ATÉ AMANHÃ, CAMARADAS
de Álvaro Cunhal
Nada há tão volúvel como as modas literárias. Reparem no neo-realismo: já esteve completamente na moda, erigido em cânone; já esteve totalmente fora de moda, alvo de dichotes que o punham a ridículo. Basta uma geração suceder a outra para tudo parecer mudar.
Um dos ingredientes fundamentais do neo-realismo era a luta de classes, quase sempre ambientada em meio rural para suavizar os focos da censura salazarista, menos rigorosa em relação aos trabalhadores de arado e enxada do que ao cenário fabril, propício como nenhum outro à difusão da mensagem comunista.
Comecei cedo, até por imposição do programa dos estabelecimentos de ensino oficial que sempre frequentei, a conhecer algumas das obras mais emblemáticas do neo-realismo, variante portuguesa do realismo socialista — baptizado daquela forma, segundo a lenda da época, para driblar os censores tanto na expressão escrita como na expressão pictórica (de que constitui notável exemplo o quadro O Almoço do Trolha, do grande Júlio Pomar).
Ao contrário de muita gente da minha geração, nunca tive nenhum preconceito contra o neo-realismo nem levantei a bandeira dos Pessoas e das Agustinas para argumentar contra a sua suposta menos-valia literária. Cada caso é um caso — e há bons e maus autores em todos os géneros.
Esteiros foi talvez o primeiro romance neo-realista que li. Havia ali influências nítidas dos Capitães da Areia, de Jorge Amado, como mais tarde me apercebi, mas um certo lirismo de fundo e a manifesta qualidade da escrita diluíam neste livro o mais óbvio defeito imputado aos expoentes desta escola: colocarem a arte ao serviço da política.
Nunca mais li Esteiros — que no início dos anos 70 inaugurou a célebre colecção de livros de bolso da Europa-América — mas julgo tratar-se de uma obra que sobreviveu ao seu tempo e ao contexto em que foi escrita. Como várias outras de autores neo-realistas ou aparentados — os contos de Jogos de Azar, de José Cardoso Pires, ou O Dia Cinzento, de Mário Dionísio, e romances como A Lã e a Neve, de Ferreira de Castro, Casa na Duna, de Carlos de Oliveira — um nome que não deve ser esquecido — ou Vagão J, de Vergílio Ferreira, que foi neo-realista antes de renegar a tribo e se tornar odiado por ela.
Em sentido inverso está uma obra como Engrenagem, também de Soeiro Pereira Gomes, no seu esquematismo rudimentar do capitalista mau que explora os operários bons — obra que aliás o autor não pôde rever por se encontrar já muito afectado pela doença que viria a matá-lo prematuramente nos anos de chumbo da ditadura em que se destacou como dirigente da estrutura do PCP na clandestinidade.
A relação dos comunistas com a literatura teve com frequência um carácter instrumental em casos muito conhecidos — de Roger Vailland a Pablo Neruda. Lenine e Estaline eram leitores compulsivos de romances e nunca perderam de vista as imensas possibilidades de divulgarem a mensagem revolucionária do “socialismo científico” por este meio.
Álvaro Cunhal, figura histórica do PCP e do movimento comunista internacional, foi ainda mais longe: escreveu ele próprio contos e romances, nomeadamente quando se encontrava encarcerado, como preso político, no forte de Peniche. Uma dessas obras foi transposta para o cinema por José Fonseca e Costa, em 1996, com certo êxito: Cinco Dias, Cinco Noites.
Mas nas duas décadas anteriores ao filme o Cunhal escritor não se chamava assim: chamava-se Manuel Tiago. E o Partido Comunista Português alimentou um mito em torno da sua obra mais emblemática, o romance Até Amanhã, Camaradas (1974), assegurando desconhecer quem fosse o autor. “Só, numa pequena folha apensa e agrafada, podia ler-se, em rabisco apressado, o nome Manuel Tiago, pseudónimo de certeza”, esclareciam as edições Avante em introdução à obra, acentuando o mistério.
Este secretismo, que em parte pode ser explicado pelas características da personalidade do próprio Cunhal, entroncava com outro mito muito caro aos comunistas: o do herói anónimo, imerso no meio do povo, do qual emana e à vontade do qual obedece. No fundo, um mito que percorre Até Amanhã, Camaradas — pelo menos até à página 100, onde parei.
Anos antes de morrer, Cunhal assumiu publicamente ser Manuel Tiago, o que conferiu autenticidade à sua obra literária mas anulou a aura de mistério que a envolvia e era de algum modo justificada por esses tempos de duro combate político. A realidade chã destes dias democráticos é muito mais banal do que o mundo cifrado, fruto de pequenos gestos de heroicidade quotidiana, em que os comunistas se moviam no covil de sombras da ditadura.
Ignoro se Cunhal obteve ajuda de algum confrade das letras na revisão deste romance. Mas estamos certamente perante uma escrita desenvolta, sem gorduras nem artifícios, como era bom timbre da escola neo-realista, influenciada em Portugal também por uma plêiade de bons narradores norte-americanos do século XX, incluindo o Hemingway de Por Quem os Sinos Dobram (livro que, no entanto, esteve proibido na União Soviética), o Steinbeck d’ As Vinhas da Ira ou o Caldwell d’ A Estrada do Tabaco.
A certa altura do romance, no entanto, percebi que Cunhal escreveu este romance sobretudo para falar de si próprio. O homem da bicicleta, que pedalava sem cessar com a mirada no futuro, não era mais ninguém senão ele. Em torno do ex-secretário-geral do PCP gerou-se uma forma enviezada de culto da personalidade: o do Álvaro, filho da burguesia, que atraiçoa os interesses egoístas da sua classe para abraçar a causa proletária e se tornar um devotado servidor do povo.
Comecei a perceber igualmente quanto de convencional havia ali — não apenas na prosa escorreita mas meramente descritiva mas também ao nível de alguns conceitos. As mulheres, por exemplo, limitavam-se a assegurar a retaguarda logística dos camaradas envolvidos na luta, não se esperando delas tarefas de maior responsabilidade. E foi-me desagradando a componente de propaganda partidária. “Rita e Isabel não poderiam existir se não existisse o Partido” — sempre escrito assim, em letra maiúscula.
O livro é longo: o meu exemplar tem mais de 400 páginas. E as edições Avante, responsáveis pelo espólio literário de Cunhal, cometeram o erro de imprimi-lo com letra demasiado diminuta. Confesso que não gosto de corpos de letra muito reduzidos, tanto em livros como em jornais.
Isto contribuiu para o meu cansaço: fiquei-me por um quarto do livro. Tenciono ver o filme homónimo, realizado por Joaquim Leitão e estreado anteontem. Mas só quem acredita convictamente na ideologia comunista pode idolatrar Até Amanhã, Camaradas. Não é o meu caso.
E no entanto há trechos que merecem especial atenção. Aqueles em que Cunhal — enquanto criador literário — traça o auto-retrato: “Só então a mulher pareceu reparar naquele que tinha na frente. Viu o fato e o boné repassados de chuva, os sapatos e as calças enlameados, a bicicleta inútil naquele caminho. Olhou-lhe o rosto seco, pálido e severo. Reparou-lhe nos olhos fixos e serenos” (p. 18); “Em silêncio, a severa expressão inalterável, o camarada pôs-se a comer a broa com o toucinho” (p. 25).
Cunhal par lui-même: apesar desta minha fracassada experiência como leitor do falso Manuel Tiago, mantenho um fascínio antigo pelo neo-realismo — um pouco como me acontece com as aventuras marítimas ou de capa e espada que li na infância.
Redescobri esse fascínio em recente deslocação ao excelente Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira — visita que recomendo. Por ser também um retrato de uma época em que a escrita era uma forma de resistência cívica, imperativo categórico sob o signo da urgência.
A máquina de escrever era uma espécie de bicicleta, com o escritor a pedalar nas teclas, crente de que nenhum homem é uma ilha mas todos somos parcelas de um vasto continente ao qual jamais se diz até nunca mas até sempre.
Imagens: quadro O Almoço do Trolha, de Júlio Pomar (1946-50); capas de romances neo-realistas, pertencentes ao Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira (retiradas do blogue Fazer por Salvaterra, Fazer por Todos Nós)






Conheci o Museu do Neo-Realismo há algum tempo, fui lá assistir à sessão de abertura de um colóquio sobre Jorge Amado. Gostei muito da exposição e do espaço.
Também gostei, Ana. Vila Franca ficou muito valorizada com este museu – um espaço moderno, funcional, bem recheado, que presta homenagem a esta escola literária que merece ser conhecida sem preconceitos de qualquer espécie.
Um bom pretexto para ir a VFX, que não visito há décadas.
Vale a pena, garanto-te.
O neo-realismo deixou-me amargas memórias. Ninguém tem o direito de escurecer o início da adolescência com uma leitura daquelas. Detestei.
