DIPLOMACIA
de Henry Kissinger
O tamanho importa pouco. Quero com isto dizer que nunca me deixei afugentar por um livro gordinho — digamos, com cerca de mil páginas. Mais coisa menos coisa, é esse o tamanho da opus magnum do doutor Henry Kissinger, catedrático emérito da Universidade de Columbia (Nova Iorque, EUA) e um dos maiores especialistas em política internacional dos escalões dirigentes norte-americanos da última metade do século XX. Kissinger, nascido há 90 anos como judeu alemão e radicado desde 1938 — tinha apenas 15 anos mas já vira e vivera muito — nos Estados Unidos, levou uma perspectiva europeia ao Departamento de Estado, antecipando o que mais tarde, na viragem do milénio, sucederia com Madeleine Albright durante a administração Clinton.
Como conselheiro especial do presidente Richard Nixon, de quem seria um poderoso secretário de Estado, com prolongamento para a administração Ford, Kissinger subiu tão alto quanto lhe era possível nas esferas políticas em Washington. Faltou-lhe apenas ter sido candidato à presidência, o que lhe estava constitucionalmente vedado por não ter nascido com a nacionalidade norte-americana.
Este europeu transposto para o Novo Mundo é um herdeiro directo dos “realistas” que foram retalhando o mapa mundi ao longo de um século — da Convenção de Viena, em 1815, à cimeira de Versalhes, em 1919. Convicto de que nenhum país tem aliados permanentes mas apenas interesses permanentes e que não haverá vencedores em guerras desencadeadas na era atómica, Kissinger abriu caminho para o degelo nas relações entre Washington e a China comunista primeiro e com a União Soviética logo a seguir. As duas mais espectaculares acções norte-americanas do último meio século no capítulo da política externa.
São assuntos que me interessam, confesso. Foi portanto com todo o entusiasmo que me atirei a esse calhamaço que é Diplomacia — um original de 1994, com excelente edição portuguesa da Gradiva publicada quase em simultâneo — indiferente ao facto de não ser nada fácil de transportar na mochila para a praia.
Julgo que o meu exemplar ainda terá bastantes grãos de areia. E digo julgo porque não se encontra em meu poder há vários anos. Quando era adolescente, tinha por regra nunca emprestar livros — nas raras vezes em que isso aconteceu, nunca mais os vi. Mas a passagem do tempo vai-nos mudando em muita coisa acessória, à medida que confirmamos que a vida são dois dias. Transgredi, pois, e acabei por emprestar o livro de Kissinger a alguém que mo pediu com insistência (e bons modos, algo que valorizo muito). Tive logo a convicção de que não era emprestado, mas emprestadado. Por vezes vou a casa dessa pessoa, vejo o livro na estante e pergunto-lhe: “Já posso levá-lo?” Resposta invariável: “Não, que ainda não o li.”
Henry Kissinger — odiado, invejado e idolatrado, símbolo máximo do cinismo de Washington em matéria de relações externas e estratego consumado, como até os próprios inimigos políticos lhe reconhecem — é um homem cultíssimo mas, como sucede com tantos académicos brilhantes, não tem o dom da escrita. Diplomacia contém partes interessantíssimas — nomeadamente os capítulos iniciais, em que o ex-secretário de Estado fala longamente de Metternich, o político austríaco do século XIX que modelou os seus conceitos de realpolitik — e outros profundamente entediantes, que quase nos levam a supor estarmos perante um relatório & contas.
Li a dobrar a primeira metade desta obra e jamais consegui ler a segunda. Tenho uma boa desculpa: deixei de ter o livro na minha posse.
Mas suspeito que o resultado seria o mesmo se não o tivesse emprestadado. Talvez um dia mude de ideias: pelo menos sei onde está. É só passar por lá e recolhê-lo. Com toda a diplomacia de que sou capaz.
Imagem do meio: Kissinger, então estrela em ascensão na administração norte-americana, com honras de capa na revista Time em 14 de Fevereiro de 1969




Caro Pedro,
Engraçado, eu lio-o há uns anos (na edição original) e, apesar de maçudo, gostei imenso. O livro explica muito bem a perspectiva americana (que ainda perdura) sobre o mundo e demonstra o quão a experiência – e não só a genialidade intelectual – é importante na política. O “realismo” americano, associado à ingenuidade de uma nação “nova” resultou na tomada de mediadas eficazes a curto prazo, mas desastradas em prazos maiores.
