Livros que deixei a meio (13)


Pedro Correia,

 

DUNE

de Frank Herbert

 

Todos temos, suponho eu, um amigo que se destaca dos restantes — aquele que se torna mais cúmplice, mais confidente, com quem partilhamos mais em detalhe os nossos anseios e aspirações. Acontece muitas vezes, no entanto, que os melhores amigos vão variando, conforme as idades e as circunstâncias.

Nos meus anos de liceu o meu melhor amigo era o único que tinha sido meu colega na instrução primária. Com ele — e mais uns tantos — iniciei aos 16 anos um grupo de cinema e um suplemento literário num dos mais conhecidos jornais regionais do País. O grupo de cinema, que se chamava Focus, teve existência efémera: durou um ano exacto e saldou-se por dois filmes — um documentário enaltecendo os valores ecológicos e uma fita de ficção com um argumento vagamente de espionagem, um tópico da adolescência masculina — que ficaram incompletos, por falta de verba e de entusiasmo. Mas o suplemento sobreviveu muito mais do que as nossas melhores expectativas iniciais: durou oito anos e acabou por congregar acima de uma centena de colaboradores. 

 

Com esse meu amigo, hoje professor em Setúbal, comecei a partilhar a paixão do cinema com filmes tão diversos como Os Homens do Presidente (Alan J. Pakula), Barry Lyndon (Stanley Kubrick) e Escândalo na TV (Sidney Lumet). Mas em matéria literária os nossos gostam dividiam-se irremediavelmente: o género favorito dele era a ficção científica enquanto o meu era a literatura policial, enquanto consumidor fanático da Colecção Vampiro. Cada um de nós detestava aquilo de que o outro gostava. E garanto-vos que não era por falta de proselitismo de parte a parte.

Sobretudo da parte dele.

Volta e meia lá vinha eu para casa com uma obra de Robert Heinlein, Clifford Simak ou Arthur C. Clarke.

Em vão: não me converti.

Mantive-me igualmente indiferente à saga The Lord of the Rings, de Tolkien, que ele lia no original e de que dava nota no tal suplemento literário que editávamos muito antes de a adaptação cinematográfica ter celebrizado o autor britânico em todo o mundo.

 

Mas um dia os esforços dele tiveram sucesso: emprestou-me um livro da Colecção Argonauta que me deixou fascinado. Nunca esqueci o título nem o autor: Os Amotinados do Polar Lion, de Mordecai Roshwald. A história de um submarino nuclear cuja tripulação proclama a independência, passando a agir por conta própria para terror das grandes potências, impotentes perante este perigoso intruso dos oceanos.

Superado o teste, logo me passou outra obra: “Vais gostar muito.”

 

Era Dune, de Frank Herbert. Muito antes da tradução para português.

Lá abri o calhamaço mas não se produziu qualquer magia: aquela história desenrolada num planeta distante deixou-me tão indiferente como a releitura da manchete do jornal de anteontem.

Anos depois, quando David Lynch levou este romance ao cinema, mantive a indiferença — a tal ponto que abandonei o filme ao intervalo e nunca tentei revê-lo. Ainda sem saber que a crítica cinematográfica internacional o desancaria sem piedade. 

Por esta altura já aquele meu ex-colega deixara de ser o meu melhor amigo. Não porque alguma vez nos tivéssemos zangado: apenas porque cada um seguiu a sua rota profissional e até geográfica. Outros amigos apareceram, muitos outras leituras se sucederam.

Hoje falamos apenas duas ou três vezes por ano.

Suponho que ele continuará tão distante dos policiais como eu me mantenho à margem da ficção científica. Não fui tocado por esse dom, como Mário Soares costuma dizer para justificar a sua falta de fé religiosa.

 

Mas não conto a verdade toda se não vos disser que pelo menos três livros da minha vida podem incluir-se, lato sensu, no género ficção científica: 1984, de George Orwell; Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley; e Fahrenheit 451, de Ray Bradbury. E nunca deixei de me manter receptivo a esporádicas incursões no género, convicto de que poderia repetir-se o clique ocorrido com Os Amotinados do Polar Lion.

E um dia esse clique aconteceu.

Foi no final dos anos 80, quando o meu convívio diário com esse meu amigo terminara há muito, o suplemento literário chegara ao fim e eu trabalhava como jornalista noutro continente. Por mero acaso, comprei um livro intitulado A Barreira (The Saratoga Barrier, no original).

Comecei a ler a história de um homem que durante uma viagem nocturna de automóvel penetra num mundo insólito, ao mesmo tempo tão familiar e tão diferente daquele a que todos estamos habituados.

Não parei enquanto não cheguei ao fim.

 

Fiquei rendido a esta obra, que não parecia mas era de ficção científica, vagamente inspirada em Horizonte Perdido, de James Hilton.

O seu autor? Frank Herbert.

A vida é feita de constantes retornos. Às vezes damos a volta ao mundo para regressarmos ao lugar de partida.

 

14 comentários em “Livros que deixei a meio (13)”

  1. Temos diferenças de gosto é verdade, já notei ao longo deste blogue, fui fã da coleção vampiro, mas ficção científica para além do cinema, nunca.
    Mas para mim 1984, Fahrenheit 451 não são bem livros de ficção científica e até o Admirável Mundo Novo, são de um género próprio, em inglês “distopy”, a palavra distopia como antónimo da utopia não vingou ainda por cá, que pretende perspetivar evoluções extremistas de tendências da sociedade para alertar o presente, género literário que adoro.
    A canadiana Margaret Atwood tem nas última década explorado, sobretudo em “A história de uma serva” e “Oryx e Crake” já traduzidos, este deu origem ao “Ano do Dilúvio” que penso ser uma sequela menos bem conseguida.