Deprimente como o eram aqueles anos… Quase meio século, sem esperança de mudança! E, pelo menos para mim, que lia a partir das bibliotecas (Itinerante Calouste Gulbenkian e das escolas que frequentei) o neo-realismo foi incontornável, passada a fase de entusiasmo pela literatura juvenil.
Já tentei, mas não consigo reler aquelas obras…
É o que aí vem: meio século sem réstia de esperança. Quem se atreverá a escrever os novos Esteiros?
Haverá sempre alguém, Leonor. Como houve no Brasil um Jorge Amado a escrever ‘Capitães da Areia’ e ‘Mar Morto’. Neo-realismo também, mesmo que não tivesse esse rótulo.
Como em todas as escolas literárias, houve bom e mau. O pior, para mim, é pôr-se a literatura ao serviço da propaganda política. Houve autores que não resistiram a isso. Cunhal, desde logo. Por motivo até compreensíveis. Mas outros, por motivos muito menos compreensivos, não fugiram ao clichê. E o clichê, seja ele qual for, mata toda a forma de expressão artística.
Não contesto sequer a qualidade de Esteiros, só acho que poderia ter sido lido noutra altura no meu percurso escolar. Quanto ao aproveitamento político, venho da terra onde esse aproveitamento político foi levado ao extremo com o Memorial do Convento. Os ignorantes edis da altura que afirmaram que não leram nem leriam o livro, à boa maneira de Sousa Lara afirmaram que Saramago ‘arrastava o nome de Mafra pela lama’. Uma vergonha! Mafra tem muito a dever a Saramago e, agora que a obra vai convenientemente desaparecer do programa de 12º ano, são capazes de já não pensar da mesma forma. Demasiado tarde. Há que ler os livros e criticar, não rejeitar porque é comunista, e respeitar a obra deixada pelo único Nobel da Literatura português. Falta falar das manobras para mudar o nome da minha escola por um ou dois professores que vivem no obscurantismo coitados.
Não tenho acompanhado a polémica sobre inclusão/exclusão de autores dos mais recentes programas escolares, mas não ignoro que é algo recorrente: rara tem sido a mudança que não suscite controvérsia. Desde logo porque implica uma selecção: não é possível incluir tudo.
Julgo que a escola não deve divorciar-se do ensino de alguns clássicos. Seria absurdo não mencionar Camões, Gil Vicente, Vieira, Garrett, Eça ou Pessoa ao longo de todo o ensino secundário. Seria absurdo incluir ou excluir autores em função de motivos políticos. Seria igualmente absurdo ir atrás do que “mais vende” nos nossos dias, o que forçaria os professores a leccionar Margarida Rebelo Pinto, José Rodrigues dos Santos e valte hugo mãe.
O ideal, como em quase tudo, é conciliar clássicos com modernos. Porque a educação tem de ser global – ou não é. É isso que se passa? Confesso que não sei, Leonor. Mas gostaria que fosse assim.
Eu, provavelmente como o Pedro Correia, li o Esteiros no 7º ,12 anos. Lembro-me que não desgostei. Mas a Leonor levanta uma questão crucial, que tipo de leitura se deve dar a ler aos miúdos dessa idade – o excelente professor de português da minha filha, também no 7º ano agora, acaba de enviar a lista do programa de Leitura oficial e o material para trabalho. Estivemos a ver os livros que há cá em casa e os facilmente adquiríveis aqui, até porque as leituras são, dentro desse “pacote”, opcionais. E empurrar os miudos para ler alguns textos (apenas porque os consideramos de valor literário) pode afugentá-los da leitura. No caso dos Esteiros e do neo-realismo a obrigatoriedade de leitura então seria muito mais derivada de uma concepção de “educação para a cidadania” …
Também li Esteiros nessa altura, numa altura em que não havia visualização, motivação ou qualquer outra coisa que não fosse o professor a falar e nós a ouvir, o mais engraçado, e engraçado mesmo, é quando se queixam do ensino de hoje. Olhando para trás nem sei como aguentei/aguentámos. Horas de inutilidades que hoje em dia são vistas como o ‘bom ensino’ o ‘dantes é que era’. Contudo, sobrevivemos, mas não vejo nada de extraordinário no ensino de ‘dantes’. Aliás, a minha escola primária foi de uma tristeza franciscana. Fui escravizada pelos trabalhos de casa, e se me tentar lembrar do que aprendi nesse tempo, sei muito bem o que foi: a odiar quem distingue os alunos e as pessoas por classes sociais e os trata tanto pior quanto mais ‘frágil’ a capacidade de os pais se oporem à humilhação a que os filhos sofriam porque eram ‘burros’ ou os pais e mães de origem humilde. Não era o meu caso e por isso me revoltava tanto aquele tratamento desigual e desumano. Foi o que de mais valioso aprendi com a minha professora da 3ª e 4ª classe, ela nunca soube disso, rezava todos os dias, ficava-lhe bem a beatice, pena nunca tivesse praticado nada disso na sala de aula. Não tenho saudades nenhumas.
