Ler em tempo de pandemia


Pedro Correia,

Como quem me conhece sabe, há dias em que nem quero ouvir falar em política. Este é um deles. Apetece-me antes fazer-vos um desafio: partilhem connosco quais têm sido as vossas leituras desde que foi declarada a pandemia. E não me refiro às anedotas distribuídas por telemóvel nem às teses conspiranóicas que circulam nas redes à cata de novos cliques. Falo em leitura à moda clássica – a do “papel pintado”, para recorrer à suave ironia pessoana.

Livros mesmo. Dos antigos, dos bons. Dos que resistem a todos os embates, superam todas as adversidades e contrariam qualquer certidão de óbito. Cem vezes declarados mortos, mil vezes renascidos geração após geração – inesgotáveis fontes de emoção, infindáveis transmissores de sabedoria. Borges confessava sentir orgulho não dos livros que havia escrito, mas dos livros que havia lido. Que livros poderão produzir o mesmo efeito em cada um de nós?

132 comentários em “Ler em tempo de pandemia”

  1. Li muito pouco. Os primeiros 15 dias passei-os em revisitação a um amor antigo, o Corto Maltese. O jpt ajudou a espicaçar a saudade.
    Depois li o Pendulo de Foucault do Umberto Eco e Knife do Jo Nesbo. Entrei de cabeça num outro projecto e pronto.
    Foi fraquinho, em termos de leitura.

    1. Eu ouvi dias a fio os nossos políticos dizerem que estávamos “a enfrentar uma guerra” e preparei-me para ela. Organizando, nomeadamente, rações de combate. No campo culinário, a que já me referi aqui, mas também no campo literário, organizando um plano de operações em matéria de leituras. Que não só cumpri como excedi.
      O vírus ficou a milhas. Ler gera anticorpos. E faz bem à saúde em geral.

      1. Eu comecei bem.
        O problema na realidade foi não estar minimamente preparada para estar fechada em casa. Só eu e o meu marido, longe de tudo e de todos os que me dão corda, que me carregam as baterias, que me fazem mexer, sei lá… reli de enfiada a BD. Lá no fundo da minha mente, num espacinho recôndito mesmo, residia a ideia optimista das duas, três semanas… já vou com 71 dias. Regresso com a segunda equipa no dia 1 de Junho.
        Acabei por me cansar de ler. Eu, que nunca me fartei de ler na minha vida. Talvez porque nunca tive grande tempo para me dedicar completamente aos livros. Cheguei a ler sete livros em duas semanas em Alvor, o que me deu um gozo indescritível e que ainda considero recorde pessoal.
        Depois descobri outra motivação, trabalhosa, trapalhona, mas muito estimulante e gratificante.
        Acabava o dia com as séries de TV, nordicas excelentes, francesas e italianas espectaculares e espanholas muito boas.
        E assim se passaram 71 dias.

        1. No meu plano houve tempo para tudo. Porque, felizmente, tempo não foi faltando.
          Séries também, mas em menor número. E só à noite, nunca de dia.

          Comecei por fazer uma lista de 20 livros que queria ler. Depois li os parágrafos iniciais de cada livro, acabando por ficar com aquele que mais me prendeu. Tudo o resto veio naturalmente de seguida.
          Pelo meio a lista foi sendo modificada, como é vulgar acontecer. Isso faz parte do fascínio da leitura.

          Entretanto já li mais do que pensava e do que esperava. E revisitei alguns livros com aquele gosto muito especial que só a releitura proporciona.

          Mas tudo começa assim, com essa espécie de desafio que, quase em jeito de jogo, decido lançar a mim próprio.
          Comigo funciona.

  2. Reli a minha colecção de Frezato que é um autor que na minha opinião alia uma excelente técnica de desenho/pintura aos argumentos de BD que escreve.
    Li o Hamlet traduzido por Sophia da Assírio que é bilingue (o livro, não a Sophia) dá para ir acompanhando a edição original o que é interessante.
    Li, ainda, alguns livros técnicos (se é que me entendes) dos quais destaco um de um jornalista desportivo galês, Stephen Files “Sou pai e agora?” é o título em português.

  3. Comunicado
    Na frente ocidental nada de novo.
    O povo
    Continua a resistir.
    Sem ninguém que lhe valha,
    Geme e trabalha
    Até cair.
    Miguel Torga

    1. E na oriental tomba geada
      O povo
      Não tem nada que agasalha
      Ao norte
      Destapa-lhe o vento o telhado
      Ao sul
      Foi-lhe a casa pelo queimado
      Ao centro
      Leva-lhe o fiscal o cêntimo
      Ao povo
      Mais lhe valia ser cego.

        1. Ena ena.
          Então e eu disse que era. Um ou outro?
          Saiu-me, foi uma brincadeira.
          Efeitos colaterais do distanciamento social, que estou cá desconfiado torna doido varrido quem já tem um periclitante equilíbrio cerebral

  4. Depois de me ter deliciado com alguns livros de Evelyn Waugh, “Declínio e Queda”, “Corpos Vis”, “Enviado Especial”, “Um Punhado de Pó”, (sim, li estes todos e o meu conselho é, não percam, não percam!), chegou a vez de Djaimilia Pereira de Almeida e o seu “Luanda, Lisboa, Paraíso” e agora “Pintado com o Pé” (leitura em curso). Ainda há gente muito talentosa! Em curso também a leitura de “Arte e Infinitude” de Bernardo Pinto de Almeida.
    Como vêem, não tenho perdido tempo com o lodaçal da política.

    1. Evelyn Waugh: gosto imenso. ‘Declínio e Queda’, ‘Enviado Especial’, ‘O Ente Querido’, ‘Um Punhado de Pó’.
      Dos romances mais célebres dele, só me falta ler ‘Reviver o Passado em Brideshead’. Consta de uma lista de livros que quero ler até ao fim do ano.
      Já constava noutros anos. Por algum motivo nunca calhou.

  5. A última boa companhia foi A minha mulher, de Anton Tchekov, versão Luiz Pacheco. Antes disso li a História do Século XX para Pessoas com Pressa e vou começar a do Mundo, livros que são pouco mais do que cronologias (é como ler um índice), mas úteis para os que perdem facilmente o fio da meada da história, desde que se faça leituras complementares a propósito de cada momento. Nestes casos, gosto de ler perto do computador para consultar a Wikipédia e quejantes.

    Entretanto no mês passado, creio, li Os Passos em Volta, de Herberto Helder, que é coisa bem estimulante. E a Clepsidra, de Camilo Pessanha. Esta última não em papel, mas online, porque a Imprensa Nacional a disponibilizou. Não tenho horror ao mundo da leitura na internet, antes pelo contrário. Estou grata por existir e por o muito que cá descobri.

    E vou entremeando com contos ou crónicas, da Antologia de João de Melo, ou de livros mais recentes de José Eduardo Agualusa e de Mia Couto. Tudo ligeirinho e continuando a ler/ver algumas das anedotas que correm para não parar de rir.

    1. Gostei de saber das suas leituras. É interessante fazermos estas partilhas pois acabam sempre por funcionar como estímulos adicionais ou pistas paras lermos algo que não estava nos nossos planos.

      Eu, no ano passado, quase só li autores portugueses. Depois de perceber que tinha grandes lacunas nessa matéria.
      Cumpri o plano.

      Para este ano, organizei leituras por temas. Por exemplo, dez livros que tenham o mar como tema. Depois, dez livros sobre guerras ou temas históricos. A seguir, dez livros relacionados com animais.

      Quer dizer: uns acabam por puxar os outros. E acaba por ser uma forma de diversificarmos as leituras.

