Palavras preliminares: detesto deixar um livro a meio. Quase tanto como detesto começar a ver um filme já depois do seu início.
Lembro-me, ainda hoje, como há quase 30 anos deixei por ver o célebre Andrei Rubliov, de Andrei Tarkovsky, que passava apenas naquela noite em sessão especial numa das salas do saudoso cinema Quarteto, em Lisboa. Estava num grupo de três pessoas em que se integrava alguém com irremediável vocação para o atraso. Por azar, era a mesma pessoa que na véspera se havia encarregado de comprar os bilhetes para a sessão, esgotadíssima no dia da projecção. Quando chegou enfim, já a fita rodava há uns bons dez minutos: na sala escura, o ecrã iluminava-se com imagens a preto e branco para mim incompreensíveis. Confesso que ainda tentei entender o que se passava no ecrã, mas sem sucesso: mal conseguia captar o enredo e cedo me convenci de que – como sucede em tantas obras-primas do cinema – Citizen Kane, de Orson Welles, 2001 – Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, e Psico, de Alfred Hitchcock, por exemplo – aqueles minutos iniciais que tinham sido perdidos prejudicavam a visão integral do filme. Ao intervalo, pretextando já não sei o quê, ausentei-me – e até hoje, por algum motivo, nunca consegui ver Andrei Rubliov.
Tem-me sucedido algo semelhante com muitos livros: deixo-os a meio. Havendo uma diferença assinalável: é bastante mais fácil retomar a leitura. Basta pegar neles e abri-los, não é necessário nenhum aparelho para o efeito e muito menos esperar por algum ciclo especial da Cinemateca que se lembre enfim de mostrar aos cinéfilos portugueses como eram os filmes produzidos na defunta União Soviética.
Mas só é fácil em teoria. Não sei se convosco acontece o mesmo: há livros que se fecham para nunca voltarem a ser abertos. Pelos mais diversos motivos. Ou porque nos entediaram fatalmente ou porque prometiam algo que afinal não eram capazes de oferecer ou porque alguém pegou neles e nunca mais os devolveu ou simplesmente porque se intrometeram outras obras literárias, muito mais apelativas, roubando o lugar que à partida pertencia às primeiras.
É destes livros que ficaram pelo caminho que me proponho falar aqui, todas as semanas. Cada caso é um caso. Mas é destes pequenos caprichos do destino, destes encontros e desencontros com as obras mais diversas, que se vai fazendo também o nosso percurso enquanto leitores – tantas vezes marcado por felizes ou desditosos acasos.
E – não esqueçamos – há ainda aqueles livros que têm precisamente a vocação de serem lidos vagarosamente, duas páginas hoje, três páginas depois de amanhã. Sem pressas, sem promessas antecipadas de alguma vez chegarmos a conhecê-los por inteiro.
De tudo isto se faz a leitura. E é também por isto que ler é tão bom afinal.


Ora aí está uma ideia original e muito curiosa. Venham eles. Posso sugerir um de Maria Gabriela Llansol…
Eheheh. Já tenho 13 textos escritos. Espero que esta série vá pelo menos até ao número 20. Essa autora, digo desde já, não consta.
A vida é demasiado curta para beber mau vinho, diz-se por aí, e eu acrescentaria ‘para ler maus livros’. Dito isto, já deixei muitos a meio, Pedro, e sem remorsos.
Como eu, Leonor. Cada vez subscrevo mais essa frase. Mas podemos deixar livros a meio por vários motivos: às vezes por motivos totalmente contrários à nossa vontade. Isso mesmo procurarei contar – em jeito memorialístico, pois as palavras são como as cerejas – ao longo desta série, que espero prolongar por 20 semanas.
Tens razão, Pedro. Ando ali a moer o último Agualusa, e a pensar se não o deixo pelo caminho. Foi de tal maneira que o pus de lado e mergulhei no Mentiras & Diamantes.
Ao fazer a lista (provisória) dos livros que deixai a meio, percebi como dela constam vários livros considerados “obrigatórios” ou “indiscutíveis”, duas palavras que abomino quando se trata de literatura. Em arte não há nada indiscutível. Nem sequer obrigatório.
Concordo em absoluto com o que dizem, Leonor e Pedro. Já deixei livros a meio (aliás, bem a princípio, até:) ) e leio e o que quero e gosto. Os filmes, igual. Exposições, há delas que detestei. Arte não é tortura, é prazer. E esse “indiscutível” elitista é mesmo muito discutível.
Boa semana
Deixar um livro a meio (ou antes) é um direito irrevogável de qualquer leitor, AE. Boa semana para si também.
Esse eu nem começaria; escrito ao abrigo do AO, não obrigado.
Regra geral, tento não deixar livros por acabar. Mas também escolho com cuidado os livros, o autor tem de vir muito bem recomendado para eu o ler. Por exemplo, qualquer coisa que o Kundera ou o Borges sugiram nos seus livros de ensaios vale a pena para mim. Descobri muitos grandes escritores assim.
Ora aí está uma boa regra. Que, no entanto, não está imune a decepções.
O meu “crime” nesse capítulo é “Manhã Submersa”, de Vergílio Ferreira – e não digo “crime” por ser um dos tais “indispensáveis” ou “obrigatórios” (conceito que, como leitor de géneros literários, só posso abominar), mas porque “Aparição” foi um dos livros que mais me marcou, e quero ler mais coisas do autor. Ainda ali está na estante, naquela edição antiga com capa azul-escura (as novas são péssimas), à espera que lhe volte a pegar – algo que conto fazer mais cedo ou mais tarde.