    1. Ora aí está uma autora que ainda não conheço, Carlos. Empreguei o termo ‘ficção científica’ como sinónimo de literatura de ‘antecipação’. Distópica, de facto, em qualquer destes casos. É um subgénero de que gosto muito, como se percebe.

    2. Sim e não. A distopia funciona na prática como um subgénero da ficção científica – como a ficção pós-apocalíptica e os seus outros temas mais tradicionais, do cyberpunk à space opera. De resto, não faria sentido considerar a distopia malthusiana de John Brunner, “Stand on Zanzibar” (um livro formidável), como mera ficção científica, enquanto “Nineteen Eighty-Four”, “A Clockwork Orange”, “Brave New World” ou “Fahrenheit 451” são elevadas à categoria de “distopia”.

      O caso da Margaret Atwood é curioso – ela que venceu o Arthur C. Clarke Award em 1987, e não se dignou a receber o prémio. Daí para cá já reviu um pouco a sua posição – já não se envergonha do género em que escreve, ainda que prefira a designação “ficção especulativa”, tão popularizada por Harlan Ellison, que acaba por fugir mais um pouco ao estereótipo das “lulas alienígenas e naves espaciais”.

      Também poderíamos falar de P.D. James e de “Children of Men”, do início dos anos 90 – uma distopia por acaso magistralmente adaptada ao cinema por Alfonso Cuáron. No caso, não se conseguiu afastar muito – a premissa já tinha sido trabalhada pelo britânico Brian Aldiss nos anos 60, com “Greybeard”… Ou de Cormac McCarthy com “The Road” – um livro que dizem notável (não li ainda, mas quero fazê-lo em breve), e que recupera os temas e a atmosfera de um dos clássicos da FC, “A Canticle for Leibowitz”, de Walter M. Miller, Jr..

      Enfim, isto para dizer que a ficção científica é um género bastante vasto e que os seus temas e as suas convenções são cada vez mais utilizadas por autores mainstream. Alguns assumem-no sem problemas, e mesmo com orgulho (ver Michael Chabom); outros, fogem dele como o diabo da cruz. Mas as coisas são o que são, e não vem mal algum ao mundo e dizer que “The Time Traveler’s Wife”, de Audrey Niffenegger, é um belo romance… de FC. 🙂

      1. Dá gosto ler-te sobre o teu tema preferido, Skywalker. 🙂

        Nunca li “Dune” (o livro de Frank Herbert), mas o filme (de David Lynch) continua a ser o meu preferido no género “ficção científica”. Acho que já falámos sobre isto antes e, se não me engano, não concordas nada comigo. Mas a verdade é que eu não adoro o género, acho é que esse filme é um monumento de elegância e bom gosto.

      2. Pode arrumar a distopia de facto como um subgénero da ficção científica, eu pela minha parte posso dizer que por norma prefiro o subgénero ao género 😉
        Quando li Oryx and Crake não me senti num livro de ficção científica, o pós apocalítico cabe bem aqui, já não tanto na história de uma serva, onde o Canada e a Europa são ainda espaços de liberdade face à ditadura instalada nos EUA, mas penso que Atwood entra na ficção científica quando conta a história do Assassino Cego (também já traduzido) dentro do livro homónimo que foi booker prize e confesso que gostei do livro com cruzamento de estórias de ficção na história do Canada e outra em mundos imaginários neste original romance.

        1. Eu gostei muito de ler as mais de 600 páginas do Assassino Cego, que li quando ela ganhou o Booker em 2000.
          É um daqueles livros com uma história dentro da história que, às vezes, não são nada fáceis de ler.
          Anteriormente li o “Cat’s Eye” mas já não me lembro bem da história, apenas que era contado em flashbacks à medida que a protagonista ia recuperando a memória.
          Vencedora e 5 vezes shortlisted do Booker, vencedora do Príncipe das Astúrias e de tantos outros prémios, eis mais uma boa escritora oriunda do Canadá.
          🙂 Antonieta

        2. E não há mal nenhum nisso – longe de mim criticar as preferências (e também eu gosto muito de distopias, acredite – uma vez mais, permita-me recomendar “Stand on Zanzibar”, de John Brunner).

  2. “Dune” é, na minha opinião, um dos livros mais sobrevalorizados da ficção científica. Não por não ser bom – é bastante bom, até. Mas não é “tão” bom como é habitualmente descrito (podia mencionar dois ou três épicos do género bem mais interessantes em termos temáticos, narrativos e estilísticos).

    Mas acabei de o ler, claro. Já as duas sequelas estão encaixadas na estante há mais de três anos – comprei-as muito baratas na Fnac – e ainda não lhes peguei.

      1. Ui, muito haveria a dizer sobre este tema!
        Mas tbém sobre “Livros que li mais do que uma vez”…
        Pedro, a propósito do “El Amor de mi Vida”, que já recebi (eternamente grata à Ana Vidal), gostei de saber que a Rosa Montero gosta muito da PH.
        Bom Domingo!
        🙂 Antonieta

        1. Vai ser um dos próximos livros que lerei, Antonieta. Já espreitei umas partes, nomeadamente aquela em que ela aconselha o leitor a saltar dezenas de páginas da ‘Montanha Mágica’, repletas de verborreia monótona e redundante. Um conselho que considero muito acertado.

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