      1. Parece boa estratégia. Admito que quase não planeio leituras e muito do que fui lendo ao longo dos anos se deveu a factores aleatórios. Creio que cerca de 1/3 dos livros que li foram ofertas ou estavam disponíveis. É o caso dos vários livros de Sepúlveda. Depois de ter dito que tinha gostado do primeiro, durante anos oferecerem-me os seguintes.

        E fui comprando os restantes 2/3 por luas: por ter lido uma referência (já aconteceu aqui no DO, como Hóspede de Job, que comprei na Feira do Livro mas ainda não li) ou por alguém aconselhar. Mas sobretudo, por ter gostado da contracapa e das primeiras páginas na livraria, enfim, a coisa funciona ao sabor do vento.

        Depois claro que há aqueles momentos em que se diz: não, agora tenho mesmo que ler isto ou aquilo por ser fundamental. Por essa razão, há sete ou oito anos, arranjei em segunda-mão a colecção Mil Folhas do Público. Mas o certo é que além de ter ficado com livros já lidos repetidos, a maioria dos muitos que não tinha lido ficaram na prateleira. Por obrigação é-me difícil.

        1. Por acaso essa colecção ‘Mil Folhas’ é a única que tenho completa. Nem livros RTP, da velha Verbo, nem a série dos livros de bolso Europa-América, nem outras.
          Por sinal, faltava-me um volume para completar essa colecção. Que me foi generosamente oferecido por um leitor do DELITO. Jamais esquecerei tal gesto.

  6. (re)li a Quinta dos Animais. Mais nada. Estou envergonhado.
    Curioso como as tarefas que estavam pendentes, por falta de tempo, não foram terminadas durante este confinamento. Afinal a procrastinação é complexa.
    Deu para ver umas séries, a horita extra do dia foi usada para tal.
    Plot Against America é muito bom.

    1. ‘A Quinta dos Animais’, que li quando se intitulava ‘O Triunfo dos Porcos’ na versão portuguesa, lê-se num instantinho.

      Há tempos organizei uma lista dos dez melhores livros curtos que li desde sempre. Este estava lá, claro.

  7. Li Aquilino, depois de um leitor me ter dito que devia ler, (e devia) “Andam Faunos pelos Bosques”
    Reli “As duas Dianas” de Alexandre Dumas, e ainda deste autor li “Os Mil e Um Fantasmas”; sugestão de leitura do DO particularizada pelo Pedro Correia, a quem muito agradeço a sugestão.
    E reli pela terceira ou quarta vez “A Noiva Despedia” (Anónimo) Que aconselho vivamente a ler, sobretudo aos maridos.
    Abusando mais uma vez da prolixidade de palavra que a condescendente generosidade este blogue me tem permitido, gostaria de referente a este livro, dar a conhecer, o que, de alguma maneira, possa ser conveniente saber.

    “Caro leitor.
    Provavelmente está a interrogar-se por que é que decidi escrever este livro anonimamente. A Noiva Despida é um livro profundamente íntimo e eu tinha motivos muito pessoais para não querer o meu nome vinculado a ele.
    A questão é que eu queria escrever um relato escrupulosamente honesto sobre a vida secreta de uma mulher e só me senti à vontade para o fazer ocultando o meu nome…”

    Depois inicia-se com uma dedicatória.
    “Ao meu marido. A todos os maridos”

    Entra-se então na história.

    Lição 1
    O teu marido não sabe que estás a escrever isto. É muito fácil escrevê-lo nas barbas dele. Tão fácil, porventura, como dormir com outras pessoas. Mas ninguém saberá quem és, nem o que fizeste, porque sempre foste tida como a boa esposa.

    Aconselho vivamente a ler.

    1. Ainda bem que a minha sugestão lhe foi útil. Fico satisfeito.

      Eu, neste último ano, decidi conhecer mais a fundo vários escritores portugueses que conhecia mal. Entre outros, Agustina e Aquilino.

      No caso de Aquilino, devo dizer, deu-me muito prazer. Ao contrário do que sucede com vários outros autores nacionais, Aquilino apreciava os prazeres da vida. Nos livros dele namora-se, canta-se, ri-se, come-se, bebe-se. Este hedonismo é raro na literatura portuguesa.
      E tem uma linguagem castiça que tantas vezes nos faz sorrir pelo seu engenho, pela sua originalidade, pela sua graça natural.

      Reli ‘O Malhadinhas’.
      Li ‘Volfrâmio’, ‘A Casa Grande de Romarigães’ e ‘Quando os Lobos Uivam’.
      Recomendo todos.

  8. Depois de uma noite mal dormida, resolvo sair a rua todo jovial e risonho, com uma coragem de enfrentar o mundo, entrei numa livraria a procura do novo livro da Isabel stilweel ao não o encontrar fui ter com uma menina da livraria, é certo que todo eu tremia, mas ela amavelmente me disse que ainda não tinha saído, e então ela muito desempoeirada e resolvida, perguntou-me se eu conhecia:
    A montanha mágica de Thomas Mann, Ulisses de James Joyce,em busca do tempo perdido de Marcel Proust, o lobo da estepe de Herman Hesse, as memórias de Adriano de Marguerite Yourcenar.
    Depois de tanto galanteio ela fala-me do Homem sem qualidades de Robert Musil, aqui assustei-me!
    Confesso que quase fiz xixi pernas abaixo.
    Mas fiquei deliciado com uma menina de uma cultura e simpátia irrepreensível.
    ….

    Miguel Nunes

    1. Sorte a sua, ter encontrado uma “menina desempoeirada e resolvida”. Presumo que estaria “higienizada” também, visto tal ser agora obrigatório pelas normas sanitárias em vigor.
      Há dias assim, em que mais vale sair de casa. Haja “desconfinamento”: logo as montanhas mágicas se tornam mais fáceis de trepar.

  9. Neste período tive oportunidade de pegar no “Imortal” de José Rodrigues dos Santos. Longe de ser fã deste estilo de escrita o livro vale a pena, quanto mais não seja, pelo seu epilogo e notas finais (não, não estou a ser irónico). O tema não podia ser mais atual no que refere ao “vigilância da sociedade”.

  10. Boa tarde Pedro Correia
    Atendo ao seu pedido, não sem antes salientar que a pandemia/ recolhimento de quase 3 meses apenas alterou/eliminou as minhas saídas frequentes.
    Mas já retomadas. Completamente.
    História de Portugal (Rui Ramos, Bernardo Vasconcelos e Sousa, Nuno Gonçalo Monteiro), Portugal dos Pequeninos (João Gonçalves), Uma Tragédia Portuguesa (António Nogueira Leite, Paulo Ferreira), As Grandes Agências Secretas (José Manuel Diogo), O Fundo da Gaveta (Vasco Pulido Valente), Histoire de l’Europe (vários), Portugal e o Mar (Tiago Pitta e Cunha), Portugal Paisagem Rural (Henrique Pereira dos Santos), O Último Espião (Alan Cowell), o 5 Outubro e a Primeira República (António Reis, Ana Maria Magalhães, Isabel Alçada).
    Saúde.
    António Cabral

    1. Muito bem, caro António Cabral. Percebe-se que aproveitou o seu tempo. Entre as poucas coisas boas que esta pandemia nos trouxe, a mais preciosa foi esta: tempo. Que costuma ser o bem mais escasso e mais desperdiçado das nossas vidas.

      Saúde também, para si e os seus.

