Limianos


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Paulo Portas, que desta poda muito sabe, já avisara. Os deputados PSD da Madeira poderão de “modo autónomo” (ou seja, em acordo partidário esconso) viabilizar o orçamento, coisa que o seu dirigente já veio confirmar.

Convirá recordar que numa época de “vacas gordas” (apesar do então celebrizado “discurso da tanga”) o PS de Guterrres fez um acordo parlamentar esconso com o CDS de Portas, através do manuseio de deputado Campelo, que aparentemente tudo trocou pelo queijo Limiano. O presidente Sampaio muito hesitou em aceitar tal solução. Os seus conselheiros dividiram-se na opinião. Mas acabou por aceitar tal opção – que de facto foi uma violação do espírito da constituição e, como tal, um perjúrio presidencial. Morreu, em paz, sem que tivesse sido efectivamente escrutinado por tal cedência.

O arranjo “limiano” – cujo vero conteúdo se comprovou, para quem pudesse ter dúvidas, quando o deputado Campelo, apesar de ter sido temporariamente sancionado pelo seu partido, veio a ser chamado para o governo quando Portas a ele acedeu – foi pestífero. Provocou um bamboleio tal que o governo caiu dois anos depois, apesar do PS ter exactamente metade dos deputados. Nesse trambolhão promoveu ao poder uma inconsequente direcção do PSD e causou uma atrapalhada sucessão no PS que desembocou numa incompetente direcção que logo se veio a desagregar, em rumo espúrio. Disto tudo brotou o longo consulado do pérfido José Sócrates – que as pessoas das lideranças políticas já bem conheciam, por mais vestais que se queiram continuar a afirmar. 

Toda aquela marosca, repito, foi no tempo “das vacas (europeístas) gordas”. E teve o deletério efeito de longo prazo que teve. Agora, neste estado endividado, (quase) pós-pandémico e diante da crise internacional anunciada, não há espaço para tais artimanhas. E temos o pior presidente da república da história do regime, o mais volúvel e superficial, homem desprovido da gravitas que Sampaio tinha. Incapaz de pensar o país para além da sua vácua vaidade. Só podemos exigir a Rui Rio que não se ponha com brincadeiras destas. E a Costa que tenha tino. E vice-versa.

9 comentários em “Limianos”

  1. Já não seria a primeira vez que os deputados madeirenses do PSD fariam essa gracinha. Recordo-me de pelo menos um orçamento de Guterres que passou com a abstenção deles. Não me recordo é se já foi quando Marcelo estava à frente do PSD.

  2. Qual a diferença entre isto e a gerigonça? Não é também uma transacção?
    Porque é grupos o podem fazer mas uma pessoa não?

      1. Foram 4 anos de limianismo. Limianismo assumido, de papel passado, de Estado, mas foi isso: troca de aprovações por favores.
        O próprio Bloco diz, e com orgulho, que nunca jamais em tempo algum teve participação na governação, isso foi o PS em exclusivo.

        1. Não, Anonimus, não foi. Na democracia os partidos representam interesses particulares e contêm perspectivas diferenciadas (por isso são “partidos” e não “uniões” ou “frentes”, como em alguns outros regimes costumam ser, ainda que em democracia também surjam retóricas nacionlistas dessas). Isso não obsta a que queiram (ou afirmem querer) um bem global, nacional, que entendem depender da defesa prioritária de determinados grupos. Concordemos ou não com isso, ou com alguns desses objectivos, essa é a realidade. O que acontece, e principalmente em coligação, é a defesa desses particulares interesses/grupos – e mesmo na oposição [o PCP com os grupos sindicalizados, Portas na época dos “lavradores”, etc, apenas como exemplo]. Mas uma coisa é fazer-se de modo explícito uma coligação governamental ou acordos de suporte governamental entre partidos (como este em que vivemos), em que os partidos envolvidos procuram priorizar determinadas políticas e determinados interesses colectivos. Isso pode ser criticado pela coerência e competência das políticas seguidas.

          Outra coisa completamente diferente é o tal limianismo, um acordo subterrâneo, clandestino, entre dois partidos para viabilizar um governo. São duas coisas completamente diferentes. Insisto, se aquilo foi escandaloso na altura, ainda mais o foi quando Campelo foi depois alcandorado a (breve) membro de um governo com a participação do PS.

  3. Nunca percebi porquê tanta indignação com Campelo porque ele negociou um conjunto de benesses para o distrito de Viana, que o elegera (bem mais do que a tal fábrica), quando boa parte das negociações se fazem trocando interesses partidários. Este ao menos pensou mais nas populações do que no partido. E no governo em que participou o PS não estava envolvido – era secretário de estado de Assunção Cristas, logo de Passos Coelho.

    1. Não terei sido totalmente explícito na minha formulação: disse que Campelo foi para o governo quando Portas (o seu líder no CDS, quando ele fez o acordo viabilizador do governo e que o dirigia quando Campelo, na sequência disso, foi ou expulso ou suspenso, já não recordo) ascendeu ao governo. Ou seja, não disse que Campelo foi para o governo com o PS.

      Quanto ao resto que diz, sumarizo-o assim: é o elogio do caciquismo e a recusa da pertinÊncia dos partidos. Um tipo é eleito pelo eleitorado de um partido e depois negoceia independetemente com o poder, em função de interesses particulares (seja os de um distrito, de um concelho, de um lugarejo, de um grupo de pressão [identitário, económico, desportivo, religioso, etc]) Francamente, podemos criticar o cinzentismo da mole de deputados, o afastamento partidário face â sociedade. Mas esta via assim defendida é a perversão da democracia parlamentar. De qualquer forma, e independemente desta consideração mais geral, e tal como botei no texto, o criticável no caso é que o que se passou nem foi essa deriva, pois tratou-se de um acordo de incidência parlamentar entre dois partidos, o PS do govenro e o CDS da oposição, que optaram por esta rábula, em forma de acordo clandestino. Foi uma vergonha, um ataque ao espírito da constituição. Sem rodeios, tratou-se de algo inadmissível. Indefensável. Mesmo em termos de honorabilidade.

      1. Continuo a achar que entre obter benefícios meramente partidários sem qualquer benefícios para o país e obter algumas benesses palpáveis para as populações, antes o segundo. O caciquismo é antes de mais a dominação e perpetuação de um poder local., que não é ue se sobservou ali. Populismo muito possivelmente, mas não caciquismo. Vemos constantemente as queixas das populações de variados pontos do país e depois admiramo-nos se nalguma oportunidade tentam conseguir resposta a essas reclamações?

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