Livros que deixei a meio (1)


Pedro Correia,

 

20 MIL LÉGUAS SUBMARINAS

de Júlio Verne

 

O primeiro livro que me lembro de ter deixado a meio foi um daqueles de que mais gostei. Custa a crer, bem sei, mas eu já explico.

 

Há livros que devemos ler na idade própria – nem cedo de mais nem tarde de mais. Nunca compreendi aqueles pais que se apressam a proporcionar aos filhos, ainda muito novos, literatura “adulta” para “amadurecerem” com maior rapidez. Também me faz alguma impressão ver adultos mergulhados numa espécie de infância retardada, deliciando-se com a leitura das histórias do Tio Patinhas. Nada melhor do que tudo ocorrer no tempo certo.

Parafraseando o outro, a propósito de algo bem diferente, eu fui um miúdo do meu tempo. Devorei as aventuras dos Cinco e dos Sete, era fanático de banda desenhada, não perdia uma série do bom velho Oeste na televisão (Bonanza, O Maioral, Os Monroe, Shenandoah, High Chaparral). E não perdia também uma só obra de dois autores muito lá de casa: Jack London e Júlio Verne.

 

Associo sempre muitas tardes da minha infância aos livros do aventureiro norte-americano, com as magníficas capas multicoloridas da editora Civilização, e do respeitável burguês de Nantes, que pôs várias gerações de jovens a percorrer o globo sem saírem das quatro paredes do quarto.

Apreciava particularmente o Verne editado pela Bertrand no início dos anos 70, com uma estampa antiga emoldurada por um grafismo moderno. Nunca soube quem era o autor destas capas: julgo que tal referência não constava da ficha técnica. Mas presto-lhe hoje homenagem. Este é um dos segredos editoriais para consolidar uma legião de leitores fiéis.

E, claro, havia a sedução da própria escrita de Verne – didáctica sem nunca ser maçadora, capaz como poucas de nos prender a atenção no fim de cada capítulo, abrindo o apetite para o capítulo seguinte – técnica herdada dos melhores textos folhetinescos, relíquia de um tempo em que o jornalismo era indissociável da literatura.

 

Li vários livros dessa colecção: cada um deles era uma espécie de tesouro íntimo para um garoto como eu, então à descoberta do fascínio da literatura. Tenho ainda muitas dessas obras: A Volta ao Mundo em 80 Dias, O Náufrago do Cynthia, O Bilhete de Lotaria nº 9672, Viagem ao Centro da Terra, A Carteira do Repórter, Os Filhos do Capitão Grant, O Farol do Cabo do Mundo, Matias Sandorf.

Mas a Bertrand editava por vezes algumas destas obras, um pouco mais extensas, em dois volumes. Eu ignorava tal facto até ler, absolutamente empolgado, o primeiro volume d’ A Mulher do Capitão Branican: chegando ao fim, deparei com o aviso de que a continuação viria noutro tomo da mesma obra. Corri à procura dela: estava esgotada. Só muitos anos depois, já quase esquecido do empolgamento juvenil, adquiri esse outrora ansiado segundo volume.

Mas – como seria de esperar – o fascínio perdera-se.

Aconteceu-me o mesmo com as 20 Mil Léguas Submarinas. Com a diferença de que este foi um romance que me atraiu ainda mais. Não tenho a menor dúvida em classificar o capitão Nemo entre as grandes figuras de sempre da literatura mundial. Recordo as ementas minuciosas das refeições a bordo do submarino e a atmosfera claustrofóbica daquelas cenas. E não esqueço a aura de mistério que envolvia Nemo.

 

Terminei o primeiro volume: a mesada não chegava para o segundo. Quando chegou, já não havia o livro. Nem no mês seguinte, nem no ano imediato.

Nunca li a segunda parte das 20 Mil Léguas Submarinas. Talvez com receio de que a magia se perdesse para sempre, como sucedeu com A Mulher do Capitão Branican.

Assim permaneceu intacta.

 

4 comentários em “Livros que deixei a meio (1)”

  1. “Na altura certa” li Os Filhos do Capitão Grant, mas apenas os primeiros dois volumes (em livros de bolso da Europa-América). Só este ano consegui comprar o terceiro, e último, volume. Claro que aprovei a oportunidade para reler tudo desde o início…

    1. Certos autores ganham muito em ser lidos em determinadas idades. É o caso de Verne. Tive o privilégio e a sorte (as leituras também são feitas de múltiplos acasos) de o ler ainda em miúdo e durante toda a adolescência. Mas, talvez até por isso, é um autor a que regresso sempre com prazer – como se viajasse numa máquina do tempo. Basta-me desfilar alguns dos títulos lidos durante aqueles anos para recuperar o prazer que a obra dele me deu. ‘Os Filhos do Capitão Grant’, sim. E também ‘Cinco Semanas em Balão’, ‘A Volta ao Mundo em 80 Dias’, ‘Dois Anos de Férias’, ‘A Escola dos Robinsons’, ‘Da Terra à Lua’, ‘Viagem ao Centro da Terra’, ‘Miguel Strogoff’…

  2. Vantagem de ter lido na juventude obras disponibilizadas pelas bibliotecas itinerantes da Gulbenkian foi nunca ter ficado pendurado por dinheiro a meio de uma obra com vários volumes… mas não me lembro de ter lido Jack London

    1. Foi uma vantagem, sim, Carlos. Por mim, nunca deixarei de estar agradecido às bibliotecas escolares que me permitiram descobrir autores e rasgar horizontes – literários e não só. Falarei disso no próximo texto desta série.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *