Ando há uns dias a fazer desaparecer arquivos contabilísticos com mais de dez anos, de uma empresa comercial. É incrível a quantidade de papel necessária para que um negócio possa cumprir as suas obrigações fiscais e contabilísticas.
Facturas de compras, de venda, recibos, guias de transporte, listagens para conferência, listagens conferidas, listagens de inventários, extractos bancários, talões de depósito, cópias de cheques, autocopiativos de talões de caixa, fechos de multibanco, entre muitos outras tralhas não contabilísticas como catálogos, preçários, tabelas de preços, de pesos e medidas, de campanhas e promoções.
Uma PME, que é a dimensão mais habitual do tecido empresarial português, produz com facilidade um metro cúbico de arquivo por ano. Estes arquivos que me têm passado pelas mãos respeitam a cerca de dez anos. Foram retirados das respectivas pastas e encaixotados de forma a reduzir o volume total e o seu peso ultrapassa a meia tonelada.
Lembrei-me várias vezes do lamento da nossa colega Zélia Pereira quando questiona sobre o propósito de algumas árvores que são abatidas para que sejam impressos certos livros. O mesmo raciocínio pode aplicar-se aos registos contabilísticos que por sua vez irão alimentar os registos fiscais. Coitadas das árvores que tombaram para tão miserável propósito.
Mas com um olhar mais atento é possível ver também em cada factura o rosto de um cliente, de um vendedor, de um transportador, de um artigo e da sua finalidade. Este é um exercício verdadeiramente nostálgico. Algumas notas feitas pela caligrafia de quem já não está cá, assuntos que para serem resolvidos preencheram dias e dias, que obrigaram a telefonemas a confirmar quantidades, a exigir pontualidade, a exigir explicações ou a ter de as dar a alguém. Dos artigos que se observam de relance numa factura, alguns já estão obsoletos, outros não cumpriram com o prometido e outros ainda estão agora muito mais caros ou esgotados. Logo depois salta à ideia do que teríamos feito de diferente se soubéssemos o que sabemos agora. Aqui e ali, recordei-me de bons negócios, daqueles em que todos os envolvidos ganharam, assim como de outros que levei para casa, que atacaram com sucesso o chamado “tempo livre” e que mereciam ir para a antologia do que nunca deve ser feito. Alguns deles, quando terminados, permitiram um respirar aliviado, enquanto outros pressionaram-me o interior ao ponto de algum órgão ter ficado dorido.
Da mesma forma que podemos ver o tempo decorrido nos anéis do tronco de uma árvore, também o podemos fazer nos arquivos contabilísticos de um negócio. Todos aqueles registos são como uma agenda onde podemos recordar o que fizemos.
Mesmo sabendo que um dia todos seremos esquecidos, deixei de lado uma pequena fracção daquelas centenas de quilos para memória futura.

Eis, nestes parágrafos, uma vertente importante do estado da nação, Paulo. O País andaria melhor se grande parte dos governantes e dos deputados, ao contrário do que hoje sucede, conhecesse por dentro a vida de uma empresa – sobretudo das empresas que geram 95% dos postos de trabalho em Portugal, que são as de pequena e média-baixa dimensão.
Infelizmente é possível chegar ao Governo e permanecer lá anos e anos (Costa está há 15 anos e três meses, como PM, ministro e secretário de Estado, desde 1995) sem nunca ter feito tal experiência.
Todas as exigências fiscais, contabilísticas, administrativas e de regulamentos, que constantemente são alteradas, desviam as atenções e consomem recursos sempre escassos e obrigam a um permanente estado de alerta, Pedro.
As variáveis críticas de um negócio deveriam andar à volta da relação com o cliente, com os fornecedores e com a concorrência, mas a mudanças e imposições constantes impostas pelo estado equivalem a uma constante alteração do plano sobre o qual se colocam os pés. É impossível cumprir todas as disposições e perante a possibilidade do azar de se ter uma visita das autoridades, existirá sempre algo por onde pegar. Lida-se com essa possibilidade tal e qual como as seguradores lidam com os sinistros. De vez em quando acontecem e temos de seguir em frente sem queixumes. ´
A quantidade de mapas e declarações de afixação obrigatória é incrível e obriga a uma parede inteira só as as estacionar. Mapas de férias, certificação fiscal do sistema informático, planos de segurança e higiene, prioridade de atendimento, livro de reclamações e muito mais. Paga-se a alguém para reduzir o risco de ser multado pela não afixação de toda essa parafernália e que depois ninguém gasta um segundo a olhar para eles. É quase como um esconjuro, um escapulário ou um amuleto.
E sim, tal como é voz corrente, é óbvio que a nossa falta de produtividade resulta do baixo nível de formação do nosso tecido empresarial.
as árvores que originaram papel escaparam aos incêndios.
ouvi que havia cerca de 4 ou 5 mil taxas
Isso é bonito para as operadores telefónicas, eléctricas e bancos enviarem a correspondência em formato digital e assim empurrarem o custo da impressão para os seus clientes, sim, porque não é possível arquivar elementos contabilísticos que não estejam impressos.
Duas questões:
Não estará a infringir a Lei, não são 12 anos em vez de 10 anos para guardar a papelada?
Se o tecido empresarial é burro porque não avançam as inteligências de tantos Doutorados? Teríamos um país na vanguarda e havia tanta felicidade.
Segundo o contabilista são 10 anos. Se for mais entramos no cenário dos sinistros que referi no meu comentário ao Pedro Correia.
Limpar arquivos: ora aí está uma bela maneira de descobrir o que é um ataque de asma.
As máscaras não servem só para a Covid.
Veja artº 118 ponto 2 —- 12 anos. Foi aquele tipo sério do CDS Paulo Núncio.
Na verdade ontem acabei com um resto para o caixote do lixo de 2015. Que se lixe!