Não sei se convosco acontece o mesmo. Comigo há um padrão imutável: em dois meses, Dezembro e Junho, leio tanto como nos restantes. Ou perto disso. É assim de há muito tempo para cá. E ainda não consegui arranjar uma explicação satisfatória. Mas acontece ano após ano.
Será que os dias de maior exposição solar convidam à leitura? Mas, se assim for, essa regra não deve prevalecer também para Julho?
Será que o aconchego natalício favorece a companhia de um bom livro? Mas Janeiro e Fevereiro, meses mais frios, não deveriam impor ainda maior retraimento doméstico?
A verdade é que tudo se repetiu, em obediência a uma regra insólita, neste Junho agora terminado. Pego no caderno onde vou anotando as minhas leituras e verifico que li nove livros completos – sem saltar páginas, sem interrupções, do princípio ao fim. À média de um título diferente de três em três dias, como sucedia nos meus anos de adolescência em que o tempo parecia durar infinitamente mais. Mas em Maio – lá está – tinha sido bem diferente. Aí cada livro demorou-me dez dias: só consegui ler três. Em Abril, outros três.
De todas essas leituras irei dando nota aqui. Adianto que em Junho foram cinco romances, um ensaio, uma memória, uma colectânea de entrevistas e uma peça teatral. Quatro destas obras mereceram-me cinco estrelas, confirmando que 2016 está a ser ano de boa colheita para o leitor voraz que continuo a ser. E sempre sorrio ao recordar o professor de Direito Constitucional quando nos dizia no anfiteatro da faculdade: “Espero que os senhores já tenham lido muito antes de chegar à Universidade. Porque, se não leram até agora, também não lerão. Eu li o essencial até aos 18 anos.”
Eu tinha 18 anos à época e nunca mais esqueci a solene advertência do professor Jorge Miranda (que por estes dias costumo encontrar à entrada ou à saída de salas de cinema). Acreditei nele e preparei-me para viver o resto dos meus dias mergulhado numa irremediável e desprezível ignorância.
Sei hoje que quase nunca devemos interpretar uma frase pelo seu inteiro valor facial. Esta é uma das lições que aprendi tanto por experiência própria como enquanto leitor atento. Já nem sei por que ordem. Mas também não interessa. Como assinalou Marguerite Yourcenar, num dos romances da minha vida, “a palavra escrita ensinou-me a escutar a voz humana”.

![CAF[1].jpg CAF[1].jpg](http://5.fotos.web.sapo.io/i/B6b049e92/19744053_cmlzR.jpeg)
Eu leio praticamente em igual quantidade todos os meses, curiosamente reduzo em período de férias, mas é explicável, maiores períodos de liberdade permitem-me fazer outras coisas: viagens longas, passeios, reposição de tarefas pessoais atrasadas e mergulhos no mar. No dias laborais qualquer curto momento disponível aproveito na maioria das vezes para ler.
Pois, nas férias o tempo dá para tudo. O maior desafio é precisamente esse: o de lermos durante o resto do ano. Há livros que pela sua estrutura e complexidade não podem ser lidos em doses diárias de cinco ou dez minutos, exigem uma disponibilidade total do leitor, caso contrário nunca chegamos a entrar verdadeiramente neles e o mais provável é ficarem pelo caminho. São esses livros que prefiro levar para férias.
Não sei porquê, mas o sistema colocou-me como tendo a sessão fechada, mas como não gosto de falar a coberto do anonimato, pois considero uma forma de cobardia, embora neste caso não houvesse nada de comprometedor, informo apenas que este comentário é meu. Carlos Faria
Viva, Carlos. ncia/1429792444_486485.html
Por vezes acontece, não faço a menor ideia porquê.
Mas eis a prova: mesmo sob anonimato, neste caso involuntário, é possível haver diálogo civilizado.
Acrescento: é possível e desejável.
No entanto, num mundo em que 25% das pessoas (falo dos espanhóis, mas a percentagem não deve ser inferior em Portugal) continuam a acreditar que o sol gira em volta da Terra, não admira que muitos grunhidos e zurros sejam confundidos com fala.
http://elpais.com/elpais/2015/04/23/cie
Um abraço, Carlos.
Por luso-bussaco, levei sacada de livros.
Perfil do marquês de pombal (para reler partes), grossa biografia de nero, “os alferes”, de mário de carvalho (li-o pela primeira vex e gostei), lazarillho de tormes (para reler tradução de ricardo alberty), história da tortura /um bocado secante)
Li pouco quase nada.
uma modorra pascácia, mole – atirava-me para a piscina, sombra e sol.
Passeei sacada de um lado para o outro, pegava neste ou naquele…mas depois…
Acabei a ler o diário de coimbra, no hotel.