  11. Ao contrário dos restantes, eu optei por coisas levezinhas. Numa altura destas, preferi ler obras com ritmos mais intensos e um suspense mais acentuado.
    No entanto, comecei com um calhamaço: Tieta do Agreste. Diverti-me imenso, recordei a minha infância e surpreendentemente, dei por mim a recordar-me de cenas e personagens, que pensava já ter esquecido.
    Depois optei pelos policiais. Descobri Nelson Demille e gostei muito do estilo descontraído e do humor muito ao meu estilo. Li a filha do general, o jogo do leão e o jogo do leopardo. Gostei muito do humor do personagem John Corey e de Paul Brenner. Este último fez-me lembrar Jack Reacher e lá fui eu ler nunca voltes atrás e a escola da noite, de Lee Child.
    Entretanto ainda consegui ler Daniel Silva. Sou um apaixonado por Israel e tenho uma predileção por ler livros e ver filmes que envolvem judeus. Gosto muito de descontrair com o Daniel Silva. O ritmo e o estilo fazem-me ler um livro sobre o grande Gabriel Alon em 2 ou 3 dias. Nunca percebi porque nunca o transportaram para o cinema… se calhar é por ser judeu da mossad. Curiosamente, à poucos dias atrás apanhei a filha do general, versão filme com o John Travolta, num qualquer canal de tv.
    Alguém acima mencionou Joe Nesbo. Depois de ouvir falar muito bem deste escritor, resolvi dar-lhe uma oportunidade. Li o morcego, ao que parece o primeiro livro dele, ou pelo menos o primeiro sucesso. Não me seduziu. Muito lento, perdido em descrições que parecem ter sido metidas ali à pressão.
    E é nisso que um bom escritor policial se destaca. Fazer as descrições, informar o contexto em que o enredo se insere, transmitir conhcimentos gerais e tudo isto de forma subtil, sem cortar o ritmo.
    No entanto estou preparado para lhe dar outra oportunidade, quem sabe com a experiência, as obras posteriores venham a conseguir ser mais sedutoras.
    Por isso, aceito sugestões, sobre qual obra de Joe Nesbo devo experimentar, de forma a tirar a prova dos nove e confirmar se é, ou não, escritor para mim.
    Boas leituras.

  12. – A Iliada e A Odisseia
    – Le Monde d’Ulysse de Moses Finley
    – Ivanhoe de Walter Scott
    – Spillover – Animal Infections and the Next Human Pandemic de David Quammen
    – La prochaine peste: Une histoire globale des maladies infectieuses de Serge Morand
    – Les misérables de Victor Hugo
    – From strange simplicity to complex familiarity de Manfred Eigen (em curso)
    – Capital et idéologie de Thomas Piketty (em curso)
    – The Empire of Cotton: A Global History de Sven Beckert (em curso)

    e mais consultas mais ou menos rápidas por aqui e por ali …
    Estou com vontade de ler e reler o Borges, o Cortazar,…

  13. Escrevo só os de Maio:
    O que diz Molero – Diniz Machado
    Berta Isla – Javier Marias
    Patria – Fernando Aramburu
    Portugal: O Mediterrâneo e o Atlântico – Orlando Ribeiro
    The Earth – Richard Fortey
    e por último,
    Uma voz na revolução de Francisco Sousa Taveres donde retiro a seguinte citação, bastante actual, de um editorial de 1984:
    “(…) é com tristeza que continuo a assistir à crítica situação do jornalista e à degradação social das suas condições de vida.”

    1. ‘O Que Diz Molero’ tem, para mim, lugar obrigatório em qualquer antologia de bons livros com menos de 200 páginas. Lista onde incluo ‘A Metamorfose’, ‘O Principezinho’, ‘O Velho e o Mar’, ‘Morte em Veneza’, ‘Daisy Miller’, ’24 Horas na Vida de uma Mulher’, ‘O Triunfo dos Porcos’…

      Tive o prazer de conhecer pessoalmente Dinis Machado. Era o escritor mais anti-intelectual que possamos imaginar. Sem pedantismo algum.

      ‘Patria’, de Fernando Aramburu, inclui-se entre as minhas prioridades para os próximos meses.

  14. A ser verdade o que a maior parte do pessoal aqui escreve, devem ter chegado ao fim do estado de calamidade com a cabeça em água, os olhos raiados de sangue e sem tomar banho, desde 21 de março.

    Ler as obras que alguns pseudointelectuais aqui dizem que leram, em 2 meses, é bilhete certo para o hospital psiquiátrico mais próximo.

    Quer dizer, lêem obras extensas, cuja leitura é feita a um ritmo mais lento, fruto da complexidade literária e lêem obra atrás de obra, como se fosse peanuts. Com a mesma facilidade com que lêem o folheto do supermercado.

    Pois eu não acredito. Ou até as leram durante uma vida, ou nem sequer as leram e vêm para aqui armados em doutorados em literatura.

    Olha, eu li Mickey Spillane, Ross Pinn, que muita gente não sabe, mas é um escritor de policiais português, Ken Follet e Vargas Llosa, por sugestão do Pedro Correia.

    Não, não li Foucault, Thomas Mann, História da idade média, Sartre, nem a mensagem de Fernando Pessoa. Ou seja, sou um gajo normal.

    1. “….sou um gajo normal…”

      tens a certeza?

      “… que muita gente não sabe…”

      Mas que pedante!!!

      Vai mas é ler Andrea Camilleri….

      Rita

      1. E eu o pedante sou eu? Eu sou o único gajo que assume que leu um ou outro livro mais a sério e relaxou a mente com livros de bolso.

        Pedante é o gajo que vem para aqui dizer que leu não uma, não duas, não três, mas 10 ou 11 obras literárias de referência na história da literatura em 2 meses.

        Então o que é que esse gajo leu até agora? Lembrou-se agora que lhe faltam livros essenciais?

        É que como se não bastasse, ainda lê livros de investigação histórica… mais um bocadinho vêm dizer que leram duas enciclopédias e a bíblia… em latim.

        O pedante não sou eu, eu sou o antipedante. Se fosse pedante não vinha para aqui dizer que li Mickey Spillane.

    2. Ora isso é que está mal, caro El Professor. Muito mal mesmo. Malíssimo. Catastrófico até.
      Não é um gajo normal. Pensa que é mas peca por desactualização.
      Segundo o “novo normal” o caro El Professor é exactamente o oposto.

    3. É curioso. Eu também estava tentado a não acreditar no que escrevem esses pretensiosíssimos pseudo-intelectuais não se desse o caso inusitado de eu ter lido exactamente os mesmos livros que um tal Miguel ali acima afirma ter lido. Balelas! Por quem se toma esse parolo?… E para que ele veja bem: ainda li mais um do celebérrimo escritor de policiais, norte-americano, chamado Dennis McShade. Ora embrulha!

      1. Esse norte-americano nasceu e morreu em Lisboa.
        Escreveu um livro muito conhecido:
        “What say Molero” que traduziram por “O que diz Molero” nesse tempo traduziam tudo até os nomes, quem não se lembra do piloto de Spitfires, Jaime Eduardo de Cook e Alvega?
        Enfim, o Dennis americano para fazer carreira em Portugal teve de usar o pseudomino; Dinis Machado, americanices.

      2. Caro Dexter, se o senhor leu a Ilíada e a Odisseia em 2 meses, então o senhor não retirou 10% do teor dessas obras. A Ilíada e a Odisseia não se lêem como se lê um livro qualquer. Aquilo não é um livro de poemas. São obras que carecem de pesquisa. Muita pesquisa. Ler uma obra dessas necessita de muitas horas de investigação para perceber cada contexto, para perceber a História à volta da história. Para perceber o que é e o que significa cada cenário, cada localização. Para perceber o que é cada personagem, de onde veio e porque age da forma que age.