‘Aparição’ é um dos livros da minha vida – e rasgou-me horizontes sobre as virtualidades da literatura portuguesa de ficção como raras obras de autores do século XX conseguiram. Sobre Vergílio Ferreira, cuja obra conheço praticamente toda, passa-se um caso curioso que talvez venha a relatar nesta série. Como sempre me acontece com autores de que gosto muito, faço sempre questão de ir deixando pelo menos um título por ler. No caso, foi um dos primeiros romances dele, intitulado ‘Apelo da Noite’. Fui lendo as outras obras todas e deixava esta sempre para um dia, indeterminado. Mas várias vezes iniciei a leitura do livro – que, no entanto, interrompia para não quebrar o que disse atrás. Resultado: nunca li ‘Apelo da Noite’. É mais um livro que “deixei a meio”. Não por não gostar da obra, muito menos por não gostar do autor – simplesmente porque me apetece ter sempre um livro do Vergílio Ferreira que ainda não li e um dia (sabe-se lá quando) acabarei por ler. Acontece-me o mesmo com o Eça: tenho para ler, de acordo com o mesmo princípio, ‘A Ilustre Casa de Ramires’. Sem pressa alguma, pois após este nunca mais terei o prazer de ler uma obra do Eça que nunca li.
Eu gostei bastante do ‘Manhã Submersa,’ aliás prefiro-o ao ‘Aparição,’ que penso que contém muitos dos problemas típicos da literatura portuguesa, particularmente o ‘lirismo melancólico,’ como lhe chamou Saramago. Mas o Ferreira é um escritor de quem não consigo desistir, e na verdade estou à espera que o ‘Signo Sinal’ volte a ficar disponível para o ler.
Já agora, qual é o problema com as novas edições da Quetzal? Ainda não li nenhuma, por isso pergunto apenas por curiosidade.
O “lirismo melancólico” está de algum modo inscrito na nossa identidade, queiramos ou não. O problema de muita literatura portuguesa do século XX, particularmente na segunda metade, é estar cheia de “vozes interiores” sem interesse algum. A de VF tem interesse, manifestamente – desde logo porque suscita questões estimulantes, intemporais. E sobretudo porque está servida por uma escrita de enorme qualidade.
Da minha parte não vejo qualquer problema com as edições de Queztal. Pelo contrário, esta editora manteve – como se impunha – a escrita original do autor, sem a contaminar pelas normas “acordísticas”. Precisamente ao contrário do que a Caminho fez com Saramago.
Eu diria que o maior problema dos escritores portugueses é que não sabem criar personagens com verve ou inventar enredos interessantes. O problema acentua-se quando pensamos que tivemos o grande Eça, que era excelente em ambos. Nem vale a pena mencionar a questão do humor (e sátira, ironia, sarcasmo, paródia) ou falta dele nas nossas letras. Identidade nacional ou não, acho estranho que esses problemas não se notem por exemplo na literatura da Espanha, Itália, Argentina, França, Inglaterra, República Checa, dos EUA, do Egipto, da Angola, Moçambique, Rússia, etc.
Abro uma excepção para o Saramago, que, como se nota nos seus diários e blogue, foi mais influenciado pela literatura de língua espanhola, especialmente o realismo mágico sul americano. Não tenho quaisquer dificuldades em ver uma continuidade entre ele e um Calvino, um Borges, um Bulgakov, um Cossery, um Torrente Ballester, ou um Sciascia. Só posso dizer que ainda bem que há outras tradições que não o lirismo melancólico 🙂
Anoto com interesse as suas pertinentes reflexões, nomeadamente quando observa os estreitos laços entre o imaginário de Saramago e o “realismo mágico” latino-americano. Tem toda a razão naquilo que escreve.
Lembro-me da série de escritores que poderiam ter ganho o Nobel, que segui aqui e me deu algumas dicas pra descobrir certos autores.
Não tenho por norma deixar livros a meio, lembro-me agora de um e curiosamente de um dos escritores mais conhecidos de Portugal… vamos a ver se surge a obra ou o seu autor nesta lista, se chegar e os motivos acusar-me-ei então.
Julgo adivinhar de quem se trata. Sim, deixei um livro dele a meio. Detestei tanto que já nem me lembrava. Hei-de falar desse livro aqui. Um livro que me indispôs de vez contra o autor.
Estou com imensa curiosidade, até porque tenho uma lista bem razoável de livros assim.
E é só daqui a uma semana que começa?
Não podia ser já
amanhã?
Vá lá, Pedro, se já tem vários textos escritos…
🙂
Antonieta
Tenho sim, Antonieta. Mas julgo que uma vez semana é um ritmo correcto para esta série. Não quero maçar os leitores. Nem apressar o fim da série. Obrigado pelas suas palavras. Espero corresponder às suas expectativas.
Eheheheheh!
Do que tu foste lembrar. Uma noite chuvosa e o homem do táxi atrás de nós porque faltava dinheiro. Lembro-me tão bem!
Mas tal como tu, jamais vi esse filme. Quanto aos livros são poucos os que deixei pelo caminho. Mas é um bom tema este…
Abraço!
A vida vai-nos proporcionando cenas dignas de romance ou de filme, meu caro. Foi o caso.
Grande abraço.