Leio as notícias sobre a inciativa Limpar Portugal e percebo o seu valor metafórico. Uma ministra arrastada por um movimento de cidadãos a ajudar a limpar Portugal é uma imagem que tem, nos tempos que correm, uma forte carga simbólica. Lamento já não conseguir o link, mas recordo que há um par de semanas saíram notícias nos jornais que indicavam que a falta de confiança dos portugueses na nossa democracia e respectivas instituições atingiu os valores mais baixos dos últimos 25 anos.
Mas sempre houve queixas. Cresci a ouvir bocas sobre os donos do poder. Dessas generalizações gratuitas de taxista o que não era gratuito e nos caracterizava como povo era o tom lamuriento desses desabafos, reflectindo o conformismo que conduzia áquela apatia morna de que tão bem nos falou O’Neill.
Mansos, quase vegetais, os portugueses têm sido o povo mais fácil de desgovernar do mundo. Uma tentação para quem chega ao topo com o ADN tuga nas veias: para quê mudar, se tudo pode ficar na mesma?
Mas onde a democracia funciona, a sociedade civil é organizada e forte. De acordo com um estudo sobre voluntariado em Portugal feito em 2002 pelo Instituto de Ciências Sociais de Lisboa (o único feito a nível nacional até ao momento) nos países nórdicos, mais de 80% dos cidadãos prestam serviço cívico gratuito enquanto que em Portugal só 16% da população participa desta forma na sociedade.
Elza Chambel, presidente do Conselho Nacional para a Promoção do Voluntariado, diz porém, que há em Portugal muitos voluntários não comprometidos, que participam em acções períódicas, embora não estejam disponíveis para se envolver em programas permanentes.Tal explica o êxito de iniciativas como o Banco Alimentar contra a Fome.
Limpar Portugal também nasceu e cresceu por impulso. Há meses, embora tendo reflectido uma reacção corporativa, o movimento de professores nasceu, surpreendentemente, à margem dos sindicatos e acabou por levá-los a reboque na contestação ao governo. Os portugueses são mobilizáveis. Dêem-lhes causas e a convicção de que podem alcançar resultados e eles aparecem, disse-me há tempos em entrevista a Helena Roseta, líder, como se sabe, de um movimento de cidadania que tem assento na Câmara de Lisboa.
Aqui e ali vejo sinais. Pela primeira vez um homem ligado a uma ONG, Fernando Nobre, candidata-se à presidência da República. Na net nascem todos os dias petições a favor de causas públicas.
Nos jornais, que reflectem l’air du temps percebe-se nas linhas das opiniões e nas entrelinhas das notícias uma inquietação nunca vista. Cheira a fim de regime. Não falo de mais uma mudança de ciclo, mas de algo que transcende a política partidária
Talvez ainda não por princípio, mas por necessidade os portugueses estejam a mudar, a ficar fartos do sistema. Por uma vez talvez decidam começar a cobrar e a dar trabalho a quem os governa. Oxalá.

Desculpa, Teresa. Pus-me a tentar ser útil nos retoques quando percebi que ainda estavas nos acabamentos. Penitencio-me por isso e espero não te ter surpreendido…
Tenho o péssimo costume de postar primeiro e editar depois 🙂
A propósito, sugiro este cartoon delicioso do JB:
http://bandeiraaovento.blogspot.com/201 0/03/bandeira-de-papel_04.html
Hehe…
Isto é:
:o)
Já fui lá. Está o máximo. Gosto muito do Bandeira ao Vento.
Eu também sou fã. O JB é completo: desenha bem, tem uma graça requintada, erudição e um português irrepreensível. Assim dá gosto!
Junto-me a vocês no clube de fãs do Bandeira. Ando até a pensar convidá-lo a passar por cá com alguma assiduidade. Acham bem, meninas?
Eu aplaudo freneticamente a ideia!
🙂
Retenho estas tuas palavras, Teresa: «Cheira a fim de regime. Não falo de mais uma mudança de ciclo, mas de algo que transcende a política partidária.» Penso o mesmo, sinto o mesmo.
Ao menos que esta crise infinita sirva para alguma coisa.