        No ensino, consegue-se leccionar 2 ou 3 obras de referência por período letivo. Excepto uma. Os lusíadas. Os lusíadas lecionam-se durante todo o segundo período escolar, o mais longo. E mesmo assim, não se retira de lá todo o seu significado, todo o seu conteúdo, nem de perto.

        Por isso, ler só para dizer que se lê, mais vale ler o jornal a A bola.

        1. Ah, sim? Então quando pensamos nas audiências que assistiam aos recitais dos “aèdes”: aquilo era tudo gente letrada, doutorada e com agregação “en lettres”. Não restam dúvidas. Pense em escrever um artigo, envie para uma revista especializada. Vai ser uma revolução epistemológica, uma mudança de paradigma.

    4. Não, esperem aí… um gajo lê a Ilíada e a Odisseia assim de gás, ainda lê Os miseráveis para espairecer, depois toma de assalto mais meia dúzia de livros históricos e científicos e faz isto isto como se fosse a coisa mais natural do mundo.
      Ora bem, um gajo assim tão erudito e apreciador de obras tão grandes, demora até 2020 para ler os miseráveis?
      E mais inusitado ainda, aparece outro a dizer-me que leu os mesmos livros que esse gajo.
      Se um já é uma agulha num palheiro, dois é um Euromilhões.

      Por dios….

      1. O Prof Denzil Dexter não me intimida. Eu li não apenas os originais do Homero, como também li as adaptações do Frederico Lourenço com o meu filho. E se não li aquele do Eigen que ele foi desencantar sabe-se lá em que raio de alfarrabista de vão de escada foi apenas e tão só porque já tinha lido um do fulano que se intitula o Jogo (ou como raio é que era?) há uns vinte anos. Em vez disso, li todos os volume da História Natural do Amendoim que é mais próximo da minha especialidade. Mas vá por mim, que eu conheço o Prof Denzil Dexter há muitos anos. Ele é capaz de ler aquilo tudo e ainda mais. E se escreveu que tinha lido os Miseráveis foi por um misto de modéstia e arrogância naturais. Ele nunca admitirá já ter lido N vezes o clássico de Victor Hugo. Tá a ver, assim conhecedor como é, pode saltar algumas passagens que costumam atormentar os espíritos mais impressionáveis (género aquela cena de Waterloo e tal) e despachá-lo em menos de uma semana para fazer pirraça aos amigos. (Assim também eu!) Mas por que razão apoquentarmo-nos por tão pouco, pergunto eu? Eu vi os desenhos animados no You Tube ; vão que é uma maravilha com amendoins salgadinhos. A Bíblia?, ah pois, ia-me esquecendo que a ando a ler com o meu filho (estamos quase a chegar ao fim do Antigo Testamento). Em latim? Não, infelizmente!…., mas em espanhol. Era o exemplar que restava na livraria mais perto da loja de amendoins. (É uma adaptação ilustrada para jovens, não se assuste mas assim como assim tem muitas letras e para cima de 200 páginas. Eu e a minha língua comprida…. se o Prof Denzil Dexter lê isto estou tramado, ele não é lá muito dado a temas religiosos… É melhor bazar quanto antes.)

        1. Então as minhas suspeitas têm fundamento. O prof. Dexter é um suprassumo. E aparecer outro como ele, como o tal Miguel, é mesmo um acontecimento raro na história. Vamos lá fazer deste dia um feriado nacional. Dois gajos que lêem a Ilíada e a Odisseia em dois meses, com pesquisa e tudo e os miseráveis pela quadragésima setimavez. Brutal. Que capacidade intelectual. Afinal somos todos uns ignorantes. A bíblia em espanhol, com o filho. Muito bom. Que pai extraordinário, excepto talvez para o filho. É como eu digo, é só eruditos da literatura.

      2. El Profesor

        Tu é andas a dormir no palheiro, e as coincidências existem como todos nós os
        eruditos sabemos.
        Não percas tempo, a olhares para os outros e vai ler para cultivares o teu saber,
        assim os teus alunos um dia vão te agradecer.

        Miguel

        1. Outro participante que achou que se mudasse para anónimo, convencia alguém. Mas a questão é mesmo essa. Eu não preciso de vir para aqui dizer que leio o que não li, ou pelo pelo menos que li o que li em 40 anos, só para me armar em grande leitor. E depois a desculpa é que leram determinado livro nestes dois meses, pela oitava vez. Quem é leitor ávido e lê aquilo que diz que lê, não demora 30 ou 40 anos para ler uns miseráveis. Os miseráveis lêem-se com 15 ou 16 anos, tendo em conta o andamento destes leitores.
          A Ilíada lê-se mais tarde, mas para ler a Ilíada a sério, como eu li, demora-se meses. Pois é a única forma de a lermos e compreendermos a sério. A não ser, claro, que sejamos uns génios como esse Dexter, segundo o seu pupilo, que provavelmente é a mesma pessoa.
          Fuck you, bro!
          Ao menos aparece alguém com cojones para dizer aquilo que toda a gente pensa , ou seja, dizem que leram livros em 2 meses, mas que no fundo leram durante uma vida.
          Eu não estou a dizer que não leram. Apenas tenho a certeza que não os leram nestes 2 meses.

  15. Infelizmente, a mudança para trabalho em casa e algumas circunstâncias adjacentes acabaram por fazer com que não lesse tanto quanto gostaria, e acabei por me dispersar entre livros/bandas desenhadas, televisão, e videojogos. Tendo cá em casa inúmeras colectâneas e antologias de contos, fui lendo alguns aqui e ali, de clássicos como Alfred Bester e William Gibson, e de autores contemporâneos, como Ken Liu e Ted Chiang. Mas li – estou a ler ainda, a coisa é grande e pesada – uma banda desenhada absolutamente extraordinária: Nausicaä of the Valley of the Wind, de Hayao Miyazaki.

    Quando acabar a leitura do segundo volume deixarei aqui alguns apontamentos sobre isso – tanto sobre a banda desenhada em si como pela minha história com este livro em particular.

    De seguida será Transmetropolitan, de Warren Ellis e Darick Robertson. O confinamento revelou-se propício às compras online, e serviu para encomendar os volumes que me faltavam. Já cá estão todos. (curiosamente, neste período registei mais compras do que leituras)

    1. Fico com curiosidade, João. Quando puderes, vai partilhando connosco as tuas notas de leitura. Mesmo que sejam sucintas.
      Ajuda a dar pistas, estimulando futuros leitores.

  16. O Avatar, de Lovecraft. Talvez uma escolha errada para aliviar o espírito, mas sem dúvida boa para esquecer pandemias.

    1. Sim Lovecraft não ajuda a desanuviar o espírito.

      Costumo dividir os escritores em diurnos e nocturnos. Lovecraft é decididamente nocturno. Para ler algures entre a meia-noite e as três da manhã.
      Outros, é ao contrário: só consigo lê-los quando há sol.

      Tal como há os escritores de Inverno e os escritores de Verão. Os russos, em regra, são escritores de Inverno. Os brasileiros, também em regra, são escritores de Verão.

      1. A minha melhor experiência de leitura aconteceu há muitos anos, numas férias de Natal. À noite, frente ao crepitar dum lume de chão, enquanto o El Niño rugia lá fora, O Hobbit e o Senhor dos Anéis. Nunca havia lido Tolkien, mas até hoje não conheço histórias melhores para ler à lareira em noites de chuva.

  17. Eu fiz como a senhora ministra disse das férias vá para fora cá dentro, e fui ler o blogue in Confessável da Mia mas fiquei muito desapontada porque é muita ingenuidade junta.
    Depois li o meu marido esqueceu-me da colecção Pimpinela dos livros da minha vó que ela me deu para ler, e eu disse-lhe que gostei muito mas fui falsa que até parecia que a Mia tinha copiado a ingenuidade da esquecida do marido para o blogue dela.
    Agora não sei o que vou ler. Calhando vou ler outra vez Beatrice, aventuras de uma dama vitoriana.

    Violeta Gina dos Prazeres e Morais

      1. Nem sei onde o senhor João Sousa foi buscar uma ideia dessas, que nem temos nada no nome que nos aproxime. Não sei se reparou que essa parva chama-se Gustava e eu sou Gina.
        Estou a brincar: Não, não tenho nem gota de sangue desde a miléssima antecedência com essa comadre da esquina.
        O nome, calhando é coincidência, mas ainda bem que perguntou que vou já a correr para o registo civil e vou mudar o meu nome de e Morais e ficar só Violeta Gina. Demais a mais que as minhas amigas mais…chegadas estão sempre a dizer que o meu nome foi um grande erro de baptismo porque não têm nada de e Morais as nossas…amizades
        Com toda a simpatia para si.
        Atentamente.
        Violeta Gina.

  18. Eu leio poucochinho.
    Livros pesam muito na cabeça,e depois Mariama pensa muito.
    Gosto mais da bola e os livros da Mafalda e do Tintin.

    Mariama Baldé

    1. A Mariama Baldé pensa bem e lê melhor. Também passei os olhos por umas tiras da Mafalda. Sempre anima.

      E hoje vi por aí em blogs uma referência à Castafiore… ‘os passarinhos na primavera não fazem guerra’ É assim? Ou como é que é?

      1. Obrigada

        É, os passarinhos na primavera fazem os ninhos, não fazem guerra.

        Mas também leio os livros das aventuras dos cinco, e outros como principezinho.
        Mas tenho que ler mais é verdade, mas gosto mais de ver séries e filmes.

        Mariama Baldé

  19. Gosto mais de ficar sentado no sofá ,a olhar para a parede branca e extraindo dela toda a criatividade do meu pensamento.
    Construo assim os meus livros, que não sendo clássicos, se revelam obras únicas.
    Mas gostei bastante de ler Marcello Simoni e John Carré.

    1. Conheci em tempos alguém que se gabava de só ler “livros de cheques”.
      Tal pessoa tardou a perceber que passava a si mesma um atestado de burrice.

      Le Carré é autor de um dos romances que mais gostei de ler até hoje: ‘O Espião Perfeito’.

        1. Para mim o melhor Livro do Carré.
          Já do Marcello Simioni é Abadia dos cem pecados.

          É claro, A Toupeira do John Carré não é o indicado para si.

  20. Ora aqui vai um pequeno rol:

    Poesias de Sophia de Mello Breyner;
    Tieta de Jorge Amado;
    O velho que lia romances de de amor de Luís Sepulveda;
    Alguns albuns de BD,
    Rapazinho de Lawrence Ferlinguetti

    E agora estou com a antologia poética de Alexandre O´neill.
    Que me lembre… é só.
    Abraço

  21. Quer-se dizer, goza-se com os tipos que aparecem com as estantes dos livros atrás e depois, ainda por cima, se lhes pede os títulos que leram? Este postal é puro maquiavelismo:

    Viagens ao Pé da Porta, de Vitorino Nemésio (adequado a não poder sair porta fora); A Mulher, a Luxúria e a Igreja na Idade Média, de Mario Pilosu (dedicado ao irado comentador acima, revoltado com quem leia livros de História; e também adequado a um homem só fechado em casa); Taste, Agamben (adequado ao período pois o autor foi muito falado por ser anti-pandémico); J’Accuse, de Zola (Adequado porque me serviu para um postal blogal); Um Homem que Dorme, Perec (que melhor livro para o confinamento), Equador, Michaux (um mau livro, de um mau viajante, bom para o confinamento), Eugenia Grandet, de Balzac (porque fica bem por estes clássicos), Tufão, de Conrad (para escrever algo que não postal), O Pintor da Vida Moderna, Baudelaire, Les Nouvelles Routes de Soie, de Frankopan (imperdível para este período pós-vampiro de Wuhan), Ilações sobre um sabre, de Magris (uma pérola), Os Naúgrafos do Batávia, Simon Leys (outra pérola), Vida e Obra do Engenheiro, Álvaro de Campos, O Banqueiro Anarquista, Fernando PEssoa, Contos do Insólito, Guy de Maupassant, Uma Noite em Lisboa, Erich Maria Remarque, MacBeth, Shakespeare, Resumo de Ana, de Modesto Carone (que não conhecia, uma bela descoberta), Cartas de Eça de Queiroz (uma seca), O Anjo Mudo, de Heinrich Boll, As Efesiacas, de Xenofonte de Efeso, Vivencias Moçambicanas, de Fernando Couto, Asfixia, de Pedro Paixão, Sorcellerie et Politique en Afrique, Peter Geshiere, A Honra Perdida de Katherine Blum, de Boll, Livros pequenos, muitos relidos. Em pdf é outra coisa, mais coisas profissionais. Os grandes, como diz o comentador irado, são lidos mais devagar, em pelotão lento.
    Não tenho conta de netflix

      1. Mencionaste aí alguns livros de que gostei muito. ‘O Anjo Mudo’ (sobre o qual já escrevi no Delito), ‘Tufão’, ‘Uma Noite em Lisboa’.

        Do Conrad reli há dias ‘A Linha de Sombra’ – outro excelente romance tendo como cenário o mar.
        Como digo lá atrás, a uma leitora, organizo agora as minhas leitura por áreas temáticas: dez livros sobre guerra, dez livros com animais como tema, dez livros centrados no mar. Ando precisamente na fase marítima, de leituras e releituras, agora às voltas com o magnífico ‘Mau Tempo no Canal’, opus magnum de Nemésio.

        1. Muito importante, dez livros com mulheres no centro. Já lidos também. Entre eles, ‘Jane Eyre’, ‘Orgulho e Preconceito’, ‘Gigi’, ‘A Sibila’, ‘Mrs. Dalloway’, ‘A Amante do Tenente Francês’.

          1. Tu és muito organizado. Eu leio (Ficção/Crónica/Poesia) à medida que me caem das estantes ou me lembro de qualquer coisa. E leio em grupo, um punhado de cada vez, saltitando.

          2. Fui assim, leitor errático, durante muito tempo. Mas depois percebi que essa dispersão é má conselheira. Não devemos fiar-nos, também nisto, na chamada “selecção natural”: é melhor fazermos alguma planificação das leituras.

            Por exemplo, se eu considerar que me falta ler sete livros cruciais para poder fazer uma lista criteriosa e fundamentada dos dez melhores romances portugueses do século XX, dou-lhes prioridade. Mesmo que depois nem elabore tal lista, mas entretanto já funcionou como um eficaz chamariz.

            Ou – outro exemplo – se imagino fixar uma lista dos dez melhores romances que tenham como cenário o mar (estou nessa fase). Posso ter lido ‘Tufão’, ‘Moby Dick’, ‘O Lobo do Mar’, ‘Robinson Crusoe’, ‘A Ilha do Tesouro’, ‘Relato de um Náufrago’, ‘Vasto Mar de Sargaços’, ‘Mau Tempo no Canal’. Mas se ainda não li (por exemplo) as ’20 Mil Léguas de Submarinas’, de Verne, dou-lhe prioridade.

            Compensa muito.

