Lições da História, verdadeiras ou enviesadas


João Pedro Pimenta,

Churchill é citado e invocado por tudo e por nada. No momento actual, tanto pode ser usado pelos que recordam que a humilhação da Alemanha levou mais tarde ao seu rearmamento como pelos que lembram que se opôs tenazmente ao apaziguamento a Hitler que originou o Anschluss, a entrada na Checoslováquia e por fim a invasão da Polónia.

A situação actual, infelizmente, presta-se a essas lições da História. Não é preciso aplaudir-se a grave crise por que os russos passaram nos anos noventa, após o fim da URSS, ou concordar com a secundarização do maior país do mundo para se aprovar as acções de Vladimir Putin. É verdade que a Rússia devia ter sido mais apoiada nos tempos da Ieltsin, que a tentativa de cercá-la de países da NATO se mostrou precipitada e que acossar um “urso” ferido revelou-se um grave erro. A isso também se podia acrescentar o reconhecimento do Kosovo como país independente, retirando-o à Sérvia na totalidade gerando uma “Grande Albânia” (até nos ministérios de Pristina se vêem bandeiras albanesas) e criando um estado falhado no coração dos Balcãs.

Nada disso impede que o que se está agora a assistir seja a recriação da teoria do Espaço Vital pela Rússia. Ficou claríssimo quando Putin negou o próprio direito à Ucrânia de ser independente, mas já vinha sendo demonstrado com as tomadas de território ucraniano de 2014 e da Geórgia de 2008 (e até antes, com as guerras no Cáucaso em meados dos anos noventa), além da vassalagem crescente de Lukashenko da Bielorrússia. Sim, talvez Putin não ameace o mundo todo, mas a comparação com a Alemanha de finais dos anos 30 é inevitável, e poderíamos acrescentar outros elementos, como a propaganda desenfreada, não já tanto pela rádio mas por inúmeros canais da net. Acresce que os ataques informáticos, em boa parte vindos da Rússia, estão a tornar-se crescentes em número e perigosidade.

E tal como então não faltam “quintas colunas” no Ocidente a favor de Putin. Em Portugal não serão assim tantas, mas temos à cabeça o inevitável PCP, sempre ao lado dos russos (ou melhor dizendo, contra o Ocidente), para quem a culpa é… da Ucrânia. Certamente pensaram o mesmo da Polónia na invasão alemã de 1939, de tal forma que a URSS entrou pelo outro lado. Mas mesmo fora do PCP encontramos outros idiotas úteis – não por acaso uma expressão atribuída a Lenine e usada para gente que passava a mão no pêlo a regimes destes – que desdenham das democracias liberais, preferindo a alternativa “iliberal”, olham para Putin como exemplo de estadista e de “macheza” e não se coíbem de inventar razões para as atitudes do regime russo, mesmo que extremamente enviesadas e amputadas. São os que recordam que a NATO expandiu-se para leste mas esquecem a promessa russa de respeitar a integralidade das fronteiras ucranianas em troca do desarmamento nuclear. Ou que juram a pés juntos que houve um referendo na Crimeia, omitindo que tal “consulta” não obedeceu às regras mínimas (nem observadores teve) ou nem sequer recordando que os chechenos não tiveram essa oportunidade. Ou que a Ucrânia é regida por uma “junta fascista”, quando depois da dita junta já houve dois presidentes eleitos. Em Portugal esta gente andará mais dissimulada, mas noutros países da Europa são mais detectáveis, como a srª LePen, que recebeu um generoso empréstimo a fundo perdido de Putin, e outros comparsas. 

 

Le Pen e Putin em Moscovo: "Não queremos de forma alguma influenciar os  acontecimentos" | Euronews

 

É esse o desafio que o ocidente tem pela frente: como travar o passo às ambições expansionistas de Putin, agora totalmente escancaradas, num tempo em que há ONU mas há também armas nucleares? Como obrigá-lo a cumprir a legalidade e a não ameaçar vizinhos? Como demonstrar que a Rússia não pode fazer o que quiser sem consequências e sem que isso leve a uma escalada imprevisível, num Mundo que se habituou a guerras por procuração e por interpostos aliados? Não tenhamos dúvida: é um desafio mais perigoso e exigente do que o dos mísseis de Cuba e dos instalados na RDA nos anos oitenta. E mais uma prova de que este século XXI, depois do optimismo que se viveu nos finais do anterior, está a ser uma desgraça. Começou com um atentado apocalíptico, prosseguiu com a maior crise financeira das últimas décadas, tivemos uma pandemia há dois anos que ainda não acabou e agora esta séria ameaça de guerra. Um primor de século.

