Livros que deixei a meio (2)


Pedro Correia,

 

 

D. JOÃO VI – O HOMEM E O MONARCA

de Mário Domingues

 

Não sei se convosco sucede o mesmo: eu sempre gostei muito de histórias. E de histórias da História em particular. Já adulto, detestei aqueles volumes de História muito moderna, cheios de gráficos, de estatísticas, de “estruturas” longas e curtas – sem reis, sem personagens heróicas, quase sem cronologia, sem datas a assinalar o início e o fim de eras inconfundíveis, com toda a individualidade diluída em conceitos de pretenso rigor científico, como o de “luta de classes”.

Eu gostava era da História à moda antiga. Das biografias, sobretudo.

Comecei ainda miúdo devorando as biografias escritas por Adolfo Simões Müller que encontrava na biblioteca escolar. Tendo feito todo o ensino obrigatório em escolas públicas (nove, por força de circunstâncias familiares), ainda hoje me espanto com a qualidade das bibliotecas existentes nesse tempo de notórias dificuldades materiais que ajudavam a suprir parte das deficiências do chamado “ensino formal” (que sempre me soube a pouco). E gostaria de saber se essa saudável tradição se mantém, tantos anos depois.

 

Lido Simões Müller (Infante D. Henrique, Camões, Serpa Pinto, Gago Coutinho…), passei para as biografias feitas pelo professor Agostinho da Silva, muito antes de voltar a ser famoso após décadas de exílio ao ser descoberto pela televisão. Eram livros de “divulgação”, como então se dizia, de uma editora (Sá da Costa?) que fazia questão que parecessem ainda mais antigos do que eram. Li as biografias de gente tão diversa como Lincoln, Zola, Leopardi, Pestalozzi: lembro-me, ainda hoje, da impressão que me fez a morte acidental de Zola, em 1902, intoxicado pelo fumo de uma lareira…

Depois, claro, foi o tempo de Oliveira Martins – talvez o maior historiador português de todos os tempos. Nun’ Álvares, Os Filhos de D. João I, Portugal Contemporâneo… Foram livros que me fascinaram, numa fase posterior. Um deles – creio que a biografia de D. João II – foi deixado muito incompleto devido à morte prematura do autor, o que sempre lamentei.

 

E havia Mário Domingues. Pouca gente saberá hoje quem era, mas nas décadas de 40 a 60 foi um autor muito popular, grande produtor de biografias que antecedeu (sem ecrãs de televisão nem a eloquência discursiva que lhe esteve associada) a fama de José Hermano Saraiva.

Mário Domingues era de uma escola histórica muito anterior à dos Annales, cheia de estruturas e dados demográficos e estatísticas sobre as variações das colheitas agrícolas. Via a História em termos técnicos como uma disciplina da literatura e em termos conceptuais como o fruto da acção de uns quantos indivíduos considerados excepcionais.

Não devemos analisar desta forma os acontecimentos históricos, sabemos hoje bem. Mas nunca perdi a convicção de que é fundamental recuperar as virtudes da narrativa no ensino da História. É uma convicção que me vem seguramente desses tempos em que creio ter aprendido alguma coisa com autores tão diferentes como Simões Müller, Agostinho da Silva e Oliveira Martins.

 

Mas regressemos a Mário Domingues. Tomei conhecimento com ele também através da biblioteca escolar, em terras longínquas. Ele sabia recriar figuras históricas – D. Afonso Henriques, D. João IV, D. João V, o Marquês de Pombal, D. Maria I – como se fossem personagens de ficção. Não era tanto o rigor histórico que procurávamos nessas obras, mas a capacidade de nelas descobrirmos insuspeitas virtudes romanescas em personalidades essenciais da nossa História.

Anos depois, em Lisboa, reencontrei as obras dele na montra de um alfarrabista nas Escadinhas do Duque. E passei a abastecer-me regularmente desses livros – nada baratos – nessas minhas incursões periódicas a um local que está associado ao início da minha actividade profissional em Lisboa, pois trabalhava lá perto.

Um dia trouxe desse alfarrabista um livro que, ao contrário de todos os outros, só me agarrou até meio. Era a biografia de D. João VI, um dos nossos reis mais controversos. Li-o exactamente até meio: encalhei numa página da qual não consegui passar.

 

O livro permaneceu esquecido no fundo de uma estante. Entretanto fui lendo muita coisa relacionada com essa época, incluindo esse campeão de vendas no Brasil que foi (e é ainda) 1808, de Laurentino Gomes – excepcional narrativa desse primeiro ano da instalação da corte portuguesa no Brasil, embora não disfarce algum preconceito contra a antiga potência colonizadora.

Esse livro fez-me regressar ao velhinho D. João VI – O Homem e o Monarca. Havia pontos de contacto entre ambas as obras, o que me conduziu à releitura. Mas não recomecei onde ficara, cerca de década e meia antes: parti novamente do zero, na esperança de o ler de um fôlego.

Assim parecia ser nos primeiros dias. Até que parei. Exactamente a meio, exactamente no ponto em que havia parado antes.

Julgo que nesta fase Mário Domingues tinha perdido o gosto por escrever biografias: limitava-se a encher páginas. Aqui socorreu-se sobretudo de uma obra que também foi muito útil a Laurentino Gomes: D. João VI no Brasil, de Manuel de Oliveira Lima. Mas Domingues cometeu um pecado mortal enquanto escritor: citando o original, passou a transcrever largos excertos dessa obra, sem os integrar devidamente na sua própria narrativa. Resultado: perdi pela segunda vez a vontade de ler o livro.