Retornado ao doce lar, estão à mão, para seguirem.
No doce lar é que vai, recordando maus uma vez o injustamente repudiado afonso lopes vieira:
O GATO
O gato à sua janela,
ao sol, que brilha fulgindo,
vai dormindo,
vai pensando
e vai sonhando:
-«Ó minha linda casinha,
tu és minha, muito minha,
nem há outra melhor que ela…».
O gato à sua janela,
ao sol, que brilha fulgindo,
vai dormindo,
vai pensando
e vai sonhando:
-«Pelas noites de invernia,
quando o vento, num lamento
muito lento,muito longo,
muito fundo, de agonia,
ruge e muge,
e a chuva bate à janela,
nos vidros, fina, a tinir,
ai como é bom,
ai como é bom dormir
ao serão, todo enroscado
ao pé do lume doirado,
fazendo ron-ron, ron-ron…
Ó minha linda casinha,
tu és minha, muito minha,
nem há outra melhor que ela…».
O gato à sua janela,
ao sol, que brilha fulgindo,
vai dormindo,
vai pensando
e vai sonhando:
-«Não tenho inveja a ninguém:
nem aos pássaros do ar,
a voar;
nem aos cavalos saltando,
galopando;
nem aos peixinhos do mar,
a nadar.
Não tenho inveja a ninguém
aqui na minha janela,
onde me sinto tão bem!
Ó minha linda casinha,
tu és minha, muito minha,
nem há outra melhor que ela…».
Boa surpresa, trazer-nos aqui Afonso Lopes Vieira. Gostei. E também gostei dessa referência ao Luso, onde há vários anos não vou. Que saudades tenho da mata do Bussaco.
Durante a labuta, entre documentos a analisar, despachos a proferir, e-mails a ler e responder – perco muita da vontade, chegado o fim de tarde. Li que me fartei. Inclusive meia dúzia de jornais on line.
Li desvairadamente.
Mas a partir dos 40 e tais, ritmo diminuiu.
Tirando temas históricos, releio literatura sec 16, 17 e 19, portuguesa.
Muito preguiçosamente.
Até porque vejo cada vez pior.
E ando estafadote…
Cada um sabe o ritmo que mais lhe convém. É bom não haver regras rígidas: os livros exigem muito pouco em comparação com aquilo que nos dão.
Isto é que é gente culta. Bolas, até fico com complexos.
Tem bom remédio. Não fuja dos livros: eles não mordem.
Não fujo, procuro-os. Bem como blogues onde se aprende como este. O meu desgosto é não conseguir, nem por sombras, alcançar o nível aqui demonstrado com tanta leitura. A natureza não me dotou. Nem para a bola: quando dou um chuto sai sempre torto.
Deixe estar, acontece o mesmo a vários jogadores da selecção.
Coltura da boa.
Falar de livros (ou de títulos, portantos), dá cá um, Je ne sais pas, quel intellectuelle…
Oh là là!!
Sé sá, pá.
O Jorge Miranda tinha toda a razão, pelo menos na parte que me toca: aprendi a ler aos 3 ou 4, li compulsivamente até aos 16 ou 17 e depois praticamente parei. Infelizmente os meus pais achavam que não se devia ler certos livros antes de tempo, que era um desperdício. Assim, apesar de ter lido muita coisa às escondidas, não li muita coisa que devia ter lido.
Eu pensei sinceramente que ele tinha razão, Isabel. Aos 20 ainda pensava isso. Aos 25 comecei a ter dúvidas, aos 30 concluí que ele falava dele – e só dele. Não era, não podia ser, uma espécie de lei universal. E mesmo no caso dele confesso ter as maiores dúvidas.
Não confio em gente que anda gorda e “saudavel” e quem tem tempo para ler. O ler não tem mal nenhum atenção, o problema é que enquanto não tivermos todos tempo para ler alguem anda a ser chulado para outros lerem.
A ti não deve faltar tempo, anónimo. Se faltasse não tinhas tanto vagar para escrever nas caixas de comentários dos blogues.
Cuidado que os livros não mordem.
Mas este blogueiro, mesmo com os cometários moderados, nas respostas que dá aos que discorda, é cá com cada mordidela!
Discordaste de alguma coisa? Não reparei.
Mas confirmei que continuas anónimo, continuas a ter tempo de sobra e continuas a desperdiçá-lo. Problema teu.
Nem mais, Pedro. Palavras como punhos, à maneira da Yourcenar. Sendo que eu comentários de anónimos deito logo para o lixo, não falo com quem não se apresenta…
Fazes muito bem. Entrar em casa alheia sem ao menos declinar o nome é de uma grosseria inaceitável.