        2. Pedro,

          Li “Mau tempo no Canal” apos ter feito a viagem de barco entre Faial e S.Jorge passando pelo Pico.
          Acho que só depois daquela travessia o livro fez sentido.
          É que já o havia lido há muuuuuuuuitos anos mas na altura senti-me órfão de qualquer coisa.
          E quando recentemente peguei nele foi como se nunca o tivesse lido, percebes?
          Abraço.

          1. Está-me a acontecer um pouco isso também, 32 anos depois de ter lido o romance pela primeira vez.
            Há certos livros que exigem maturidade para entrarmos bem neles. E conhecimento dos locais, muitas vezes. Acontece isso com ‘Mau Tempo no Canal’.
            Abraço amigo.

    1. Parabéns, conseguiu bater o record daquele que diz ler a bíblia em espanhol ao filho. O senhor durante os dois meses anteriores conseguiu ler um livro a cada dois dias, tendo em conta a extensa lista que aqui apresentou.
      Muito bom.
      Provavelmente vai passar pelas brasas até agosto, para recuperar.

      1. Mas pelo Santo Amendoim!… Este fulano insiste em comportar-se como um perfeito e refinadíssimo palerma. Existe propósito mais pueril do que este de andar por aí, como um vulgar polícia de esquina, um bufo de antanho ou pior ainda, a medir e a comentar o modo como os outros fazem uso das respectivas pilinhas? Mais proveito lhe faria aproveitar um ou outro dos títulos que de outro modo não chegariam até às suas parcas luzes. « É como o Térsites, esse é como o Térsites!» Desculpem, agora tenho de ir, é o meu filhote que me chama.

        1. Que requintado português. Provavelmente andou 2 dias a pesquisar no google palavras tão refinadas para escrever o seu comentário.

          E depois do seu comentário, verifico que continuo a ter razão, o pedante não sou eu.

          Eu não me sobreponho intelectualmente, nem literariamente a ninguém, como o senhor acabou de fazer.

          O senhor parte do princípio que me dá lições de literatura, apenas porque eu não vim para aqui dizer que leio em dois meses, o que li numa vida.

          Eu sou céptico, mas não sou pedante, como o senhor acabou de ser, do alto da sua arrogância.

          1. Térsites apanhou com o ceptro na corcunda, enquanto vós apenas experimentastes o “meu” português. Por isso, não vos queixais!, ó Senhor desprovido de Pedantismo.

  22. Não tive assim tanto tempo como isso para a leitura. Mas consegui, aderindo à iniciativa “próximo capítulo”, ler Sandor Márai, que considero um dos melhores escritores que conheço (também conheço poucos), fortíssimo, diria até quase inigualável a descrever/exprimir sentimentos. Agora vou ler o nervo óptico de Maria Gainza. Como gosto sempre de ter um livro de ensaio em leitura, ando a ler esse “pequeno” manual do Christopher clark “o reino de ferro, uma história da Prússia” que realmente me traz uma visão bem mais ampla, e isenta do que o James Hawes fez, na mais breve história da Alemanha (um livro cuja leitura já aqui foi abordada pelo vosso colega de blogue Paulo Sousa, se não estou em erro). Mas esta é a minha impressão ao fim dos primeiros capítulos. É um belo “romance” bem real e fascinante.

  23. Com o trabalho, os miúdos em casa, e a Netflix o tempo de leitura não é muito, mas há sempre uma altura em que se faz uma escapadinha e perdemo-nos nos livros, sensação ainda mais maravilhosa quando o livro é bom. Durante este confinamento embrulhado deu para ler alguma coisa:

    Rommel, L.Koch
    À Beira do Abismo, Ian Kershaw

    Iniciei há pouco As Leis da Fronteira, do Javier Cercas.

    Quanto a compras muitas e boas. Haja tempo para ler

    1. Boas leituras. Gosto muito de Ian Kershaw, autor de uma biografia definitiva sobre Hitler. E também de Cercas: excelente o seu ‘Autonomia de um Instante’, misto de romance e reportagem.

      1. Kershaw é um companheiro de longa data, assim como o Judt. Deviam ser de leitura obrigatório.

        Já o Cercas é uma nova descoberta do qual estou a gostar e muito.

        Boas leituras e obrigado pelas suas recomendações literárias. Fiquei a gostar deste do blog quando li um post seu sobre o seu avô e o que ele significou para si no gosto pela leitura.

  24. Durante o último voo exactamente antes do confinamento estava a ler “Mau tempo no canal” de Vitorino Nemésio mas deixei o livro na bolsa do banco da frente. Já não é a primeira vez que o faço o que me deixa especialmente irritado. Estava a gostar. Um deste dias irei acabar de o ler.
    Depois disso, e já em confinamento, comecei a ler sem ter terminado e por desinteresse, “Terra Sonâmbula” de Mia Couto, “Contos Completos” de Florbela Espanca, “A Costa dos Murmúrios” de Lídia Jorge e “O Retrato de Ricardina” de Camilo Castelo Branco.
    Comecei a acabei “A Peste” de Albert Camus, “Axilas & Outras Histórias Indecorosas” de Rubem Fonseca, “A Viúva do Enforcado” de Camilo, “Robinson Crusoe” de Wiliam Dafoe, “O Trigo e o Joio” de Fernando Namora e ainda “A Curva do Rio” de V.S. Naipaul.
    Excluindo a forma como termina o meu preferido foi sem dúvida “O Trigo e o Joio”. A arte literária de Namora é deliciosa e saboreia-se frase a frase. Um capitulo mais e seria uma obra sublime.
    Relendo esta lista tenho de dar alguma razão a alguém cá de casa… há mais coisas onde gastar o tempo.

    1. Eu, em tempo de confinamento, tracei os meus planos de leituras – que incluía ler dois livros em simultâneo. Aquilo a que chamo o meu “livro de dia” e o meu “livro de noite”.
      Neste momento o meu “livro de dia” é precisamente ‘Mau Tempo no Canal’. Um romance que me deslumbrou há 30 anos, quando o li pela primeira vez, ainda não conhecia então os Açores. Agora, que já visitei as ilhas do Faial e do Pico, onde o enredo se desenrola, sinto-me ainda mais fascinado pela bela prosa romanesca do terceirense Nemésio.
      Estou a 90 páginas do fim. Quase lido, portanto.

      Como já aqui contei, no ano passado quis fazer aqui uma lista dos dez melhores romances portugueses do século XX. Mas percebi então que me faltava ainda ler uma boa vintena de obras fundamentais. Ultrapassei largamente essa marca: um ano depois, já me sinto não apenas habilitado a fazer tal lista como a assinalar qual é o melhor romance português de cada uma das décadas.

      Elejo sem dificuldade ‘Mau Tempo no Canal’ não apenas como o melhor romance português dessa década de 40 em que foi publicado (embora a acção se situe em 1917) mas também como o melhor do nosso século XX. Apesar da forte concorrência, onde se destacam ‘A Selva’, ‘A Sibila’, ‘A Casa Grande de Romarigães’, ‘O Delfim’, ‘Sinais de Fogo’, ‘Para Sempre’. E, sim, também o excelente ‘ O Trigo e o Joio’ que sempre recomendo. Reli-o recentemente, com um deslumbramento que ultrapassou as minhas expectativas.

      1. Eu li sobe esse teu plano, e confesso que me inspirou. Estou a ler a um ritmo bem superior ao normal. Procurei dar enfoque a autores de língua portuguesa o que é um critério de escolha bem interessante.
        Acabei de me lembrar que também o “Dom Casmurro” de Machado de Assim também faz parte desta lista.
        Obrigado pelo desafio

        1. Pois, Paulo, cá está um dos méritos destas nossas trocas de impressões.
          Já percebi que uma anotação tua também inspirou um dos nossos leitores-comentadores.
          Gosto sempre de saber.

  25. A inactividade forçada e no meu caso ainda sem fim à vista, por públicas razões infelizes – e consequências já graves e potencialmente muito sérias, digam suas Majestades e Altezas o que lhes aprouver (e que o serão independentemente do ainda metódico bombardeamento de mensagens, comerciais ou não, entre a pura pieguice e o divertimento irrealista e que parecem, ainda hoje, pretender que “o fique em casa” é algo até muito agradável e perfeitamente sustentável, se não mesmo desejável) – não favorece (no meu caso, pelo menos) a paz de espírito que uma leitura proveitosa merece. Pueris, e ainda abundantes, arco-íris afirmando que vamos ficar todos bem, se exibidos para lá do estrito espaço do infantário, são, temo, preocupante sinal no que à maturidade do Soberano respeita.

    Adiante. Anotei na agenda que o estado de emergência se iniciou no dia 22 de Março (posso estar errado). A minha paragem começou uns dias depois, a seis de Abril. Desde esse dia 22:

    – Traição a Salazar, José António Barreiros;
    – As Batalhas do Caia, Mário Cláudio;
    – O Conde de Abranhos, Eça de Queiroz (relido);
    – Nunca Dancei num Coreto, M. Filomena Mónica;
    – Os Fidalgos da Casa Mourisca, Júlio Diniz (li algures que V. Pulido Valente, perguntava aos seus alunos se tinham lido esta obra, tomando-a como imprescindível para entender o séc. XIX português; não sei se o é, mas decerto ajudará bastante):
    – Nothing to be Frightened of, Julian Barnes.

    Boa parte dos ensaios de Fátima Bonifácio, reunidos em Fora da Circunstância, também têm ajudado a viver este tempo, proscrita que esteja a autora, presumivelmente em perene ostracismo. E regressa-se com frequência à História de Portugal coordenada por Rui Ramos e à História da Expansão e do Império Português, entre outras obras e fontes que mais do que se “ler”, creio, se “consultam”. Por estes dias e sempre.

    Depois as leituras profissionais, claro. Mesmo parado.

    A ver se O Vermelho e o Negro, na recente edição da Guerra & Paz tem a sua vez pelos próximos dias.

    Costa

    1. Boas leituras, felicito-o por isso.
      Eu também ando “confinado” para além do prazo, não por opção própria mas por força das circunstâncias. E o futuro próximo não deixa antever grandes motivos para optimismo, como bem sabemos. Há sectores que nunca mais recuperarão por completo, outros levarão muito tempo a atingir os níveis de empregabilidade (passe o palavrão) de dias passados.

      A leitura, por estes dias, é um refrigério suplementar.

      Nestas 11 semanas, sempre com dois livros em simultâneo (o meu “livro de dia” e o meu “livro de noite”, como assinalo ali mais em cima, noutra troca de impressões), fui lendo ou relendo vinte.
      E até atribuí uma espécie de prémio imaginário ao melhor de cada semana.
      Foram estes, até agora:

      1 – Terra Morta, de Castro Soromenho
      2 – O Malhadinhas, de Aquilino Ribeiro (releitura)
      3 – A Selva, de Ferreira de Castro (releitura)
      4 – O Trigo e o Joio, de Fernando Namora (releitura)
      5 – A Tia Julia e o Escrevedor, de Mario Vargas Llosa
      6 – O Mundo Perdido, de Artur Conan Doyle
      7 – A Casa dos Espíritos, de Isabel Allende
      8 – Bilhar às Nove e Meia, de Heinrich Böll
      9 – A Linha de Sombra, de Joseph Conrad (releitura)
      10 – Crime em Ponta Delgada, de Francisco José Viegas
      11 – A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson (releitura)

      Tenciono prosseguir neste ritmo. Por opção própria e por imposição do contexto “pandémico” – num quadro em que a pandemia já não é apenas sanitária mas também económica e social.
      Como brincava alguém, “a book a day keeps the doctor away”.

      (Fui eu que recordei aqui, lembrando a minha primeira aula de Ciência Política com Pulido Valente, aquela frase dele sobre ‘Os Fidalgos da Casa Mourisca’. Ele era um professor diferente, para melhor, em quase tudo. Também nestes reptos que sabia lançar aos alunos.)

      1. Devo-lhe então a leitura d’Os Fidalgos (de J. Diniz apenas lera Uma Família Inglesa). E fico-lhe grato, creia. Quanto a V. Pulido Valente, sem ignorar o resto, Os Devoristas e Glória são releitura já demasiado tempo adiada; a De Mal a Pior, volta-se com melancólico gosto e proveito frequentemente.

        Esse alguém brincava bem certeiramente. E se não for um livro por dia, que ele (eles) esteja sempre à mão. Já sorri com gosto na insónia (no serão, na verdade) de hoje a reler O Francesismo. Breve, brilhante e divertida, ainda que bem séria, ironia a que não cansa regressar (como não cansa, nunca cansa, por exemplo regressar, porque sim, à sublime elegia das páginas finais d’Os Maias).

        O Francesismo, esse que agora aqui tenho em mãos, comprado na Ler Devagar, em Óbidos. Com o local da compra e a sua data nele anotados, claro. E o significado, a memória, disso. Não é irrelevante, tantas vezes. Coisas que não há em “e books”, receio. Nem, ainda que útil opção tantas vezes seja – e sou cliente -, na compra via internet.

        Convém, claro, é poder entrar nas livrarias (mas esse é tema de outro postal e seus comentários).

        Costa

        1. Sobre essa questão da entrada em livrarias, tenciono escrever também aqui no DELITO.

          Certíssimas, as observações que faz quanto ao mérito do livro em suporte clássico, comparado com os dispositivos tecnológicos. Óbvia vantagem comparativa para o papel.
          Há objectos que nunca passam de moda. Acontece com o livro como com uma bola ou um garfo, por exemplo: aqui a noção de “progresso” torna-se irrelevante e mesmo absurda. Não faz sentido.

          Eça é autor a revisitar sempre. Já me aconteceu com ‘Os Maias’, ‘A Relíquia’, ‘A Cidade e as Serras’. E os ‘Contos’. Em breve irei entreter-me com o Fradique Mendes.

          (Sobre VPV, o meu “livro de cabeceira” continua a ser ‘O País das Maravilhas’. Merece reedição urgente, devidamente anotada e contextualizada.)

          1. Escrever sobre livrarias!?
            é melhor não, o trauma ainda está muito presente e elas andam aí, mais o lobo mau e a menina.

            Por falar em livros, andei a reler Agatha Christie, passado 30 e tal anos contínuo
            adorar.

          2. Também eu. Ainda há pouco li um livro dela, intitulado ‘Dez Figuras Negras’ (também chamado ‘Convite Para a Morte’ em português – título aliás muito mais apropriado). E dei-lhe nota máxima.

  26. Não se pode ir que tenha aproveitado muito bem o tempo, que dediquei mais a ver filmes. Li inúmeros jornais e seus suplementos, boa parte em atraso, alguma BD, e literatura ropriamente dita fiquei-me pela de viagens, coisa de que estamos impedidos: O Meu Chapéu Cinzento, livro sobre cidades de Olivier Rolin, reli Patagonia Express, tocado pela morte do seu autor Luís Sepúlveda, e estou a coemçar Um Tempo de silência, de Patrick Leigh Fermor, cuja última obra traduzida chegou agora, através da Tinta da China.