E depois da divagação e desabafo, voltemos aos Esteiros. Se talvez quase em simultâneo não tivesse assistido aos mais deprimentes ‘desenhos animados’ de que tenho memória a Heidi ‘ e o ‘Marco’, os Esteiros não me tivessem feito mossa. Não sei. Mas tive a minha quota de histórias deprimentes e fizeram mossa. Os Esteiros podiam ter ficado para mais tarde.
Quanto ao ‘afugentar’ da leitura, não tenho a menor dúvida de que os programas de Português actuais e o desvairo que aí vem afastam os alunos da leitura. Pelo que vou vendo, gostam bastante do Memorial no 12º ano, mas Padre António Vieira é uma miséria, nada diz a esta geração. Nada contra os clássicos, mas não fiquemos por aí. O pior ainda é os programas de Português do Ensino Profissional serem iguais aos do Científico-humanístico . São alunos com características diferentes. Não tem qualquer sentido.
Nisto se levantam tantas questões! Eu também não sou adepto, mesmo pelo contrário, disso da Idade de Ouro pedagógica que já lá vai. Lembro-me que lia bastante, pelo menos comparativamente com os colegas, e isso valeu-me fazer a “escola secundária” sem treino de verdadeiro estudo. Se os Esteiros não me desgostaram (se calhar por causa da professora, ou do pequeno tamanho do livro, ou por causa da natação que lá estava, ou daquilo ser um bocado Huck Finn e Tom Sawyer, sei lá) mais tarde o raio dos Lusíadas foi-me penoso (e já na versão lite pós Abril) e pior ainda Garrett e Herculano (de tal maneira que a estes nunca mais os li).
Estive a olhar para o plano de leitura proposto à minha filha (e que, repito, nos chega através de um excelente e mobilizador professor). Francamente acho-o super-interessante, abrangente, variado. Se calhar podia ser melhor, mas não há ali razões para resmungarmos.
Eu referia-me ao programa do Secundário que aí vem. Não estou por dentro dos programas do Ensino Básico.
O Herculano foi um susto! Vade retro! Tenho a certeza de que não acrescentou nada à minha formação enquanto aluna do Secundário e me deu um tédio de morte, de tal forma que nunca mas nunca mais lhe peguei. Acho que devia haver um equilíbrio maior entre os clássicos e os contemporâneos, mas também há maior liberdade e abertura, felizmente, para que os alunos apresentem as suas leituras com os contratos de leitura.
Pois foi, ainda recordo a seca de ler o Herculano (O monge de cister, o bobo) aos 15 ou 16, obrigado na escola. Ainda para mais já tendo lido Dumas ou os mais medievalistas Sienkiewicz e Walter Scott, anos ano, ou o Salgari ou Paul Féval. Ok, se calhar tem valor a sua transmissão mas terá (ou teria) que ser enquadrado.
Não sei que programa do secundário que aí vem, mas o painel de leituras entre o 7ª e 9º, plano nacional de leitura, acho que é assim que se chama, tem bastante por onde andar. E tem uma coisa óptima em comparação com o meu (nosso?) tempo, não está aprisionado na literatura portuguesa.
Comigo aconteceu-me algo semelhante. Ler o Herculano depois de ler o Dumas, o Sabatini e o Walter Scott foi um suplício. Não consegui regressar a esse autor. Nem ao Garrett: fiquei-me penosamente pelo ‘Frei Luís de Sousa’ e pelas ‘Viagens na Minha Terra’, além de uns poemas das ‘Folhas Caídas’.
Do Camões, felizmente, sempre gostei. Da lírica e da épica. Talvez por tê-lo ouvido em versão cantada (Amália, por exemplo, no célebre ‘Com Que Voz’) antes de o conhecer em versão escrita.
Ora aí está. Agora acrescenta-lhe uns 35 anos e vê como os alunos podem suportar essas obras. Não haverá nada de mais interessante?
