Que elas existiam no antigo regime, já sabemos. Que elas tiveram um papel preponderante na formação de um espírito crítico, do inconformismo, do saber que existe algo mais para além do muro e que esse algo mais é a liberdade, não tenho dúvidas.
As Bibliotecas.
Instrumento privilegiado, lugar máximo de democracia e de liberdade.
Só nelas todos cabem, sem distinção. Só nelas todos se sentem acolhidos. Só nelas todos encontram o caminho para a superação, para romper ciclos de pobreza económica e social, progredindo ao seu ritmo, de acordo com os seus interesses. Só nelas encontram lazer, informação, conhecimento e cultura, sem ter que pagar por isso. Só nelas, em igualdade de direitos e deveres. Só elas, espalhadas de forma homogénea e coerente por todo o território, têm a capacidade de estar próximas dos cidadãos, disponíveis, numa linguagem de vizinhança, numa relação de confiança.
As bibliotecas que hoje conhecemos são também uma conquista de Abril. Filhas de outras que, tal como os nossos pais, fizeram um longo caminho em surdina, sem perder a esperança, contribuindo a cada dia, em cada pequeno gesto, a cada livro emprestado e lido, para iluminar modestamente a escuridão. As bibliotecas que hoje conhecemos são, por isso, das instituições mais desprezadas e desrespeitadas por aqueles que ontem à noite e hoje colocam a mão no peito ao lado do cravo, em cerimónias solenes, para celebrar Abril. As palavras e os discursos deste dia 25 não correspondem aos actos de quem desinveste, desacredita, menoriza ou fecha bibliotecas com indiferença.
No longo caminho destas casas de liberdade e democracia, este é apenas mais um dia, porque este é o dia em que todos falam do que fazemos sempre, todos os dias: Liberdade.
Sempre 25 de Abril. Vivam as Bibliotecas!

Escrever sobre liberdade e bibliotecas em Portugal sem uma palavra para a Fundação Gulbenkian parece-me uma omissão grave.
Só porque não citei nominalmente a instituição, porque elas estão lá. Leia novamente: “Filhas de outras que, tal como os nossos pais, fizeram um longo caminho em surdina, sem perder a esperança, contribuindo a cada dia, em cada pequeno gesto, a cada livro emprestado e lido, para iluminar modestamente a escuridão.”
Só porque não citei nominalmente a instituição, …
Mas claro que citou Abril:
As bibliotecas que hoje conhecemos são também uma conquista de Abril..
Talvez esteja a ser injusto mas parece-me um padrão que repudio há muito. Monárquico, enfadei-me a discutir com indivíduos para quem Portugal tinha nascido a 5 de Outubro de 1910 e não a 5 de Outubro de 1143 (Tratado de Zamora). Opositor de Salazar, enfadei-me a discutir com indivíduos para quem Portugal nascera a 28 de Maio de 1926. Revoltado com a Descolonização, inconformado com o (não) Desenvolvimento e desiludido com (esta) Democracia, incomodo-me com os que acham que Portugal nasceu no dia 25 de Abril de 1974.
E, quanto às conquistas de Abril, escolho uma, a jóia da coroa, o SNS. Tenho um cancro que exigia tratamento radiológico intensivo e outros. Poderia tratar-me a custo zero no IPO mas as máquinas disponíveis não asseguravam a concentração e precisão necessárias, pelo que optei por pagar na Fundação Champalimaud. Como cereja no topo do bolo, entabulei conversa com outro paciente que aguardava o mesmo exame que ia fazer e a quem referi o custo elevado do mesmo. Respondeu-me surpreendido que pagava zero. Era funcionário público e vinha pela ADSE. Sobre igualdade de direitos, fiquei esclarecido.
Caro Francisco
Posso não ter deixado bem clara a minha intenção e penitencio-me por isso. As bibliotecas que hoje conhecemos são efectivamente fruto dos tempos modernos, mas quis e fiz questão de mencionar que são filhas de outras, a quem dediquei a maior parte do texto. Essas que, quando era difícil, não ficaram paradas e prosseguiram o trabalho que era necessário, combatendo o conformismo.
Confesso-lhe que esperava ser contestada pelos que acham que só houve cultura a partir de 26 de Abril, de modo que fico surpreendida com a sua interpretação. A minha frustração vai para os que hoje têm meios, e mesmo assim não fazem tudo o que podem, para os que não se lembram que bibliotecas são espaços e instrumentos de liberdade, mas hoje andam a ecoar Grândolas. Mesmo – e sobretudo – nos tempos mais difíceis.
Sobre a ADSE, que é outra conversa, sou funcionária pública e não tenho.
“Falhámos portugueses na luta por todos vós” | Watch (msn.com)
(Assembleia da República, 25abril2022, Sessão solene de comemoração do “25 Abril”. Fonte: “Arquivo da Assembleia da República” e “Arquivo da RTP”)
Caro homónimo a ” Primeira manhã portuguesa” segundo Alexandre Herculano e outros reputados historiadores foi em Guimarães.
E logo no primeiro parágrafo também: “Que elas existiam no antigo regime, já sabemos. Que elas tiveram um papel preponderante na formação de um espírito crítico, do inconformismo, do saber que existe algo mais para além do muro e que esse algo mais é a liberdade, não tenho dúvidas.” Essas eram “As Bibliotecas”, fixas ou itinerantes. As restantes eram raríssimas.
as bibliotecas hoje vêm a casa de quem quer ler
tenho 80 Gb de livros
neste rectângulo cada dia mais pobre até o assaltante dum talho levava mulher e criança
este regime social-fascista não consegue criar riqueza
todos os países têm a sua própria democracia e liberdade
Um miúdo de 10 anos veio à biblioteca, trazido pela mãe, para fazer um trabalho escolar. Levou informação e fez o trabalho. Teve a melhor nota e foi muito elogiado. Todos os outros tinham feito o mesmo trabalho pela Internet. O dele foi o mais completo e o único que se distinguia. A mãe diz que o comportamento dele como estudante nunca mais foi o mesmo: curioso, empenhado, a tentar sempre ver outras perspectivas. Os colegas continuam a pesquisar no Google. É suficiente? É, mas nunca será igual.
Brindo a isso 🥂!
Sou utilizadora assídua das bibliotecas públicas, e muito me custou quando estiveram fechadas. Apesar de por vezes requisitar por catálogo, prefiro mil vezes bisbilhotar nas estantes, e ler trechos antes de me decidir por um livro.
Sábados de tarde, de duas em duas semanas, faço a peregrinação à biblioteca das Galveias com a miudagem. Trazemos o máximo de livros de os cartões permitem, quinze neste momento, que o mais pequeno ainda não tem cartão. 😉
Que bom, que bom!
ahora comen quienes nunca comieron
Y quienes comieron siempre, ahora comen más.
Ainda assim, uma evolução.
Não esquecer o contributo dado durante a pandemia no combate ao virus, ou não tivessem os brilhantes lideres proibido a venda de livros nos super e hipermercados. Lol
E adivinhe lá quem é que foi difícil de convencer nessa fase? Muito difícil!
Sou utente frequente de uma delas, a do Palácio Galveias – onde José Saramago fez o essencial da sua instrução literária.
E só posso dizer bem. Muito bem.
O Pedro é cá dos meus! Se calhar já nos cruzámos no Palácio das Galveias. Está espectacular aquele espaço! O jardim é também é um dos meus locais preferidos para beber café ao fds.

Bibliotecas em tempo cinzento, para quê?
Mesmo em dias de sol e céu azul havia 35% de analfabetos.
Zélia, eu aceitarei que uma biblioteca seja tudo isso no dia em que o fogo de Prometeu, melhor, o fogo roubado por Prometeu, seja aí colocado. Só nesse dia se poderá evocar um viva a esse dia. Dia que não se sabe quando chegará.
Até lá, permita renunciar à revolução dos ainda (es)cravos.
“Sempre 25 de Abril. Vivam as Bibliotecas!”
E os alfarrabistas e as livrarias e as editoras. Vivam
Sim. Alfarrabistas, livreiros e editores. Vivam todos os que fazem Leitores!
“Vivam todos os que fazem Leitores!”
Os pais?
Também, os que o conseguem fazer.
LIBERDADE?
Liberdade é nada. É um vazio.
Liberdade tanto a reivindica o ladrão e o criminoso, como quem não é.
Tanto dá para matar como para destruir.
Por exemplo, o direito de dizer ao polícia aquilo que ele não quer ouvir: “Quero roubar, e você não tem o direito de me prender, em nome da Liberdade”.
A Liberdade é o direito à maldade, tanto como à bondade. O direito à incompetência, tanto como à competência. O direito à corrupção e ao fascismo, tanto como o contrário.
A Liberdade é a ausência de moral e de ética. É a lei do mais forte, e o reino do arbítrio.
Todos querem a Liberdade para a usarem consoante os seus interesses.
A Liberdade não determina qualquer benefício ou construção de alguma coisa.
A Liberdade não traz prosperidade, desenvolvimento, ou riqueza. Não diminuiu as assimetrias nem as desigualdades. Não traz qualquer mudança no modo como os mais fortes distribuem os recursos.
A Liberdade é um slogan desprovido de qualquer ética ou moral.
Cada qual decide quais são os seus “direitos e deveres”, em nome da Liberdade.
A Liberdade é Sodoma e Gomorra.
Bibliotecas?
Mas quantos analfabetos (e escolas) havia em Portugal no fim da Monarquia?
E quantos havia no fim da 1.ª República?
E quantos havia no dia 24 de Abril de 1974?
E quantos há hoje?
Já compararam em percentagem (que é a única medida válida) qual desses regimes contribuiu mais para as/os portugueses saberem ler?
Mostrem as contas, dessa comparação.