Pode ser que um dia o retome. Mas tenho a certeza de que não voltarei ao zero. Para não o deixar a meio outra vez.

 

 

As imagens foram recolhidas, com a devia vénia, dos blogues Torre da História Ibérica, Nesta Hora e Portal da Informação.

 

12 comentários em “Livros que deixei a meio (2)”

  1. Ah, os livros do Adolfo Simões Müller…

    Se calhar continuam a existir bibliotecas escolares. O que me parece é que os livros infantis de agora são mais fáceis, não estão pejados de palavras difíceis como os de antigamente, que era o seu grande charme, pelo menos para os miúdos que gostavam de ler, como eu. Mais coisa menos coisa percebia-se pelo contexto e raramente era preciso ir ao dicionário (livro também muito fascinante, aliás). Ainda me lembro do brilharete que fiz no princípio do 1º ano do liceu quando dei como exemplo de palavra derivada de neve “níveas”, como as mãos da amada do Príncipe Valente…

    1. Tem muita razão, Isabel. Vejo pouco comentada esta questão – de que todos nos apercebemos no nosso dia-a-dia – do contínuo empobrecimento vocabular, fenómeno que aliás está longe de se circunscrever à língua portuguesa.
      Gostei muito do livros do Simões Müller. Particularmente do ‘Príncipe do Mar’, biografia do Infante D. Henrique. Uma obra felizmente reeditada, pelo grupo Leya.
      «Com ‘O Príncipe do Mar’ aprendi a ter orgulho do povo a que pertenço – que se meteu à aventura sobre águas desconhecidas, rumo a terras desconhecidas, ouvindo as vozes de então garantir que a linha do horizonte era o fim do mundo, e que para lá do fim do mundo havia só dragões. Mas o infante D. Henrique sabia que nada disso era verdade, que havia muitas terras para lá daquela linha que a nossa vista alcançava, e descobri-las foi o sonho e o trabalho de toda a sua vida.»
      Palavras da escritora Alice Vieira em que me revejo plenamente.

      1. Essa questão do orgulho de ser português e da sua relação com esses livros merecia uma reflexão aprofundada. Penso que continuamos a ter uma relação muito desconfortável com uma história objectivamente extraordinária que nos foi contada num tempo e numa linguagem que entretanto repelimos. Daí vem, penso eu, a esquizofrenia com que nos vemos a nós próprios (e que outros povos, mais descomplexados, não sonham sequer ter): divididos entre o natural amor ao que somos e uma espécie de desejo de não o sermos.
        (A propósito, visitei a semana passada o Portugal dos Pequenitos, que andava para ver à anos, e fiquei fascinada com a viagem no tempo mental).

        1. De facto, Isabel, temos uma relação muito complexada com a nossa História. Em vez de a assumirmos com a naturalidade de outros países. A História – tal como a geografia – é componente essencial da identidade de um povo. Temos tradicionalmente apenas uma fronteira terrestre, vivemos numa das extremidades da Europa e o imenso oceano é o nosso espaço de expansão natural: eis três factores conjugados que nos influenciaram, de todas as maneiras, no melhor dos sentidos. Isto esteve na origem da nossa expansão para outras latitudes e longitudes. Vivemos em qualquer recanto do planeta como se estivéssemos em nossa casa. A navegação e a descoberta ficaram-nos inscritas no código genético.

          1. É bem verdade.
            E temos umas relação curiosa com essa extremidade: há pouco tempo (sim, há, não à, como no meu comentário anterior!!!) estava em Sagres com uma amiga e, ao fim do dia, propus-lhe irmos ver o pôr-do-sol ao Cabo de São Vicente (podíamos ir a qualquer outra falésia, claro, mas não era a mesma coisa!). Quando lá chegámos, estava cheio de gente, uns abrigados do vento nos carros até o sol tocar no mar para saírem no momento certo, todos concentradíssimos a ver o sol a mergulhar, palmas no fim do espectáculo quando ele desapareceu, TUDO portugueses. No dia seguinte passei por lá durante o dia e lá estava, a ver o farol e o cabo, a misturada de turistas do costume, portugueses, estrangeiros, sem distinção. Mas aquela compulsão de ir até à bordinha ver o sol a desaparecer no mar, parece que só nós a temos…

  2. Meu caro

    Muito obrigado por nos trazer de volta Mário Domingues.

    E excelente o diálogo aqui encetado na caixa de comentários .

      1. Este “anónimo” era eu , visitante habitual do que aqui nos traz .
        É o que dá ter o dedo muito rápido no gatilho , nem sei muito bem como é que este “tiro” partiu .

        As minhas desculpas .
        Anónimo ma non troppo !

  3. Pedro
    O Mário Domingues e a sua Mulher Maria foram grandes amigos meus. Era com eles que ia para a Costa da Caparica em pequena. Este teu post lembrou-me que o meu gosto por biografias histórias se deve muito às conversas que em miúda tive com ele!

    1. Que feliz coincidência, Helena (e eu que tanto gosto de coincidências…) Estes autores-divulgadores como Mário Domingues, longe dos modelos académicos que hoje conhecemos, fizeram muito pela cultura portuguesa por mais que isso abespinhasse algumas bempensâncias.

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