Ó Pedro mas então eu só comentei uma vez o post para salientar a injustiça que acontece na sociedade onde muitos nem teem tempo para ler e ainda são ostracizados por serem “ignorantes” e mesmo assim atiras pedras?! começas a ver outros comentarios de anominos como sendo meus, cuidado com essa paranoia, menos policiais.
Cuidado com as insónias, amigo.
Ó senhor anónimo, o senhor é muito desconfiado. Não lhe parece que ler – e aqui refiro-me a literatura, a livros propriamente ditos – pode ser uma opção?
Cada um ocupa o seu tempo livre (mesmo que seja pouco) com aquilo que considera prioritário.
Para mim, por exemplo, é impensável adormecer sem ter lido meia dúzia de páginas. E não me parece que, por isso, ande a chular alguém ( si não certamente, que nem faço ideia de quem seja).
Que mania da perseguição, caramba,
Há pessoas que não suportam veros mais leves indícios de felicidade – ou de normalidade – nas outras, Francisca.
Isso é algo que as põe (ainda mais) doentes.
Isaac Asimov referiu-se aos EUA mas a questão, como é evidente, é geral.
Por toda a parte é alimentada e vai-se enraizando a ideia de que “a minha ignorância é tão boa como o teu conhecimento”.
Isso mesmo, meu caro. A ilusão da “democracia digital”, agora tão potenciada pelas chamadas redes sociais. Diluindo a distância entre o sábio e o burro. ncia/1429792444_486485.html
Mas basta raspar ao de leve o verniz da modernidade tecnológica para logo surgir a canga cavernícola. Um quarto dos espanhóis, por exemplo, chega a Bill Gates sem passar por Copérnico:
http://elpais.com/elpais/2015/04/23/cie
Pois comigo acontece mais ou menos igual, ou parecido.
Meses de junho, julho sou um devorador de livros, mas ao contrário do Pedro que não sabe por que isso acontece consigo, comigo sei exactamente porquê!
Futebol! Futebol no seu auge assoberba-me todo o tempo disponível e o outro que devia estar a fazer qualquer coisa de mais útil, mas não. Futebol perco-me e as leituras estão completamente ostracizadas de quaisquer outras prioridades.
Se calhar o caro Pedro Correia pouco ou nada liga às problemáticas da bola rolando e por isso ainda lhe resta tempo disponível nos meses de Dezembro.
Na perspectiva de que não esteja enganado nas minhas suposições, sinta-se um homem feliz. Nem imagina as terrificantes preocupações que o desalmado futebol nos traz.
Resto de um excelente Domingo.
Então não ligo à complexa e profunda “complexidade da bola”, meu caro?
Está testemunhado aqui:
http://sporting.blogs.sapo.pt/
Mas por estes dias nem o Europeu me rouba demasiado tempo às leituras. Espero manter neste Julho a pedalada de Junho.
Votos de bom domingo também para si.
Oh Diabo! Isso é que foi uma surpresa daquelas.

Pedro,
Com mais tempo, ou com menos tempo, não há nada que me dê mais prazer do que agarrar num bom livro e desatar a viajar por ali fora.
Leio de forma consistente ao longo do ano, mas é na altura do Verão que pego na pilha e lhe consigo dar um bom desbaste.
Confesso que sou perita em deixar livros a meio se me estão a dar seca (o tempo de leitura é demasiadamente precioso para ser perdido com coisas que não me interessam) e em saltitar entre um romance, um volume de crónicas e outro de poesia.
Custa-me ultrapassar as primeiras páginas de um livro, mas depois abandono-me ao incomensurável prazer de atingir os meados da história, quando o enredo, as personagens e a linguagem já me cativaram e ainda faltam uma data de páginas para saborear.
Na leitura dos dias de hoje busco, sobretudo, novas vozes. Se calhar é por isso que deixo vários livros a meio – porque quando não as encontro, acabo por achar que estou a ler qualquer coisa que já li (talvez uma sensação de “Déjà Lu”). Mas quando me aparece uma nova voz, das que traz uma perspectiva original e uma linguagem irrepreensível, ganhei o ano. E depois passo os restantes meses a oferecer esse livro a uma data de gente, que é para poder falar dele uma data de tempo e assim conseguir fazer perdurar a magia da descoberta.
Toma lá um abraço
Li-te só agora, Francisca. E gostei muito. Este teu comentário dá sem dúvida um bom texto para o blogue.
Quanto à tua relação com os livros, revejo-me inteiramente nas tuas palavras. Sou assim também. Na dificuldade inicial em mergulhar num livro, na alegria que sinto quando ele enfim me prende, na vontade de descobrir novos títulos e novos autores, na facilidade de pôr um livro de parte se me desagrada ou maça mais do que é razoável.