  27. Eu adoro ler mas, desde que começou esta pandemia, salto de livro em livro e nenhum me cativa. Aproveitei promoções, tenho uma coluna à minha frente de livros novos, de do dos os tipos e tamanhos, que nem folheiei mas falta a concentração.
    Tenho saudades de ler, principalmente aquelas u últimas 50 páginas que fazem com que não consiga dormir. Espero que este estado de espírito passe rapidamente.
    Fiquem bem e boas leituras!

  28. Os primeiros 15 dias foram terríveis, não conseguia concentrar-me para lero que quer que fosse. Depois encarreirou ligeiramente:

    – Terminei “The Holocaust- a new story”, Laurence Rees, leitura preparatória da visita que queria fazer a Auschwitz em maio.

    – “Death devoted heart – Sex and the Sacred in Wagner’s Tristan and Isolde”, Roger Scruton, tenho de começar a ler os autores enquanto estão vivos e lhes posso fazer perguntas;

    – “Luto pela felicidade dos Portugueses”, Rui Zink;

    – “O amor é fodido”, Miguel Esteves Cardoso;

    – “A fé vive de afecto”, José Frazão Correia, sj (leitura em curso);

    A seguir vai o “Rochedo de Tanios”, de Amin Maalouf.

    Noutra área da leitura, umas peças para piano e umas árias/canções.Destaco uma, Abendempfindung de Mozart, e deixo aqui o link para essa pequena maravilha: https://www.youtube.com/watch?v=Ma9KPdskqd4.

      1. É sim senhor! uma pérola musical.
        E podia-se ouvir muito mais pérolas musicais se o Pedro Correia por cada pérola musical que nos dá não nos brindasse com cinquenta deprimentes.

        Já que se passou da cultura das letras para a dos sons, também quero colaborar.

        https://www.youtube.com/watch?v=NE-6j3YTiAE

          1. Pois, século XXI.
            Pode a música juntar-se à covid que fazem uma dupla imbatível.
            Desde que aquele outro ganhou a Eurovisão com uns sons que por mais tentativas que faça para compreender nunca consegui passar dos primeiros cinco segundos, tornou-se-me muito claro a essência da arte musical do século.


          2. Outra vez?!
            Assim tivesse o seu clube os mesmos ímpetos ganhadores que arrasava tudo que lhe aparecesse pela frente.
            É que nem a feijões, raios!

      2. Fico contente que tenha gostado, é mesmo uma pérola.

        E, deprimentes ou não, tenho descoberto belas canções do sec XXI consigo… c

  29. Olá, Pedro

    Faço-lhe a vontade :

    Reli : 1) Los Cipreses creen en Dios, de José Maria Gironella, vou avançar para a re-leitura dos restantes 3 volumes daquela magnífica série.
    2) O mestre de nós todos, de João Araújo Correia, esquecido – injustamente – magnífico autor.
    3) Volfrâmio, Aquilino Ribeiro
    4) On Revolution, Hannah Arendt

    Estou a ler, em stereo… Kolyma Stories, Varlam Shalamov e The Rising 1944(Varsóvia),de Norman Davies

    Regresso aos aviões no próximo dia 8 de Junho

    Grande abraço

    Fernando Antolin

    1. Ora viva, Fernando. Por coincidência, reli recentemente também ‘Volfrâmio’. Um romance muito conseguido, que nos retrata a atmosfera de Portugal durante a II Guerra Mundial, quando fornecíamos o precioso minério em simultâneo aos ingleses e aos alemães. Aquilino foi capaz de escrever quase em cima do acontecimento (o livro é de 1943) com notável argúcia e um impressionante desassombro. Sem esconder para que lado pendia a sua simpatia no conflito bélico enquanto nos traçava um retrato muito impressivo do Portugal rural e serrano do seu distrito de Viseu. Que era o mesmo de Salazar.

      Bom regresso à actividade, meu caro. Eu ainda não posso dizer o mesmo.

  30. Quando estive na casa dos meus pais, poucos dias antes do recolher obrigatório entrar em vigor, trouxe de lá “A Pérola” pois estava decidido a (finalmente) lê-lo. Comecei a ler mas pela página 20 estranhei, pela 50 desconfiei e perto da 100 olhei com atenção para a capa. Percebi que, afinal, não tinha trazido “A Pérola” de John Steinbeck mas sim “A Pérola – jornal erótico vitoriano” (edição Livros do Brasil, 1976).

    Agora a sério.

    Olho para todos estes leitores que aqui escrevem com a mesma inveja de um crente em crise de fé que olha para os fiéis a entrarem numa igreja. A misantropia que há uns três anos deitou a porta abaixo com estardalhaço fez-me perder um pouco o prazer de ler – como se estendesse as mesmas reticências a novos personagens de ficção. Comprei livros, mas permaneceram intactos em pilhas na mesinha da sala. Tenho continuado a ler revistas (acumulei, ao longo dos tempos, uma pequena biblioteca tão extravagante na dimensão como na miscelânea de assuntos) e reli livros. Penso que reler, nesta fase, equivale àquele núcleo de amigos com quem se vai mantendo o contacto mesmo num contexto de “distanciamento social voluntário”.

    A primeira coisa que reli depois de decretado o estado de sítio foi um pequeno volume de contos do Maupassant. A seguir, consegui retirar da mesinha da sala o primeiro episódio da saga Chew (a pequena percentagem de BD nas minhas estantes é um curioso fruto do acaso, considerando o imenso respeito que eu tenho pelo género e por aqueles que possuem o dom do desenho) e também li parte do primeiro volume de entrevistas da Paris Review. A partir daí, só releituras: três dos livros de Agatha Christie protagonizados pela dupla Tommy e Tuppence, Labirinto de Robert Silverberg e comecei neste domingo O Clube Dumas de Arturo Perez-Reverte. Penso que a seguir vou buscar o Primeira Pessoa de Pedro Mexia à mesa da sala. Depois, ainda não pensei no assunto. As minhas (re)leituras foram sempre fruto do acaso, raramente obedecendo a um plano ou a um qualquer cânone (a falar verdade, nunca sequer tentei de outro modo).

    1. Ando também em fase de releituras, João. Quando revisito vários livros de que gostei muito, confirmo uma tendência: passo a gostar ainda mais deles.
      É o que me acontece, por estas dias, com ‘Mau Tempo no Canal’. Já cheguei a um ponto do livro em que começo a ler mais devagar para prolongar o gosto da leitura antes de chegar ao fim.

  31. E depois de tanto e vasto conhecimento literário, extravasando as fronteiras do universo conhecido, ninguém conhece Afonso Cruz.

    1. Claro que nem por sombras me ocorreu o seu nome, caro João Sousa.
      Simplesmente saiu o meu comentário quase coladinho ao seu, e, sei lá.
      Para evitar erróneas interpretações, o melhor é clarificar as coisas.
      Que, vendo melhor, nem precisava deste esclarecimento para o João Sousa compreender, porque pelo que aqui mostra das suas leituras por comparabilidade com outras mostradas, quase lamento ter de dizer-lhe que é duma miséria confrangedora.

  32. O El Profesor

    Este eruditos andaram sem dormir 24 horas por dia durante 2 meses e meio para ler estes livros todos ,que demoram no mínimo, pelas minhas contas 20 anos a ler.
    E aposto que ninguém é mais inteligente do que eu.

    Escandaloso!!!

  33. Caro Pedro, com o meu cepticismo e com a minha sinceridade, que tem tendência para me escapar para a ponta dos dedos, acho que acabei de contribuir fortemente, para fazer deste post o mais comentado da semana.

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