Losers


Teresa Ribeiro,

C:\Documents and Settings\Admin\Ambiente de trabal

 

Loser é um insulto que ouvimos com tanta frequência nos filmes e séries de tv americanas que mais parece um tique de linguagem. Entre nós “és um falhado” pode dizer-se, mas não andamos por aí a ouvi-lo na rua. Imagino-o a aplicar-se só em contexto dramatico-telenovelesco e mesmo assim em privado. Parece que não, mas soa mais pesado que um vulgar “és um merdas”, algo que facilmente concebemos ouvir alguém proferir à porta de um café ou em frente a um grupo de amigos. Há até quem use o impropério com bonomia “anda cá meu merdas, dá cá um beijinho”. E quem diz este, diz outros, até mais cabeludos.

A diferença entre este género de insultos e o estrangeirado “és um falhado” está logo à partida na forma como os pronunciamos. A emoção que carrega o nosso vernáculo retira-lhe conteúdo, pois é sabido que o que dizemos com raiva não corresponde necessariamente ao que pensamos. Loser, sempre o senti, possui a frieza de um golpe de arma branca. Começa no tom, que não é de raiva, mas de desprezo. Não julga o carácter, mas a capacidade de sobrevivência. É um chumbo numa sociedade onde ter sucesso e ser popular é tudo. E é aqui que se chega à questão da filiação ideológica do vitupério americano. Loser é um anátema. Corporiza tudo o que não se quer ser numa sociedade que odeia falhados.

Claro que também por cá não nos faltam recursos linguísticos para humilhar o próximo. A diferença que por enquanto existe entre uma sociedade como a americana e a nossa é que ainda não é compulsiva, mecânica e massiva a utilização do insucesso como arma de arremesso. Mas tudo indica que estamos quase lá. Há dias, no cinema, um anúncio a uma aplicação para telemóvel rematava com o icónico vocábulo. “Loser“, assim mesmo, sem tradução. Para que o conceito passe com toda a sua força expressiva e fique.

0 comentários em “Losers”

  1. Talvez a razão de ainda não nos andarmos a atacar com o fracasso pessoal uns aos outros resida no facto de nos sentirmos atacados como fracasso enquanto país. É uma infeliz conclusão que espero não ter fundamento mas talvez o facto de sermos mais “desgraçados” enquanto conjunto nos faça mais solidários enquanto indivíduos. Vantagem da desvantagem, porque a massa da qual se fabricam pessoas é toda a mesma.

    1. É uma leitura possível, mas muito pessimista, Ana. Prefiro acreditar que a nossa maior solidariedade tem raiz na cultura humanista que faz da Europa, apesar dos pesares, ainda um dos melhores locais para se viver.

  2. Com todo o respeito Teresa Ribeiro, são textos como o que escreveu que explicam porque é que um país como o nosso que teve todas as oportunidades durante os seus quase nove séculos de existência, não passa da “cepa torta”.
    O problema não é a suposta arrogância dos winners, é os loosers pensarem que o sucesso tem de lhes cair no colo por obra e graça do “Espirito Santo” (juro que não estou a ironisar).
    O suposto igualitarismo que é lei em Portugal, é o maior obstáculo ao desenvolvimento deste país. Eu vivo na província e acredite que lhe podia estar aqui o resto da tarde a relatar exemplos do imobilismo reinante e de como os imobilistas, muitas vezes vistos como winners, anulam quem quer que queira fugir ao ritmo lento e bastas vezes parado, que eles impõem.

      1. Precisamente. Construir pelos vistos algo é de Direita, não admira que a Esquerda seja um desastre moral.

        Por cá sempre ouvi: aquele nunca fez nada da vida, aquele desperdiçou a vida, etc… tudo variações do looser.

          1. Se quer um sociedade dependente do Estado obviamente que temos muito ancorada numa certa ideologia de boa parte(95%?) da esquerda a critica à palavra looser.

            Pois é disso que estamos a falar. A institucionalização do falhanço e o consequente nascimento da burocracia e empregos à custa dessa sociedade de falhados. Tal como o vasto complexo político de exploração e criação da pobreza.

  3. Uma bela reflexão, como sempre Teresa. Só um reparozito… é “loser”. “Looser” seria algo como “solto”. Poderíamos ver os dois como semelhantes, é certo, mas seria necessária um pouco de imaginação

      1. Nem por isso Teresa. A mim quase me escapou e tive de ir confirmar :). Quando não usamos a língua no dia a dia isto pode acontecer. Aliás, há imensas pessoas cuja língua materna é o inglês que dão erros uns atrás dos outros, e de palmatória. O teu é sinceramente menor 🙂

  4. Os Winners e Losers, de utilização Norte- Americana, definem de fato a mentalidade que está na essência WASP (whites anglo-saxonic protestants), e portanto algo que historicamente, nos passou completamente ao lado.

    A nossa mentalidade foi esculpida pela inquisição, onde os pobres são filhos de pobres e os ricos são filhos de ricos e quem não se conforma com a situação, está tramado.

    Essa é uma das razões do nosso Sebastianismo, é uma das razões que nos faz fugir do retângulo, ir para França, para a Alemanha e não só, onde somos considerados tão bons ou melhores do que os outros e onde a ambição é apoiada, incentivada e remunerada.

    Um amigo meu de infância emigrado para a Austrália nos idos de 1975 é disso um exemplo flagrante; tentou regressar nos meados de 90 e ao fim de um ano, desistiu.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *