Porque será que tantas pessoas que se dizem amantes de livros insistem em dizer “desfolhar” (em vez de “folhear”) um livro, sem perceber que estão a contradizer-se por completo? Desfolhar um livro é arrancar-lhe as páginas, mutilá-lo, maltratá-lo. E um livro é tantas vezes um espelho de nós, como na história de Dorian Gray. A ironia está em que destruir um livro é partir esse espelho, negando-o e negando-nos. Ou seja, desejarmos a nossa própria destruição.
(Foto: Chema Madoz)


Destrocar, despoletar, deslavourar
Deslavourar nunca tinha ouvido, Vasco. Mas, pensando bem, é um verbo que descreve bem o que se passou nas últimas décadas com a agricultura portuguesa. 🙂
Não será uma questão diatópica? Nunca ouvi o termo com essa aplicação aqui no Sul.
Talvez seja, CeC, por aqui a confusão é frequente. Ou então teremos de concluir que há menos ignorância no sul do que na capital…
Desfolhar, nem um malmequer num lindo jardim de Santarém, como na música. Parece que as Portas do Sol foram “intervencionadas” e estão de chorar…
Não vou às Portas do Sol desde o tempo em que os animais falavam, Fanas. O que é isso de terem sido “intervencionadas”? Não tenho a certeza de querer ouvir a resposta…
ler um livro não é suficiente ?
tem que se partir sempre para palavras de sete e quinhentos e depois dá no que dá …
Pode-se folhear (ou desfolhar) um livro sem lê-lo, Anónimo.
Claro que se deve dizer folhear
Mas quem o “desfolheia” pelo menos pegou nele, quem sabe até leu, às tantas guardou.
Na estante e na alma.
É tudo relativo, não?
Parabéns, Era Uma Vez, acabou de inventar um terceiro verbo à lista: desfolhear. Nem tudo é relativo na língua portuguesa.
Talvez não seja isso, os amantes da literatura (ou, melhor, os amantes dos livros) desfolham-nos para deles mais se apropriarem, para “devorarem” as páginas, as letras. Não será isso?
És um romântico, Jpt. Gosto da ideia de devorar um livro, literalmente. E literariamente, afinal. 🙂
Este tipo de questões apaixona-me. Outro exemplo é a frequente confusão entre “adesão” e “aderência”.
Adorei o post, Ana!…
São inúmeras as barbaridades que se ouvem por aí. E é tão bom saber que ainda há quem se importe e esteja atento e chame a atenção…
Beijinho
Isabel Mouzinho
“adesão” e “aderência” é outro clássico, Isabel: até os políticos e os jornalistas fazem constantemente essa confusão, como se uma causa tivesse cola.
Beijinho