Lisboa antiga (2)


Pedro Correia,

 

RUA DA MISERICÓRDIA (antiga Rua de São Roque)

«O chuveiro parara, um bocado de azul lavado apareceu entre nuvens. E Carlos descia a Rua de São Roque — quando encontrou o marquês, saindo de uma confeitaria, tristonho, com um embrulho na mão, e o pescoço abafado num enorme cache-nez de seda branca.»

Eça de Queiroz, Os Maias

Foto: blogue Rua dos Dias que Voam

10 comentários em “Lisboa antiga (2)”

  1. Eu não sei onde é que esta malta cometeu os delitos de farra universitária, mas os meus foram e ainda são nesse mítico Bairro Alto.

    Ai, se as pedras da calçada desta rua falassem. Misericórdia por ali não há, que aquilo tem uma inclinação obscena para quem volta do Bairro.

  2. O léxico do Eça! O cache-nez, os escarpins de baile, o ‘ruge-ruge’ dos vestidos, os ataques de ‘spleen’, a ‘seca’, o ‘ferro’… E o Gouvarinho? “Grave e oco como uma coluna do Diário do Governo”! Às vezes lá me sai o epíteto 😉

      1. E o génio das referências ao gato de Afonso da Maia que de D. Bonifácio de Calatrava passara a Reverendo Bonifácio.

        O «Reverendo Bonifácio», que desde que se tornara dignitário da Igreja comia com os senhores, lá estava já majestosamente sentado sobre a alvura nevada da toalha, à sombra de algum grande ramo. Era ali, no aroma das rosas, que o venerável gato gostava de lamber, com o seu vagar estúpido, as sopas de leite, servidas num covilhete de Estrasburgo. Depois agachava-se, traçava por diante do peito a fofa pluma da sua cauda, e de olhos cerrados, os bigodes tesos, todo ele uma bola entufada de pêlo branco malhado de oiro, gozava de leve uma sesta macia.

        Este “gozava de leve uma sesta macia” é sublime.

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