Ignoro os autores que agora estão em foco nos programas. Nos meus tempos de liceu constavam alguns livros que me fascinaram. Livros como os ‘Contos Exemplares’, de Sophia. E, claro, ‘Os Maias’. Mas já o Camilo era para mim uma imensa seca: não consegui sequer acabar de ler o ‘Amor de Perdição’ (outro livro que deixei a meio). As maiores descobertas, acabei por fazê-las por mim próprio: o fascínio da literatura faz-se de inúmeros atalhos.
Aos professores compete abrir janelas e não fechá-las. Quem me ensinou a ‘ler’ os ‘Contos Exemplares’ abriu-as, sem dúvida alguma.
Pouco li do neorrealismo nacional, embora alguns como Gaibéus estejam cá em casa para leitura, não sei se o “Levantado do Chão” cabe neste estilo, penso que sim pelo conteúdo, não tanto pela forma.
Mas o que não me atraiu no género literário foi que os poucos que li eram a preto e branco, passo a explicar: uns são perfeitos – bons trabalhadores e vítimas; os outros são mau, sem virtudes, exploradores e proprietários. Falta a maioria que tempera a vida real e por isso considero um estilo mais neoirrealista.
Jorge Amado e Hemingway claro deixam o mundo muito bem temperado.
‘Levantado do Chão’ é um dos melhores exemplos de um neo-realismo tardio. Foi simultaneamente uma homenagem de Saramago a essa escola literária de que ele acabou por ser um expoente pelo menos nesse romance.
Steinbeck, Hemingway, Caldwell: estes foram grandes escritores americanos que influenciaram nitidamente o neo-realismo português. E que foram bem servidos por tradutores portugueses. Várias obras deles resistiram ao tempo. ‘As Vinhas da Ira’, por exemplo.
Outro post muito interessante, que traz até nós essa corrente quase esquecida. Há uns quarenta anos que não leio uma única obra neo-realista. Da memória das numerosas que devorei na adolescência, ficou-me a ideia de que a personalidade e o talento dos autores eram marcantes: uns eram uns chatos e escreviam de forma desinteressante, outros, como Ferreira de Castro (A lã e a neve, A selva…) prendiam-me à história, talvez também pelo exotismo.
Cardoso Pires destaca-se pelo seu notável talento de contador de histórias, bem patente em O ritual dos pequenos vampiros, por exemplo.
Suponho que sem a ditadura de Salazar o neo-realismo não teria sobrevivido muito tempo, e o Partido Comunista, a cujas concepções literárias se submetia, não teria ganhado a força de que ainda hoje dispõe. Ironicamente, o ódio de Salazar ao comunismo reforçou-o. Uma lição para todos aqueles que ainda hoje se benzem ao ouvir o nome e destilam ódio pelos blogues a tudo o que lhes parece vermelho.
Tem razão, José Catarino: sob o rótulo ‘neo-realismo’ abriga-se uma diversidade muito grande de obras. ‘A Lã e a Neve’ e o ‘Ritual dos Pequenos Vampiros’ também. O livro do Ferreira de Castro, tendo como pano de fundo a indústria têxtil da Covilhã, à margem dos méritos literários, funciona hoje como um interessante documento daquela época e daquela região. Esta era uma virtude lateral do neo-realismo: a sua vertente documental.
Aquilo que em Portugal se denominou ‘neo-realismo’ prolongou-se no tempo, de facto, devido ao regime salazarista. Porque era a face mais visível – e, digamos, legal – da oposição ao regime conotada com o PCP. Mesmo que nem todos os escritores fossem comunistas. Fernando Namora, por exemplo, não era. E produziu um dos títulos mais interessantes do neo-realismo: ‘O Trigo e o Joio’.
Obrigado pelas suas palavras iniciais. Espero que continue a gostar desta série, que vai prolongar-se.
O “primeiro” Cardoso Pires navegava nesta corrente. E vê-se ali um excelente prosador.
Já algo crescido, talvez no final do liceu, li Manuel da Fonseca com apreço. Como será lê-lo hoje?
O primeiro Cardoso Pires era, sem dúvida, desta escola. Em contos como ‘Os Caminheiros’, aliás excelentes. Este escritor – como aliás Manuel da Fonseca – foi bastante influenciado pelos romancistas ‘sociais’ norte-americanos no seu estilo sincopado, objectivo, muito fotográfico, quase em jeito de reportagem jornalística, invariavelmente escrito na terceira pessoa do singular.
Carlos de Oliveira foi outro autor relevante desta escola, com títulos como ‘Casa na Duna’ e ‘Uma Abelha na Chuva’, além da sua poesia de carácter social.