 

PS: já viram a coincidência? Da anterior ocasião em que a China tinha celebrado uns Jogos Olímpicos, a Rússia invadiu a Geórgia. Agora os chineses voltaram a organizar umas olimpíadas, mas de Inverno, e estamos nisto.

PS: enquanto escrevia isto a Rússia invadiu a Ucrânia. Ainda assim, o texto não perde a sua actualidade, antes fica confirmado.

18 comentários em “Lições da História, verdadeiras ou enviesadas”

  1. “Macheza” – pois é. Muita a gente continua a clamar por homens com “macheza”

    E por falar nisso: há dias, Trump deu uma entrevista aos locutores de rádio e podcast Buck Sexton e Clay Travis (conhecidos como conservadores), em que se desfez em elogios a Putin. “Genial”, “inteligente”, “audacioso” foram alguns dos mimos. Além disso, designou a colocação de tropas na fronteira russo-ucraniana como algo “maravilhoso”, dizendo infantilidades como: “Há lá mais tanques de guerra do que jamais vi.”

    Trump, Le Pen, isto vai bonito. Os extremos tocam-se. E o nosso venturinha, ainda não elogiou o prodígio russo?

    Li sobre a entrevista de Trump num artigo alemão. À laia de prova, aqui vai o link:

    https://www.t-online.de/nachrichten/ausland/id_91713076/donald-trump-lobt-wladimir-putins-ukraine-taktik-das-ist-genial-.html

    1. E continua a demonstrar a sua ignorância ou pior…
      Deixo-lhe uma pergunta, o que é que Trump disse à sua querida Merkel em 2018 na cimeira da NATO em Bruxelas?

      E como vive na Alemanha o que é que o general inspector da Bundeswehr Alfons Mais escreveu há um dia sobre o estado das forças armadas Alemãs?

    2. Aqui o nosso Ventura, honra lhe seja feita, até nem se deixou levar pelo Putin (deve ter sido até o que teve a atitude mais tonitruante). O que Trump aí revela nem é “macheza” é mesmo infantilidade.

      1. João Pedro, permita-me um esclarecimento: no meu comentário, eu não pretendi atribuir “macheza” a Trump. Ele serviu de exemplo de gente que continua a clamar por “macheza”.

        (Essa gente costuma ser mesmo infantil; o simples facto de se acreditar que há homens super poderosos, capazes de “porem tudo em ordem”, é de uma grande infantilidade).

  2. a parte ocidental da Ucrânia pertenceu ao Império Austro-Hungar
    o Principadp de Kiev eio de Moscovo foram arrasados pelas hordas mongóis

    esqueceram-se após a queda da urss que a Rússia pertence à Europa
    vão dar uma volta …

      1. por falta de vista aos 91 tem um i a +
        mostra grande ignorância sobre a Europa
        não escreva sobre o que não sabe

  3. Tem-se falado muito da Ucrânia, que é um país e «independente».

    No entanto a Ucrânia nunca existiu como país, nem tão pouco como país independente até 1917, quando os Bolcheviques através de um decreto de Lenine criaram a República Socialista da Ucrânia (RSU), que seria depois ampliada por Estaline em 1945.

    Uma parcela do território onde hoje está a Ucrânia sempre fez parte da Rússia.

    É lamentável ver que toda esta situação e intervenções militares que a Federação da Rússia (FR) se vê obrigada a concretizar, tenha sido despoletada pela Inglaterra, União Europeia (UE), e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que efectuaram em 2014 um golpe de Estado liberal levando ao poder em Kiev forças/partidos políticos nacional-socialistas, em conjunto com a recusa do regime liderado pelo Sr. Zelenskyy em cumprir os Acordos de Minsk.

    1. Olha um com a cartilha toda. Se o Lenine é que “criou” o estado da Ucrânia não devia estar aqui a incensar tal facto? O “golpe liberal” para pôr no poder “partidos nacional-socialistas” não só é mentira como até pelos termos contraditórios é profundamente estúpido e eu a esta hora não tenha paciência para dar trela a seguidistas ocos.

  4. «a tentativa de cercá-la de países da NATO se mostrou precipitada e que acossar um “urso” ferido revelou-se um grave erro.»
    Se tirar as aspas ao “urso” ferido, ainda sobra um urso com séculos de predação na envolvente da sua toca.
    Menos do que tentativa de cercá-lo foi a experiência dos libertados que requereu protecção.
    A Ucrânia achou-se próxima do urso, até que lhe cresceram as garras e ninguém lhe acudiu.

  5. Dois reparos a um “post” com que concordo.
    O apoio de Putín a Le Pen – salvo a hipótese de acordos secretos não divulgados – nada terá a ver com o apoio desta última às políticas de espaço vital de Putín. O ponto de concordância, bem anterior, é a oposição de Le Pen à UE. A propósito talvez valha a pena lembrar – apesar dos grunhidos e ranger de dentes – que no encontro de André Ventura com Le Pen houve dois pontos de desentendimento, Um porque AV não era contra a UE outro porque preconizava o apoio do Estado francês ao ensino de português aos descendentes dos luso-emigrantes, enquanto Le Pen era contra pois o que pretendia era a rápida integração destes e não a continuação dos laços com o país de origem.
    Quando arrumam AV na extrema direita fico sempre a pensar qual a classificação para Le Pen.
    A segunda questão, a que já me opuz neste espaço, é falar da tentativa da NATO de cercar a Rússia. Há que lembrar que em 2004 a NATO não aceitou os pedidos de adesão da Geórgia e da Ucrânia. E, á face da evidência de hoje, sabendo-se da vulnerabilidade da rota do Báltico – por onde passavam as incursões da cavalaria sueca, sabendo-se que nos Países Bálticos existiam minorias russas e minorias russófilas tal como na Ucrânia, pergunto se alguém acredita que sem a adesão à NATO e à UE, Estónia(*), Letónia e Lituânia, não teriam já regressado ao domínio russo.
    Relembro que a Suécia voltou ao serviço militar obrigatório e fala em aderir à NATO e que a Finlândia, um paradigma do neutralismo, tem políticos de esquerda, centro e direita a falar no mesmo.
    Atente-se.
    No rescaldo do 11.11.2001 Bush pressiona a NATO e o mundo para lutarem contra o terrorismo e Putín aproveita para para fazer uma razia nos tchechenos.
    Em 2008 face a uma narrativa de ameaças da NATO, até hoje por concretizar, entra no Cáucaso de onde nunca mais saíu.
    Em 2014, face a idêntica narrativa, anexa a Crimeia.
    Logo em 2015 envia tropas especiais para o Donbass mas mantém-nas em stand-by, não progredindo mas impedindo de facto que o exército ucraniano acabe com as secessões.
    Agora, em 2022 foi o que viu. E, para os mais distraídos, lembro que uma operação desta envergadura necessita de semanas, se não meses, de planeamento.
    (*) Na Estónia, cerca de 1/4 da população é de etnia russa e a percentagem da língua russa é ainda maior pois há comunidades de origem ucraniana, bielorussa e até judeus, de língua russa. Há duas pequenas cidades próximas da fronteira russa, onde a proporção de etnia russa é superior a 80%.. Números respectivamente superiores aos da Ucrânia e do Donbass.

    1. Sim, obviamente quando falei de LePen era para demonstrar um exemplo acabado de apoio de Putin para desestabilizar, quando não fragmentar a UE. Não conheço qualquer ligação de Ventura aos russos além de que teve uma reação veemente contra a invasão, pelo que obviamente não pode ser colocado no rol.

      No segundo caso é um pau de dois bicos: se um país dito “neutral” se aproxima da NATO, a Rússia grunhe, e hoje mesmo tivemos oportunidade de ver isso com ameaças veladas à Finlândia e Suécia. E isso será mais uma razão para largarem a habitual neutralidade a aderirem ao bloco. Ainda por cima ali entalado está “Kaliningrado”(coloco aspas porque para mim aquilo é Konigsberg. Se quem está à frente da Rússia fosse minimamente razoável até se poderia pensar na continuação da neutralidade, mas está visto que não há qualquer credibilidade vinda de quem quer “desnazificar a Ucrânia”.

  6. Bom artigo! Numas coisas estou de acordo mas noutras não.
    Só tenho pena que os EUA da década de 60 do século XX, não se tenham empenhado tanto em defender a integridade dos territórios portugueses na Índia (e porque não também dos de África), quanto se empenharam em defender os territórios “russos” da Ucrânia no século XXI.
    E que pena também é, que os EUA e a UE não defendam o nacionalismo para cá, quanto o defenderam para a Ucrânia nestes últimos anos.
    Enfim, vá se lá entender esses políticos! 🙂

    José Silva

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