Liberdade de voto vs. liberdade de acção


Sérgio de Almeida Correia,

1 – O ano de 2009 terminou com uma crise social, económica e financeira, grave. Terminou mas, infelizmente, não acabou com ela.

2 – Crise política para já não há, nem será bom para o país que venha a haver. No entanto, a leitura que tem sido feita por alguns analistas dos discursos alusivos à quadra que amanhã terminará, proferidos pelo primeiro-ministro e pelo Presidente da República, parece ver nas entrelinhas sinais de divergência onde eles não existem.

3 – Se bem que, quer um quer o outro, tenham as respectivas agendas condicionadas, pela crise mas também pela situação internacional e o calendário das presidenciais, não é rigoroso que entre eles exista divergência em relação às questões essenciais que preocupam os portugueses.

4 – Digo-o com a convicção de que ambos estão preocupados com o evoluir da conjuntura, com os níveis dramáticos que o desemprego está a atingir (o Algarve começa a ser um caso extremo), com o aumento da pobreza, com a queda do investimento produtivo e das receitas, com a necessidade de se fazer descer o défice público até níveis aceitáveis, em suma, os dois têm consciência da necessidade imperiosa de resolver os problemas criados por meia dúzia de banqueiros e de economistas irresponsáveis.

5 – O problema é que a eficácia de acção desses protagonistas esbarra num parlamento fragmentado, numa justiça totalmente inoperante e profundamente desacreditada aos olhos dos cidadãos, situação dificilmente reversível na próxima década, e num conjunto de actores políticos que vão perdendo credibilidade a um ritmo superior ao das tonitruantes declarações que proferem.

6 – Ao contrário de outros, que vêem nisso uma questão de afirmação do regime e dos princípios constitucionais, estou convencido de que a confrontação a propósito do “casamento entre pessoas do mesmo sexo” não constitui o alfa e o ómega da luta política entre o Governo e a Presidência e que o resultado que sair da discussão parlamentar será ingrato para qualquer uma das partes, remetendo para segundo plano as discussões que interessam ao país.

7 – Sem querer antecipar cenários, acredito que o PR vai vetar a lei que sair do Parlamento sobre essa matéria, seja por razões políticas, seja por razões constitucionais.

8 – Para o PS e o Governo será sempre uma questão incómoda, já que o respeito por um compromisso eleitoral, de alcance e consequências bastante limitadas, convenhamos, em especial pela importância que lhe quiseram atribuir, não afastará os demais e obrigará a uma maior atenção a outros temas que começam a ser bem mais prioritários, como a regionalização, a urgente criação de emprego útil, ainda que com a alavanca do Estado, e a protecção de outras minorias, silenciosas e sem poder de grito, que se não forem devida e rapidamente atendidas poderão acabar em situações extremas de pobreza a que ninguém poderá ficar alheio e pelas quais seremos todos responsáveis.

9 – Se não houver uma rápida inversão do discurso, mas acima de tudo da agenda, corporizada nas infelizes intervenções que fecharam 2009, a erosão da confiança no PS e nos seus dirigentes será mais difícil de salvaguardar do que encontrar um líder para o PSD.

10 – O aprofundamento das clivagens ideológicas dentro do grupo parlamentar do PS, o divórcio entre as prioridades de Lisboa e as regiões, e o rebentamento indiscriminado de petardos por parte de alguns dirigentes menores que não podem passar sem o quinhão de protagonismo que o regime lhes deu – o que tem vindo a acontecer com a indisfarçável complacência, quando não aplauso, do secretário-geral –, terá o seu momento alto na votação das diversas alternativas que o Governo e os partidos colocarão à Assembleia da República sobre o “casamento entre pessoas do mesmo sexo”.

11 – Não dar liberdade de voto aos deputados do PS sobre essa matéria tornará mais difícil esconder a fragilidade da coligação dominante do partido e acentuará a natureza transitória da actual liderança e daqueles em quem ela se apoia, agitando o espectro da antecipação de eleições e dando novos e beligerantes argumentos a quem, inicialmente de forma sorrateira, a partir do Verão passado de modo mais evidente, penetrou em Belém e a partir daí, perdidos os pruridos de equidistância, tenta condicionar a agenda política.

12 – A natureza ideológica do confronto que hoje se vive entre as diversas sensibilidades internas do PS obriga a uma actuação moderada dos seus dirigentes e a um exercício discreto da liderança, tão inteligente quanto pragmática, o que será dificilmente compaginável com os gritos estridentes de alguns vice-presidentes do grupo parlamentar que parecem gozar de um beneplácito cesarista.

13 – A opção por uma estratégia de distribuição de incentivos selectivos, dentro do partido mas igualmente à direita e à esquerda para viabilizar o orçamento, como forma de acomodar diferentes modos de entender e de pensar, revelar-se-á seguramente contraproducente se com essa estratégia se estiver a condicionar a liberdade de voto dos deputados do PS em matérias das quais não depende o futuro do regime, nem o sucesso da legislatura.

14 – Admitir que a discussão de um tema tão fracturante na sociedade portuguesa, como é o do “casamento entre pessoas do mesmo sexo”, poderá ser resolvido com a imposição da disciplina de voto ao grupo parlamentar, é aceitar que a futura liberdade de acção do primeiro-ministro para o cumprimento de todas as demais obrigações que decorrem do programa eleitoral do PS possa ficar refém de oportunismos circunstanciais cujos custos para o partido e para o país poderão ser maiores, e mais fatais, do que os temporais que assolaram o Oeste. 

15 – Só José Sócrates poderá decidir se prefere dar liberdade de voto aos deputados do PS e garantir o sucesso da legislatura e das presidenciais, ficando ele próprio com mais liberdade de acção, ou se, ao invés, garantindo a disciplina de voto, preferirá agudizar as clivagens internas, perdendo força e autonomia, dentro e fora do partido.

Um comentário em “Liberdade de voto vs. liberdade de acção”

  1. Uma das razões pelas quais eu não pertenceria nunca a um partido político é o facto de que jamais aceitaria que me impusessem a famigerada disciplina de voto, sobretudo em questões que considero de ética. O casamento entre pessoas do mesmo sexo é um bom exemplo dessas questões, para mim. Os grupos parlamentares que resolvam entre si os seus diferendos como quiserem, mas a imposição de uma disciplina de voto é a atitude mais anti-democrática que posso imaginar. Além disso, torna perfeitamente dispensável a quantidade enorme de deputados da assembleia (que todos nós sustentamos, ainda por cima). Se é para haver voto único, basta um deputado por cada força política, com um voto que valha na proporção do partido que representa.

    António José Seguro subiu muitíssimo na minha consideração por ter sido o único deputado da assembleia (o único!) que não se refugiou na disciplina de voto do seu partido e se manifestou de acordo com a sua consciência, naquele caso vergonhoso do financiamento dos partidos. Se Sócrates volta a fazer a mesma exigência nesta matéria delicada, a “união” forçada não valerá o preço de imagem que vai ter de pagar por mais esse autoritarismo.

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