Agora, que nos aproximamos do que parece ser outro disparate em larga escala (a Síria) é uma boa altura para por a paciência em dia e reler o livro.
O livro é interessante por deixar bem claro como as grandes orientações diplomáticas podem permanecer praticamente imutáveis durante décadas mas ressentem-se sempre dos períodos de acentuada aceleração da história. É um trabalho académico de grande fôlego que confirma Kissinger, em termos de erudição, num patamar muito superior ao da média dos políticos norte-americanos. É, no entanto, demasiado longo e bastante repetitivo em diversas partes. Merece ser lido em capítulos salteados, conforme as preferências temáticas dos leitores.
Cumprimento-o por ter chegado ao fim, demonstrando estar com melhor fôlego do que eu. Certamente não deu o tempo por mal empregue.
O problema com Kissinger e outros importantes actores políticos do Séc. XX, é que nem sempre deixaram de aparecer como simples actores. 0s NU
O caso mais recente com Kissinger é o aparecimento numa versão Daft Punk de Colbert :
http://www.youtube.com/watch?v=q2raQbAvo
… outra mais antiga (2001) foi o aparecimento num pseudo-documentário colocando Kubrick como realizador da ida à Lua:
http://www.youtube.com/watch?v=7RXrKRuNv
Por isso, acaba sempre por ser importante desligar o personagem do actor.
O personagem esteve ligado a decisões pouco honoráveis, ainda que depois o actor possa ter ocasionais participações simpáticas noutros papéis.
A originalidade de Kissinger, nos salões e gabinetes de Washington, radicou-se no seu olhar “europeu” sobre a política externa norte-americana. O olhar do estudioso de história política, centrado sobretudo nos cem anos anteriores dos meandros da diplomacia europeia. E também influenciado, naturalmente, por circunstâncias da sua biografia pessoal: ser judeu, ter nascido entre as duas guerras mundiais e conhecer a experiência totalitária não em abstracto mas no concreto. O regresso à Alemanha devastada pela guerra, enquanto cumpria o serviço militar já como cidadão norte-americano e exerceu funções de tradutor nas forças armadas, levou-o a perceber ainda melhor como são débeis os pilares daquilo a que chamamos civilização e como se havia tornado irrisória a influência europeia nos destinos mundiais.
A sua tão propalada “realpolitik” limitou-se, no fundo, a seguir os trilhos abertos por Ialta, na cimeira que dividiu o globo em esferas de influência. O planeta multipolar dos nossos dias, com emergentes potências de âmbito regional, baralhou toda a lógica anterior, que a geração de Kissinger preferia, pois a política de blocos, ideologicamente antagónicos mas perfeitamente identificáveis, assegurou meio século de relativa paz em diversas regiões do globo.
Kissinger valorizava, na política externa, as linhas de continuidade estratégica em função das quais as alianças entre nações assumiam uma geografia variável ditadada por conveniências de ordem táctica. A aproximação simultânea da diplomacia de Washington a Moscovo e Pequim, sob o seu comando, aconteceu como via de exploração das divergências entre russos e chineses que à época fracturavam o chamado mundo socialista e acabaram por disputar as boas graças dos EUA. Neste aspecto foi um hábil sucessor dos mestres da diplomacia oitocentista na Europa, como Metternich, e um opositor da visão messiânica dos Estados Unidos como promotor das boas práticas democráticas à escala planetária. Ele sabia, ancorado nas lições da história, que esta é a forma mais expedita de os americanos se envolverem em novas guerras.
Concordando na habilidade, parece-me que a comparação com Metternich é um pouco lisonjeira (em excesso) para com Kissinger. Apesar de alguns golpes de asa (a aproximação à China foi de mestre!) e o sempre bem-vindo afastamento do messianismo americano (como bem apontou), Kissinger não foi excessivamente feliz no médio prazo (em grande parte, com a “entrada” de Jimmy Carter) e deixou obra por fazer.
