Livraria Portugal vai fechar


Teresa Ribeiro,

Foi a livraria da minha infância e adolescência. Depois comecei a traí-la. Parava sempre diante da montra quando passava pela Rua do Carmo, mas já não entrava, sei lá porquê. Agora foi-se e sinto-me culpada por me ter deixado manipular pelo marketing da concorrência, eu que até tenho a mania que sei resistir a essas coisas.

18 comentários em “Livraria Portugal vai fechar”

  1. Das minhas memorias de infância são de por lá passar aos sábados de manhã levado pela mão do meu falecido Pai.

    Que cidade esta em que não consigo conservar memorias, tudo é, mais cedo ou mais tarde, betonizado ou reconstruido em diferentes moldes.

  2. Na zona a Portugal sempre sofreu um pouco com a falta de cuidado com a imagem para o comprador casual. Comparado com a Bertrand e a Sá da Costa dava a ideia que vendia livros com menos qualidade o que não era verdade.

    Mas isto é também consequência de um país e cidade a consumirem cada vez mais impostos e regulamentos afugentando pessoas de Lisboa e assim destruírem economia livre.

    1. Reconheço que houve essa falta de cuidado com a imagem, mas em compensação o atendimento era exemplar. Por esse motivo é que em miúda – eu era uma miúda tímida – preferia ir à Portugal. Tratavam-me sempre com a maior delicadeza.

      1. O seu comentário tem uma triste razão de ser: o mau atendimento nas lojas portuguesas, que força uma menina tímida a cálculos que não deveriam ser necessários.
        Às vezes, no estrangeiro, nas lojas, sinto um bem-estar que, descobri, vem da ausência dos defeitos das lojas daqui. Já há anos o MEC escreveu uma brilhante crónica sobre a luta de classes nos restaurantes portugueses… Tenho muita pena da Portugal, com a fachada modernista e o interior muito simples.

  3. É uma pena ver desaparecer uma livraria, também ela da minha juventude.
    Quando alguma livraria não tinha determinado livro, na Portugal havia quase de certeza. Lá comprei alguns dos mais “estranhos” livros que tenho:
    o dicionário do (In)verso, um Lunário perpétuo, só para exemplificar.

  4. Lamento esta notícia.
    Fazia parte das paragens obrigatórias quando caminhava com a minha mãe até à Praça D. Carlos..e mais tarde das minhas paragens de curiosidade livreiras…fazia parte do meu trilho, de um trilho que me alegrava e alegra ao recordar.

  5. Infelizmente não temos, como na afortunada Barcelona de Zafón, um cemitério dos livros perdidos …

    1. A Amazon permite passar por cima das más traduções e, agora, do acordês.
      À minha conta, desde Outubro já lá vão 10 ou 11livros que mandei vir da Amazon UK por causa das ortografias. Bem dizia um velho senhor, que o «acordo ortográfico» tinha feito disparar a leitura… em inglês.

  6. Comprei os meus primeiros livros na Portugal ainda adolescente, na década de 70. O meu primeiro álbum de cinema, por exemplo, foi aqui comprado. Sempre achei graça à atmosfera quase familiar desta livraria, em contraste com a frieza algo sorumbática da Sá da Costa e com a eficácia quase industrial da Bertrand. É mais um marco no roteiro comercial da Lisboa histórica que chega ao fim.
    Associo-me ao teu lamento, Teresa, como cliente irregular de algumas décadas.

  7. É engraçado que refiras a culpa, Teresa. O meu último elo com as compras no Chiado foram as livrarias. Não sei porquê, o Chiado era o único sítio de Lisboa onde eu gostava de procurar e comprar livros, mesmo muito depois de ter deixado de ir às outras lojas. Por fim também lá me converti à FNAC (é tão prático!) mas sempre me senti culpada dessa “traição”. Foi um pouco como trair a memória do meu pai, que me levava pela mão e me apresentava os livreiros do Chiado com o prazer de quem apresenta os amigos. Coisas dos afectos, como diria a nossa Helena. 🙂

    (que pena a Portugal… mas era inevitável)

  8. Era e será a minha Livraria, ainda que conforme muitos, não entrasse lá desde há algum tempo (ainda que, por questões particulares que não se prendem com a troca à modernidade). A Portugal, por questões familiares, está-me nos genes…e foi de lá que vieram toda a Enid Blyton; Astérix o Gaulês e todos os que se seguiram; os Posters; os discos em Vinil da área do Jazz. Havia de ser em seguida, o meu primeiro emprego, no grande e único (à época) Boletim Bibliográfico, que me permitiu manusear e sentir os milhares de livros que davam entrada. Atrás deles tive o previlégio de conhecer dois humildes mas Grandes homens; Jorge Pimenta e o Prof. José Pedro Machado. Foi a época do boom da “Rua do Carmo” nos inicias anos 80. Saudades sim dessa Lisboa, onde ao meio-dia e meio de cada sábado, saía para a rua e adquiria um LP na discoteca quase em frente. O cheiro a café que subia do Rossio; o som doviolino com pai e filho junto ao elevador de St. justa… o Arnaldo que deambulava rua acima e rua abaixo a dizer de sua justiça.
    É autênticamente mais um pouco de mim que morre… da mesma forma que morreram as árvores da minha infância ou os meus primos queridos.
    O Chiado de hoje continua a ter para mim, o sabor bom de há 30 anos, através da Portugal. Daqui a meses já não terá… da mesma forma que para muitos de nós ele tenha sido mudado com a falta dos grandes Armazéns.
    Somos nós a passar pelo tempo e a deixarmos nele aquilo que vamos sendo. Garantidamente que não te direi para já, adeus, Livraria Portugal.

  9. confesso que nunca cheguei a entrar na livraria mas quado soube que ia fechar resolvi ir pesquisar porque o meu falecido avo tinha la trabalhado durante muitos anos. sou neta do jorge pimenta e foi com muito orgulho que aqui vi este simples elogio que não me deixou de emocionar. muito obrigada

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