoa, como Júlio César e Mário Jardel. Garante que existem "condições de governabilidade", sem gaguejar no palavrão. Diz aos portugueses que o Presidente da República "não pode demitir o Governo por falta de confiança política", como se alguém tivesse a mínima dúvida nessa matéria. Elege a "estabilidade" como valor supremo na política. Confessa estar "sereno" e "tranquilo" num país que tem 560 mil desempregados e 20% dos jovens sem perspectiva de trabalho. Gaba-se de nunca ter vetado um só diploma do Executivo, como se isso lhe devesse granjear mérito. Aponta o caminho à oposição: deve haver "um entendimento alargado" com o Governo relativamente ao Pacto de Estabilidade e Crescimento. Assegura, contra todas as evidências, que a "cooperação estratégica" entre Belém e o Governo "está viva". Admite que o Procurador-Geral da República só lhe transmite o que muito bem entende, o que não parece perturbá-lo. Debita banalidades como esta: "Ninguém ganha com o descrédito da justiça." Ou como esta: "Os partidos políticos são fundamentais na nossa democracia."
Há muito tempo que não me era tão penoso assistir a uma entrevista televisiva de um Presidente da República, recheada de lugares-comuns. Quatro anos depois de ter tomado posse como chefe do Estado, Aníbal Cavaco Silva ofereceu a si próprio uma prenda de aniversário que pouco ou nada honrou esta efeméride.

adormeceu Portugal.
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Caro Pedro!
Não podia estar mais de acordo com o que escreve.
A entrevista, nalguns casos, chegou a ser penosa.
Como cidadão, ainda por cima votante em Cavaco, estou desiludido.
Não que defendesse “bombas atómicas” ou outro “armamento”… Mas esperava MUITO mais e melhor de Cavaco.
Mas, lá está, Portugal tem os governantes que merece… E os Presidentes também!…
Cumprimentos.
É um bom alerta para os eleitores. De facto, foi confrangedor não ter nenhuma mensagem importante a transmitir ao País em 50 minutos de entrevista.
Abraço, meu caro.
Não “façarei” mais comentários sobre a entrevista, porque realmente o Pedro Correia já disse tudo e muito bem.
Agradeço as suas palavras. E aproveito para cumprimentá-la pelo seu blogue.
Excelente análise. É a III República nos seus últimos dias.
Cada vez entendo melhor os monárquicos, meu prezado amigo.
Pedro, a análise seria excelente se não lhe tivesse escapado um pormenor essencial…o homem estava a ser escutado!
(mas falou em código, verá amanhã a quantidade de decifradores…)
Ah, então foi isso…
Este Mr. Prez (a falar) aborrece (qualquer um/a ?).
Nem lhe dispensei 1h pois o que ouvi… (uma vez mais) aborreceu-me.
Preferi vir “lê-lo” aqui :: por sua via 😉
Viva, Cartas. Muito gosto em vê-la por cá novamente. Há quanto tempo…
Pois, que só vi durante alguns minutos, não aguentei muito mais aquela voz fanhosa, aquele acentuar, enérgico/autoritário, da primeira síbala de cada palavra proferida por s.exª pres., enfim, aquela cara de cão, tão pouco estética, mais tempo na minha sala
Enquanto o escutava, Lili, ia imaginando desenhar-se naquele rosto anguloso um bigode largo de pontas finas, já branco. E umas dragonas de marechal. Escutava Cavaco e a imagem que me aparecia no ecrã era a de um outro Presidente da República.
Pois é, todos sabemos que não podemos esperar de Cavaco Silva uma noite televisiva feita de reflexões galvanizantes ou de manifestos mobilizadores. E se não sabíamos isso de antemão, é porque andámos muito distraídos durante décadas 🙂
CS é igual a si próprio E dado que não cacareja por aí todos os dias como qualquer político, esteve a falar para si, para mim e para todos os portugueses. Isto é, para a grande maioria que não tem a certeza que o PR possa demitir ou não um governo por falta de confiança política. Para a grande maioria que pressente – mas precisa de ouvir isso da boca dele – que não é por causa do PR que o governo perde diariamente condições para governar (e que portanto existe mesmo cooperação estratégica). Para a grande maioria dos portugueses que percebe à légua – e até aprecia – o sentido do uso da terceira pessoa, aqui a distinguir duas coisas confiavelmente diferentes: “o” Cavaco Silva pessoa e “o” Presidente da República. Porque há depois um saldo acrescido comum: a certeza de um homem firme e sem tentações de poder.
Neste particular isso funciona, realmente, como você diz: ora Júlio César, ora Jardel…
Ou de como as coisas simples e chãs se aproximam às vezes das grandes sofisticações filosóficas. É mais ou menos como o plural majestático: trata-se de uma “3ª pessoa de modéstia”. E de certeza que é assim que o povo a percebe.
Cara leitora,
gostaria de ter escrito o que escreveu. Como não o fiz, resta-me subscrever inteiramente.
Se o problema deste nobre povo fosse o Presidente da República (que não “o Cavaco” porque as instituições democráticas exigem respeito e solenidade), não estaríamos tão pobres… de sobretudo de elites. São estas que, em vez de produzirem mais dramaturgia, mais ciência, mais tecnologia, mais poesia, mais arte (honra às excepções!), se entretêm com lateralidades e futilidades. Veja bem que até questionam “se o primeiro-ministro tiver mentido, qual é o problema?”. Está tudo dito!
Já que não teve a coragem de prestar um enorme favor ao país e ter-se demitido, só resta “activar a bomba atómica” com alvo fixo ali para os lados de Belém….
Isto para o caso de ter a lata de se recandidatar.
Alguém contou quantas vezes disse: “o Presidente não pode…” “o Presidente não deve…”
Adormeci a meio da contagem.
É isso, exactamente… Sem tirar nem pôr. Diz tudo o que eu gostaria de ter dito (…mas não disse…).
Mas disse à mesma. Assim.
(vá aparecendo)
E na única vez em que não falou na 3ª pessoa, disse: afastei-me completamente do partido político a que pertenço.
Essa é candidata a uma das melhores frases do ano. Uma das mais risíveis, pelo menos.