No entanto, não tenho problemas nenhuns em afirmar que foi, de longe, o melhor político externo que os EUA teve (malgrado a fasquia ser relativamente baixa…)
Concordo consigo, Carlos: a fasquia é baixa; depois dele houve vários secretários de Estado manifestamente incompetentes ou irrevelantes. O fulgurante degelo diplomático com Pequim, visando isolar Moscovo no campo socialista a nível internacional, foi sem dúvida a sua maior proeza, embora as relações formais, a nível de embaixadores, só tenham sido restabelecidas na presidência de Jimmy Carter, salvo erro em 1979.
Eu prefiro um realista da velha escola, como Kissinger, do que um messiânico, convencido de que irá iluminar ou salvar o mundo. Em regra, estes últimos costumam provocar os maiores estragos.
O Pedro sair com um comentário ao estilo comentário da semana, em resposta ao meu apontamento frugal, deixa-me envergonhado.
Resta dizer que não aprecio nem Kissinger, nem Metternich, mas para não ficar reduzido a uma resposta de puto, acrescento apenas que um e outro, apesar do aparente sucesso imediato da real politik externa, acabam ligados ao início do declínio interno. Wellington e depois Melbourne parece-me que estabilizaram mais a sociedade inglesa, não se deslumbraram com o seu sucesso ou poder.
Pode fazer-se do tabuleiro mundial um imenso jogo de poker, mas não é preciso humilhar tudo e todos, indo sempre a jogo, simplesmente porque se pode.
Os seus comentários são estimulantes, da Maia: comentário puxa comentário…
Também não acho nada entusiasmante a figura de Kissinger, relevante apenas no contexto norte-americano, ou seja numa diplomacia globalmente sofrível – para não dizer medíocre. Além do mais, HK revelou-se um fraco profeta em relação a Portugal, ao vaticinar em 1975 que o nosso país sucumbiria a uma “ditadura comunista” que serviria de “vacina” para o conjunto da Europa. E não esqueço o aval, directo ou indirecto, que deu aos generais indonésios para invadirem Timor.
É uma personagem compreensível no contexto da Guerra Fria – e é à luz desse contexto que deve ser analisada. Pelo menos sabia apontar qualquer país no mapa, um teste em que provavelmente alguns dos seus sucessores falhariam.
Completamente de acordo, não pode deixar de ser visto no contexto da Guerra Fria, e por isso algumas atitudes devem ter o devido contexto.
O problema é que já depois disso apadrinhou uma escola que continua a viver dessa lógica de guerra constante.
«Pelo menos sabia apontar qualquer país no mapa, um teste em que provavelmente alguns dos seus sucessores falhariam.»
LOL… sem dúvida!
No tempo de Kissinger, só 17 senadores tinham passaporte. Isto revela muito da chamada elite política dos Estados Unidos.
Foi leitura obrigatória (não na íntegra) numa cadeira de História Contemporânea… lembro-me de apenas ter lido a parte que iria surgir na frequência, mas de ter gostado muito do que li. Também se transviou, entretanto…
Há certos livros com mais tendência para serem transviados do que outros. É matéria que nos deveria suscitar alguma reflexão.
Os meus livros do Kissinger estão “colados” à prateleira.Não os emprestaria nem ao próprio Henry :).
Em “A Diplomacia”, de que li apenas os capítulos importantes para perceber a relação transatlântica (Bona – Washighton/ Washighton-Paris-Londres-Bona), Kissinger “previu” com uma acutilância extraordinária o actual momento hegemónico alemão (que aparentemente “surpreendeu” muitas chancelarias europeias).
* Washington
Peço desculpa pela gralha. Ohmmmm
Essa gralha é quase nada, Helena. Eu aproveitei para reler o meu texto e encontrei uma muito mais complicada (nem vou dizer qual era).
Fazes bem em mantê-lo “colado”, Helena. Mas neste momento confesso que até me dá jeito não o ter por cá: como ando a fazer enfim uma arrumação geral dos livros cá em casa, esse seria sempre um dos que eu teria mais dificuldade em remeter a uma prateleira qualquer, por ser tão volumoso.